terça-feira, 24 de dezembro de 2013

24 de dezembro: Esperar o repouso!

Tabernáculo da Paróquia Nossa Senhora da Paz, Boqueirão, Curitiba PR (Massa acrílica sobre madeira) 2002.
Davi e Zacarias, de modos muito diferentes, vivem igualmente um momento precioso em suas vidas, um tempo que poderíamos definir um salto de qualidade. Para Zacarias, o nascimento de João é a ocasião para completar a sua identidade sacerdotal com aquela profética, ao ponto de poder, finalmente, reabrir a boca depois de um silêncio que durou pouco mais de nove meses. Desta vez, as palavras de Zacarias não são mais nem para si mesmo, e muito menos, sobre si mesmo, mas constituem uma cascata de bênçãos que acompanha e dá ritmo, a cada manhã, à oração da Igreja: «Suscitou para nós um poderoso Salvador da casa de Davi, seu servidor» (Lc 1,69). O sinal desta Salvação, oferecida e experimentada agora em todo o seu esplendor, está no fato de que esta é capaz de «dirigir nossos passos no caminho da paz».(1,79).

Zacarias evoca o rei Davi, e a primeira leitura nos faz recordar um momento muito particular que poderíamos definir – também neste caso – um salto de qualidade na vida e na experiência espiritual do rei de Israel. O contesto do diálogo com Natan é muito claro: «Quando se estabeleceu em sua casa, e o Senhor lhe tinha dado repouso de todos os seus inimigos...» (2Sm 7,1). Quando Davi se sente seguro, e depois de se ter colocado em segurança, construindo para si uma «casa de cedro» (7,2), encontra as forças e o tempo para imaginar também um conforto para Deus, que habita simbolicamente na arca. A Davi, e até mesmo para Natan, parece ser uma belíssima ideia, mas o Senhor não o pensa assim... e ao invés de buscar para si um repouso, promete continuar a oferecê-lo: «Eu te darei repouso de todos os teus inimigos. O Senhor te anuncia que fará para ti uma casa» (7,11).

É esta a experiência que somos chamados a fazer, por nosso lado, nestas dulcíssimas horas natalícias. Enquanto tudo está pronto para colocar a imagem do Menino Jesus entre o boi o e burro de nossos presépios coloridos, somos convidados a recordar que é o Senhor que prepara para nós uma almofada apta ao nosso repouso, e o faz justamente oferecendo-nos o travesseiro perfumadíssimo de sua amadíssima humanidade, Toda vez que podemos contemplar uma criança que dorme, sentimos a beleza – unida a uma pitada de nostalgia – daquele senso de paz e de satisfação que todos buscamos e desejamos. O Verbo feito carne vem descansar entre nós e nos convida a repousar com Ele, dando-nos uma trégua de todos os nossos «inimigos», que são as preocupações inúteis e as cansativas ilusões.

A «casa» prometida a Davi não é um palácio maior e mais belo daquele de «cedro», mas é a casa da humanidade do Verbo, na qual toda expressão e experiência da humanidade pode sentir-se finalmente em casa, e encontrar repouso e paz. Enquanto contemplamos o repouso do Menino Jesus no presépio, já o contemplamos adormecido na Cruz: do berço ao tálamo é o caminho do Verbo encarnado, do amor recebido ao amor entregue é o nosso próprio caminho, feito à luz do Astro que surge para guiar nossos passos no caminho da paz... no caminho do dom de si!



Semeraro, M., La messa quotidiana, dicembre, Bologna 2013, 236-238.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

23 de dezembro - O nascimento do novo Elias

São João Batista, P. Ricardo Ramos, Montevideo - Uruguay
Deus faz surgir João Batista, como o novo e o último Elias, aquele no qual se cumpre e completa a longa descendência do profetismo. Todo o profetismo, de fato, não era senão uma preparação à vinda de Deus. Agora, Deus visitará seu povo «como um sol que surge dos abismos» (Lc 1, 78).

E é exatamente isso que, Zacarias, não mais incrédulo como na primeira visita do anjo, mas iluminado pelo Espírito Santo (Lc 1, 67) e repleto do espírito de profecia, reconhecerá neste seu filho, saído de sua carne, do qual contempla, com estupor, a missão no Espírito: «e tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo» (Lc 1,76). Em virtude do olhar profético que penetra, para além das aparências sensíveis, no conteúdo divino da história sagrada, Zacarias vê, no menino, aquele profeta por excelência – não somente profeta, mas «mais que um profeta» (Mt 11,9) – que «caminhará diante do Face do Senhor», isto é, que precederá o manifestar-se de Deus, para «preparar os caminhos» desta manifestação «mediante a remissão dos pecados». E esta manifestação não será o Juízo terrível trazido sobre uma humanidade escrava da morte e do pecado, mas a expressão da «terna misericórdia» que se levantará, como uma aurora, das profundidades dos abismos, como uma luz inesperada no coração das invencíveis trevas. (...) A vocação de João nos aparece como exemplar de toda vocação, enquanto cada vocação é uma eleição. Isto explica, antes de mais nada, a característica absolutamente gratuita da vocação. Deus escolhe como e quando quer, sem ser condicionado por nada, em plena e soberana liberdade. Liberdade, todavia, que não é arbítrio; se a liberdade divina não é condicionada por nada exterior, ela é, no entanto, a expressão dos misteriosos conselhos da sabedoria e do amor. Isto parece eminentemente em João. Ele é escolhido por Deus para uma missão que Deus mesmo lhe destina, não em virtude de qualquer mérito precedente, mas antes mesmo que nascesse. «Ele será repleto do Espírito Santo desde o seio materno» diz o anjo Zacarias (Lc 1, 15). A Igreja não hesitará em utilizar como intróito da sua missa, as palavras com as quais o profeta Isaías designa o eleito por excelência, o Servo de JHWH: «JHWH me chamou desde o seio materno, no seio de minha mãe, pronunciou meu nome» (Is 49, 1). Também aqui, João Batista aparece na sucessão de todos aqueles que Deus tinha escolhido no curso da história sagrada como seus próprios instrumentos. Pois a eleição está sempre em função de uma missão. (...)

A eleição aparece, assim, como um daqueles aspectos dos mores[1] divinos que se manifestam através da história sagrada, e que são o objeto da contemplação profética. Como Maria admirará, na encarnação do Verbo, a manifestação do supremo poder de Deus, assim também, Zacarias admira já, na eleição de João, uma maravilha que só Deus podia realizar. O Benedictus é quase uma profecia do Magnificat. Porém todo esta introdução do evangelho se desenrola como uma liturgia, na qual os mistérios se seguem a outros mistérios, enchendo de estupor, anjos e homens.

J. Daniélou, Giovanni Battista, testimone dell’agnello, 14-17.








[1] Mores= costume, hábito.

sábado, 21 de dezembro de 2013

21 de dezembro - A visita de Maria a Isabel

Visitação, Jean Marie Pirot (Arcabas)
Cumprindo a viagem da Galiléia à Judéia, de Nazaré a Ain-Karin, Maria não se dobra a um evento da história deste mundo, como acontecerá com a sua vinda a Belém na noite da natividade, quando fará obediência a um edito do imperador, e nem mesmo obedece a um mandamento divino, como acontecerá pela fuga ao Egito e o retorno daquela terra, em que cada vez, um anjo do Senhor informa José, em sonhos, seja do perigo que ameaça o menino, seja da morte daqueles que insidiavam a sua vida; não se conforma nem mesmo a uma prescrição da Lei, da qual cumpriria minuciosamente as disposições, como tem o costume de fazer, e como acontecerá durante sua purificação e a apresentação do menino no templo, quarenta dias depois de seu nascimento. Ainda menos vai até Isabel para verificar as palavras do anjo, por que a prima a saúda chamando-a de “feliz aquela que acreditou”, e louva, pois, a fé daquela que já acreditou.

Maria não se dirige para a montanha pela falta de fé na profecia ou por alguma dúvida sobre o que aconteceu em precedência, mas tão somente porque impulsionada pela alegria. Este visitar Isabel responde simplesmente à necessidade de Maria de estar lá onde é necessário um serviço; esta viagem revela a necessidade de Maria de poder cantar a misericórdia do Senhor que vem visitá-la, indo visitar aquela que também foi visitada pelo Senhor.

O tema da visita se encontra em muitas formas ao redor do gesto de Maria: no dia da anunciação, ela foi visitada pelo anjo vindo a comunicar-lhe sua eleição e solicitar seu fiat, seu consentimento. Por outro lado, Isabel, como então revelou o próprio anjo, também foi visitada, porque ela está no seu sexto mês, ela que era conhecida como estéril, e Deus colocou fim a sua vergonha. Em uma ligação profunda com estas duas visitas se cumpre esta outra visita de Maria, na direção da montanha, em uma cidade de Judá.

O tema da visita retorna frequente no evangelho da infância segundo Lucas: visita do anjo Gabriel a Zacarias e a Maria, visita de Maria a Isabel, visita dos pastores à manjedoura, visita de Maria e de José ao Templo, mais tarde, visita de Jesus, aos doze anos, a este mesmo Templo. Todas estas visitas presentes no evangelho da infância, e das quais a Visitação não é senão um exemplo, não são senão uma expressão multiforme da visita de Deus.

A visita de Deus em toda a Escritura indica a sua intervenção, trata-se de juízo ou de salvação. Deus visita quando julga, e Deus visita quando salva. E Maria, no Magnificat, canta a visita de Deus aos homens, da qual ela é o instrumento, canta o juízo e a salvação: os poderosos despedidos de mãos vazias e os pobres saciados, os saciados famintos e os famintos cumulados de bens, os soberbos humilhados e os humildes glorificados. É isto que canta Maria durante sua visita a Isabel.

A visita que ela faz a sua prima é, antes de tudo, uma imagem daquela que o Verbo se prepara para fazer aos homens, incarnando-se no seu seio, porque existe uma semelhança profunda entre o que acontece no seio da Virgem de Nazaré e o que acontece no caminho que separa Nazaré de Ain-Karin. O Verbo de Deus, que vem visitar os homens fazendo-se homem, visita já, neste gesto de Maria, preocupada de anunciar ao mundo a Incarnação. Esta visita, de fato, acontece à imagem da Incarnação; é a maior que se move, que vem servir, levando em si mesma aquele que, em seu seio, está tomando forma de servo e que vem "não para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos” (Mt 10, 45).
J.Goldstain, Harmoniques évangéliques, 18-20.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

20 de dezembro - Anúncio a Maria



Anunciação, Jean Marie Pirot (Arcabas)
As palavras da coleta deste dia nos permitem entrar diretamente no mistério de Maria, como ícone da Igreja e modelo de todo fiel: «A Virgem imaculada acolheu vosso Verbo inefável e, como habitação da divindade, foi inundada pela luz do Espírito Santo». O olhar da Igreja sobre o mistério de Maria, que lhe serve de espelho, é aquele de um espaço que, exatamente porque «o Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra» (Lc 1,35) torna-se um espaço de salvação, digno de ser chamado «habitação-templo». Deste templo, hoje a liturgia nos faz contemplar a «chave de Davi que abre as portas» (antífona do magníficat e aclamação do evangelho da missa). 
Misteriosamente, ainda antes do anúncio do anjo, parece que o coração de Maria já seja completamente aberto e que, nela, não exista nada que precise ser forçado, mas tudo está já pronto para que cada coisa se realize. Talvez o «sinal» (Is 7,14) que Maria é, vem precedido pelo sinal que a torna reconhecível ao anjo Gabriel «entre milhares de milhares» (Ct 5,10) e é por isso que a coleta a indica como parâmetro para que o mistério da Encarnação possa atualizar-se ainda no coração dos fiéis: «Concedei que, a seu exemplo, abracemos humildemente a vossa vontade». Bem diverso é o modo de reagir de Acaz (Is 7,11), que parece fechado por detrás da porta de uma certa devoção, que esconde o medo de confiar-se e de arriscar, com Deus, um percurso novo, de esperança e de vida. Maria é a mulher que se pergunta a si mesma e que tem coragem de perguntar ao anjo, mas com o tom justo: humildemente. Não se esgotará jamais a importância deste instante da história que mudou tudo e sobre o qual, a meditação da Igreja parece inesgotável. 
Amadeo, bispo de Losana – monge cisterciense e contemporâneo de São Bernardo – exprime admiravelmente com estas palavras: «Nós te pedimos, dize-nos qual sentimento te comoveu, qual amor te tomou, quando estas coisas se realizaram em ti, quando o Verbo tomou o teu espírito, os teus sentidos e a tua mente?»[1]. Tudo isto não pode estar senão envolvido pelo mistério de uma intimidade inviolável, mas, para nós fica tarefa de imitar a atitude de Maria, que «humildemente» sabe confiar sua vida, aceitando tornar-se guardiã da vida tão vulnerável do Verbo, que tenta fazer-se carne, para tornar-nos participantes de sua mesma vida divina. Uma palavra podemos levar no coração, como «sinal» (Is 7,14) e é aquela do anjo: «O Senhor é contigo! (Lc 1,28).
Fra Michel Davide OSB

[1] Amedeo di Losanna, Omelie mariane 3.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

19 de dezembro - Anúncio a Zacarias


Anúncio a Zacarias, têmpera acrílica sobre papel, Monastero di Amandola, Itália, 2007.
Zacarias é sacerdote, Isabel pertence à descendência de Araão. «Eram justos diante de Deus, observando, irrepreensíveis, todas as leis e prescrições do Senhor» (Lc 1, 6), e não obstante isso, parecem objeto de um castigo divino. «Isabel era estéril e ambos eram avançados em idade» (Lc 1, 7).
Tem-se a impressão de que a história de Abraão recomece de novo. Como acontece com Abraão e Sara, Deus mesmo intervirá com sua Palavra, e um Anjo será o seu mensageiro. (...)
A aparição de Gabriel no Santuário, durante o oferecimento da tarde, será finalmente o cumprimento próximo da profecia, anunciada no livro de Daniel, referente à vinda do Messias e à unção de um Santo dos Santos (cf. Dn 9, 20-27). E enquanto anuncia a Zacarias que suas orações foram atendidas, o anjo Gabriel, de pé ao lado do altar, descreve a missão do filho que Isabel lhe dará. Diz, antes de mais nada, o seu nome, que já é revelador: «João», que significa «JHWH faz graça».
Deus responde à oração do homem com a superabundância da sua graça. E Gabrel sublinha a alegria trazida pelo nascimento do menino; e já se tem um perfil da alegria messiânica que cumulará a espera de Israel. A consagração de João para uma missão particular é afirmada em termos que recordam a história de Sansão (cf. Jz 13, 4. 13-14) e a instituição do nazierato (cf. Nm 6, 3).
Esta missão consiste no caminhar diante ao enviado de JHWH com o espírito e a força de Elias, isto é, na qualidade de profeta. A plenitude do Espírito Santo que desce sobre ele, desde o seio materno, o coloca nas pegadas de Jeremias (Jr 1, 5), e o seu papel de reconciliador messiânico plenifica a esperança entrevista por Malaquias no final do Antigo Testamento (cf. Ml 13, 24): deve preparar o povo à instauração do Reino.
No momento no qual, para Israel, se anunciam estes dias decisivos, Zacarias se vê reduzido ao silêncio. Ele fez a mesma pergunta de Abraão: «como posso saber que será assim?» (cf. Gn 15, 8), mas sem a fé de Abraão.
Ele opõe a própria situação, assim como a vive, à Palavra Criadora de Deus. Como o primeiro Adão, exige um saber maior que a Revelação que lhe é concedida, mas a Palavra de Deus dá testemunho de si mesma: «quem deu boca ao homem? Ou quem o torna mudo ou surdo, vidente ou cego? Não sou, por acaso, eu, o Senhor? – responde Deus a Moisés, desconfiado e hesitante. – por acaso, não está aí Araão, teu irmão? Tu lhe falarás, e colocarás em sua boca as palavras que serão ditas» (Ex 4, 11. 14-15).
Uma mesma palavra de vida atravessa a carne dos dois esposos, tornando a uma, fecunda, e ao outro, mudo. Zacarias, reduzido ao silêncio, impotente de pronunciar a benção final, deve comparecer diante daquele – Único -- que pode pronunciá-la, e de levar até a plenitude a liturgia iniciada.
Depois, uma vez curado, Zacarias bendirá a Deus, mas a benção sobre o povo será dada, ao final do evangelho (Lc 24, 50-51), por Jesus, que Pedro chamará 'o servo enviado a trazer a benção' (cf. At 3, 26). (...) E com ela, cumprir-se-á, para além de toda esperança, a promessa feita por Deus a Abraão: «Em ti serão abençoadas todas as tribos da terra» (Gn 12 12, 3).
Ph. Bossuyt - J. Radermakers, Jésus Parole de la Grace selon saint Luc, 95-98.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

17 dezembro - Na história dos homens

Capuchin's Bible, c. 1180, Bibliothèque nationale de France, Paris
No início do Novo Testamento encontra-se o homem Jesus, que vem da história dos homens: com sua genealogia, Mateus introduz com muito cuidado, uma longa e confusa história do Antigo Testamento no Novo, que começou com Jesus Cristo. Em uma tríplice série de quatorze gerações, ele retoma, de modo peculiar, toda esta história e a reconduz àquele pelo qual, definitivamente, ela existiu. Ele mostra que esta história, sobre todos os seus caminhos, de maneira misteriosa, coloca em evidência a Cristo; faz ver também que, mesmo no passado, tratava-se sempre e unicamente de um único Deus, que visitava o seu povo e que agora, em Jesus Cristo, tornou-se o irmão dos homens. (...)

A história na qual fez o seu ingresso Jesus, é uma história normalíssima, com todos os escândalos e as vilezas que se encontram entre os homens, com todos os progressos e os bons propósitos, mas também com todas as culpas e baixezas: uma história extremamente humana. As quatro mulheres, que são nomeadas na genealogia, são quatro testemunhos da culpa humana: entre elas está a prostituta Raab, que com um estratagema fez Jericó cair nas mãos dos israelitas; entre elas está a mulher de Urias, da qual Davi se apossou com adultério e homicídio. As coisas não são diferentes se olhamos os homens: nem Abraão, nem Isaac, nem Jacó são figuras ideais; não o era Davi e nem mesmo Salomão; e, enfim, encontramos tiranos, como Acaz e Manassés, cujo trono é banhado com o sangue de pessoas inocentes assassinadas. É uma história tétrica aquela que conduz a Jesus, não sem esperanças e sem momentos positivos, mas no conjunto, uma história de miséria, de culpa, de falência. É este o ambiente no qual poderia nascer o Filho de Deus? – nos vem a vontade de perguntar. A Escritura responde: sim! Exatamente isto nos foi dado como sinal. A encarnação de Deus não é o resultado da ascensão do homem, mas o resultado da descida de Deus. (...)

A genealogia de Mateus começa com Abraão e é, pois, um testemunho da fidelidade de Deus, o qual cumpriu a promessa feita anteriormente a Abraão: ser o portador de uma benção para toda a humanidade. Toda a genealogia, com todas as suas desordens, com seus altos e baixos, é um luminoso testemunho da fidelidade de Deus, que mantém a sua Palavra, não obstante todas as falhas, não obstante toda a indignidade dos homens. O Evangelista Lucas, que nos oferece também uma genealogia de Jesus (Lc 3,23-28), escolheu um ponto de vista diferente. Ele faz chegar a genealogia do Senhor não somente a Abraão, mas até Adão, até às Mãos que plasmaram o homem. Com isto ele deseja indicar que a comunidade de Jesus não é somente um novo Israel, um novo povo de Deus, que Deus reúne para si neste mundo, mas quer afirmar que a missão de Jesus é dirigida à toda humanidade. Não é uma salvação para um grupo, um círculo, mas para a humanidade toda, o mundo. Somente em Jesus Cristo a missão do homem atinge a sua verdadeira meta, somente nele é realizado o projeto criativo «homem»; nele nos apareceu a humanidade do nosso Deus. No rosto de Jesus Cristo apareceu quem é Deus e se manifesta quem é o homem.

J.Ratzinger, Dogma e predicazione, 263-266.



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O TETRAMORFO

Visão de Ezequiel, iluminura, Winchester Cathedral, Hampshire, UK, séc. XII
Desde tempo imemoriais, passando por muitas culturas distintas do Mediterrâneo, encontramos a figura do Tetramorfo, ou da esfinge, que une os quatro seres, Homem, Águia, Touro e Leão. A estranheza da figura só contribuiu para sua ampla difusão nos mundo, e mesmo sua assimilação no judaísmo do Antigo Testamento e também no cristianismo do Novo.

Voltemos ao que pode ser a origem cosmológica do símbolo: As constelações que marcam os solstícios e os equinócios, estes quatro momentos importantíssimos no girar do tempo em um ano, são especificamente a constelação de Aquário, a de Leão, Águia e Touro.
Então, temos na origem o significado profundo do tempo cósmico, não aquele que depende de calendários convencionais e arbitrários, mas o fluir do tempo no universo. Os quatro animais ou seres eram os marcos dos dois solstícios e dois equinócios do ano, momentos chave do tempo. A fato de que sejam quatro tampouco é casual, dado que tudo que se refere ao mundo em que vivemos tem este número: um exemplo, na área do espaço, é o dos quatro pontos cardeais, sem os quais não conseguiríamos localizar-nos na superfície do planeta.
Os quatro filhos de Horus, em forma de vasos canópios, onde eram guardadas as entranhas das múmias, segundo o que cada um dos deuses tinham em função com os orgãos. Note-se a semelhança, seja no número seja nos tipos dos animais que os representam.
Nas concepções antigas, toda a criação é composta de quatro elementos: ar, fogo, terra e água. Então temos o quatro no universo, na superfície da terra e no íntimo da matéria: não por acaso se acreditava que o mundo fosse quadrado, porque de fato o é, não fisicamente, mas com o seu sentido quadrilateral.
Palace Guardian Nimrud, Assyria, c. 965 A.C. British Museum
Em Israel, as doze tribos estavam organizadas como as doze constelações que acompanham o sol em seu percurso anual, o zodíaco, e além disto, no acampamento no deserto, estavam agrupadas de três em três, com uma delas afrente, com seu emblema: Isacar, Zabulon, Judá: Leão; Ruben, Simeão e Gad: Homem; Efraim, Manasses, Benjamim: Touro; Dan, Aser, Neftali: Águia.
A tradição judaica faz corresponder a cada um destes seres, as letras do nome divino YHVH: Y corresponde ao Homem, H ao Leão, V ao touro, e a segunda H à Águia[1].
Teofania de Cristo, com a presença da Merkabah, com suas seis rodas. Mosteiro de Bawit, Egito, séc. VI
Ezequiel, seguindo a cultura de seu tempo, contempla a figura do «Carro de Deus» ou «Merkabah», justamente constituído pelos quatro seres vivos, associados às rodas do carro. (Ez 1,4-28) Este carro simboliza as ações divinas no mundo, o lado externo de o Deus indizível. Existe uma relação constante de natural entre o UNO transcendente (YHVH, o polo celeste) e o quaternário de sua manifestação e de sua ação no mundo criado[2]. A mensagem era, antes de tudo, mostrar a seus compatriotas que YHVH não estava materialmente unido ao Templo de Jerusalém, que a ruína do Santuário não levava à ruína da religião; que YHVH podia encontrar-se com o exilados junto aos rios da Babilônia e aparecer-lhes, más misterioso que nunca, no esplendor de uma teofania que superasse, de muito, as anteriores.
Ascensão de Cristo, no meio do Tetramorfo, Ponta de Santa Sabina, séc. IV, Roma.
A interpretação que Santo Irineu (202) deu aos tetramorfos e que a Igreja fez sua depois dele, situa-se no prolongamento da linha do «Merkabah». Na misteriosa aparição que surge no céu entreaberto, no meio dos quatro viventes, Irineu, referindo-se aos símbolos tradicionais d universo na Antiguidade, reconheceu a manifestação universal de Deus aos homens atentos, sendo esta a figura do anúncio de Cristo ao mundo, pelos quatro evangelhos. «Não é admissível que hajam mais de quatro evangelhos, nem tampouco menos. São quatro as regiões do mundo em que vivemos, e quatro os ventos dos pontos cardeais... Por isso é evidente que o Criador de todas as coisas, o Verbo, que está sentado sobre os querubins (os viventes da visão) e sustenta o universo, quando se manifestou aos homens, deu-nos um evangelho sob quatro formas, porém sustentado por um único espírito.... Os querubins tem, com efeito, quatro figuras (leão, toro, águia, homem) e seus semblantes são imagens da atividade do Filho de Deus».
Evangeliário, Madeira e marfim, Séc. XIII, Museo Cluny, Paris - França.
Irineu expõe o parentesco dos evangelistas com os Viventes, mas é uma aproximação arbitrária e não simbólica, que servirá mais para a iconografia que para outra coisa. Como o evangelho de Mateus começa com a anunciação a José, e nele aparecem os anjos, o Homem será o seu distintivo; Como o de Lucas começa no Templo, com a anunciação a Zacarias, depois do sacrifício do Touro, este animal será o seu distintivo. Já Marcos começa seu relato com Jesus indo para o deserto, e neste evangelho, aparece como o Leão de Judá, assim será representado. Finalmente, João começa seu relato nas alturas do Verbo no princípio de tudo, e por isso, associado à ave que mais alto consegue voar: a Águia.
Evangeliário, Etiópia, séc. XIV.
A associação não esgota o forte conteúdo do Tetramorfo, que tem seu referimento original, como dissemos à universalidade da manifestação do Senhor em relação ao mundo. Alguns autores insistirão que é mais importante o número do que a especificação de cada um deles, no que não concordamos plenamente, dado que uma análise das formas, em seus detalhes pode ser também muito rica. Em uma homilia muito famosa de Macário, o Grande, ele nos dá uma visão bastante interessante:


«O beato profeta Ezequiel narra uma visão e uma aparição divina e gloriosa que contemplou (cf. Ez 1,1s; 10,2s), e a descreveu plena de mistérios inefáveis. Viu, de fato, na planície, um carro de querubins, quatro eram os viventes espirituais, dos quais, cada um tinha quatro faces: a primeira era de leão, a segunda de águia, a terceira de touro e a quarta de homem. Cada face era provista de asas, de modo que não se distinguiam nem a parte anterior, nem a posterior. O seu dorso era coberto de olhos, e também o seu ventre, e não havia neles nenhum lugar que não estivesse cheio de olhos, e ao lado de cada face, existiam rodas, encaixadas umas nas outras; e, nas roda, havia um espírito. E viu uma aparência de homem sentado sobre elas; o escapelo de seus pés tinha a aparência de uma safira. O carro levava o querubim, e os seres vivos levavam o Senhor-Condutor que os conduzia. Onde quer que andasse, era sempre na direção de um dos rostos. E viu sob o querubim como que uma mão de homem, que o sustentava e o carregava. 
O que o profeta percebeu como real era verdadeiro e indubitável. Todavia, a visão deixava entrever uma outra realidade e figurava uma coisa misteriosa e divina, um mistério escondido, na verdade, por séculos e gerações (Cf. Col 1,26), mas que tornou-se visível nos últimos tempos (Cf. 1Pd 1,20) através da manifestação de Cristo. O profeta, de fato, contemplou o mistério da alma que recebe o Senhor e se torna o trono de sua Glória ( cf. Mt 19,28; 25,31) [3]

Para Macário, os quatro seres vivos que levavam o carro eram a figura das faculdades que regem a alma. De fato, como a águia reina sobre as aves, o leão sobre os animais selvagens, o touro sobre os animais domésticos e o homem, sobre a criação, assim acontece com as potências da alma, que reinam sobre as outras. Trata-se da vontade, da consciência (moral), do intelecto e da faculdade de amar. Elas dirigem o carro da alma, e nele, Deus repousa. Do que podemos inferir que o ser humano é a Merkabah de Deus no mundo.
Beatus de Fernando I - Liturgia Celeste - Biblioteca Nacional, Madrid - Vit. 14.2, f. 116v
Não se trata simplesmente de uma visão psicologizante, mas em perceber que o ser humano tem quatro dimensões. Quatro modos de ser no mundo, também ligados aos quatro elementos que estão na base de todas as coisas, a terra, o fogo, o ar e a água! Bastante diferente da visão helenística do corpo-alma, a que estamos acostumados.

Uma ajuda, nesta reflexão quadrilateral, vem de Pierre Weil[4], na qual, seguindo a intuição do tetramorfo das culturas mediterrâneas, associa apropriadamente os três seres às dimensões do homem: o Touro à parte vegetativa, o Leão à irascível, e a Águia à intelectiva.

Interpretação de Weil sobre o tetramorfo, com os geniais desenhos de Roland Tompakow.
O autor desenvolverá uma inteligentíssima leitura destas dimensões em relação com nosso corpo, mostrando como temos uma linguagem própria, muito para além das palavras, em cada mínimo gesto de nosso rosto ou corpo. O limite da visão de Weil é o fato de que ele não leve em consideração o número, que desde sempre foi o que marcou o símbolo. Ele vai definir que o quarto elemento, o Homem, é a somatória dos outros três, mas isto nunca acontece no campo da linguagem simbólica, ainda que possamos ter a complexa posição de um quarto elemento que seria também um quinto, por simbolizar os quatro juntos, não é o que se trata aqui. Por isso, à reflexão de Weil acrescentamos a visão de Macário nos primeiros séculos do cristianismo, em que o Homem-Anjo representaria a dimensão espiritual do ser humano, aquela parte que deseja e anseia pelo transcendente, mesmo que não religioso propriamente dito. É aquela parte de nosso ser que tem nostalgia da Beleza original. Muito da “religião” do mundo sem religião é direcionada para as artes, os concertos são como cerimônias sacras, os museus como novos templos, tudo levando a experiências de comunhão que vão além do simplesmente físico, racional ou afetivo. O mesmo pode acontecer com ideologias ou a política encaradas com fanatismo.
Tetramorfo em uma única figura. Afresco em um dos mosteiros Meteora, Grécia.
Poderíamos então concluir que o Touro trabalha por todos, o Leão ama por todos, a Águia busca as razões para todos, e o Anjo realiza a comunhão profunda por todos.

Sintetizando, nas manifestações de Deus, chamadas teofanias, encontrarmos os quatro seres vivos, o Tetramorfo, com múltiplas funções, como vimos acima: como Merkabah, carro de Deus, simbolizando sua mobilidade e presença junto de seu povo, através de símbolos cósmicos justamente para mostrar que este “estar com” vai infinitamente além do mero planeta Terra; Os seres simbolizam as doze tribos do Povo Eleito, resumidas nos quatro que estão à frente, assim como as quatro letras do Nome Divino, que como o carro, revelam, sem desvelar, a Presença invisível. Finalmente, também os quatro elementos que compõe o universo, a terra, o fogo, o ar e a água, com seus equivalentes das quatro dimensões humanas, das áreas vegetativa, irascível, intelectiva e
espiritual, que aparecem como moldura de um quadro, como janela de um Mistério maior: O Senhor se manifesta não somente para uma das dimensões do ser humano, mas para todas elas simultaneamente.
O equilíbrio de uma existência é justamente aquele de que cada dimensão cumpra sua função, e os Padres da Igreja, e também os Pais do Deserto, vão mostrar que as doenças do cristianismo estarão sempre em conexão com a falta de harmonia entre os quatro seres dentro de nós, pois somos a Merkabah de Deus no mundo.
[1] Champeaux, G. et Sterckx, S. Le monde des Symboles. St. Léger Vauban: Zodiaque, 1972, 510.
[2] Hani, J. , El simbolismo del templo Cristiano, José J. De Olañeta Editor, Barcelona, 1983, 81-82.
[3] Macario il Grande, Hom I, 1-3, PG 34, 451AB; Les homélies spirituelles de saint Macaire, Spiritualité Orientale n. 40, Abbaye de Bellefontaine 1984, 89-91.
[4] Weil, P. O corpo fala. Petrópolis: Vozes, 2005.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

TC 21 6 Sexta - Com as mãos vazias!

Parábola das Dez Virgens, no Codex Purpureus Rossanensis, séc. VI. Notar como a Festa de Núpcias acontece no Paraíso, com os 4 rios e as árvores cheias de frutos. Interessante também, neste manuscrito, o fato de que, na parte de baixo, apareçam personagens bíblicos que "apontam" para o mistério com seus textos proféticos.
Não podemos esconder, nem de nós mesmos, que a parábola das «dez virgens» (Mt 25,1) nos deixa sempre um pouco desconcertados, e ainda mais, profundamente perturbados. De fato, dar-nos conta de que cinco destas moças permanecem de fora, no escuro e na tristeza, enquanto dentro se festeja tão alegremente, deixa-nos com um amargo na boca. E, ainda por cima, foi o Esposo que chegou tarde e, não obstante tudo, estas pobres moças correram na noite a procurar o óleo. O ponto que permanece inquietante é que as outras cinco – a que se reconhece o privilégio de serem sábias – não compartilharam o seu óleo e parecem não experimentar nenhum tipo de constrangimento diante de do fato de que suas amigas ficaram de fora da festa. As parábolas são parábolas! Porém não podem, como não devem, tornarem-se sistemas dogmáticos! O que talvez não funcionou no coração das jovens é o que nos será contado melhor na parábola seguinte, e com a qual, amanhã, concluiremos a leitura anual do Evangelho de Mateus.

Afresco do Mosteiro Decani, no atual Kosovo, Servia. séc. XIV.
A tolice desta moças, que se encontram diante de uma «porta» rigorosamente «fechada» (25,10), frequentemente é também a nossa falta de sabedoria, que exige uma certa previdência. Esta tolice consiste no pensar mais em fazer uma boa imagem diante do esposo que chega, a tal ponto de correr desesperadamente em busca do óleo, mais que colocar em primeiro lugar a preciosidade de estar lá quando, cedo ou tarde, o esposo chegará. O que arrisca faltar-nos é o óleo da confiança, e por isso andamos continuamente à procura do óleo da aparência. Mesmo que as outras moças tivessem compartilhado com elas o óleo trazido consigo «em pequenos vasos» (25,4), ainda assim não teria sido o seu óleo! Por isso a coisa mais simples teria sido aquela de esperar a chegada do Esposo com mãos vazias e coração pobre, apresentando-se a ele na própria verdade... talvez não teriam ficado para fora! O apóstolo Paulo conclui a sua exortação com um conforto fundamental: «... mas Deus mesmo, que vos doa o seu Santo Espírito» (1Ts 4,8). É esta a reserva de óleo puríssimo e necessário, que não podemos ir comprar dos «vendedores» (Mt 25,9), mas que o Esposo, chegando no coração das nossas noites pode derramar como dom nos nossos corações, porque o desejo e o amor não se apaguem. Portanto, para que isto possa acontecer, é necessário ter a coragem e a simplicidade de esperá-lo, mesmo que, e sobretudo, de mãos vazias... com o coração humilde e sincero. São dez as virgens, convidadas para as núpcias, que esperam o Esposo. Neste número que remete à algo completo, compreende-se que toda a humanidade é convidada a entrar na vida íntima de Deus. Pode-se compartilhar a espera, mas o desejo profundo não pode ser senão pessoal, que para ser verdadeiro, deve saber colocar diante do Senhor toda a nossa pobreza, que Ele, como Esposo generoso e fiel, é capar de cumular e derramar até transbordar.
Paarábola da vigilãncia, têmpera sobre madeira (2x1,5 mt), 2003. Mosteiro da Ressurreição, Ponta Grossa PR
Senhor Jesus, estamos diante de ti com as nossas mãos vazias, e do profundo de nosso coração, também nós gritamos: «Abre-nos!» Abre a tua mão e derrama no nosso coração o óleo preciosíssimo daquele Espírito que nos faz viver na plena confiança de sermos acolhidos, mesmo se o nosso coração nos parece assim tão vazio e pobre.

Semeraro, M., La messa quotidiana, Bologna, agosto 2013, 606-608.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Batistério de Parma - A porta Oeste - Juízo Final

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Batistério de Parma, Séc. XII-XIV, Reggio Emilia, Itália
O batistério do Duomo de Parma merece uma vida inteira de estudos, pois é um dos poucos conjuntos que chegaram até nós, muito modificado, mas conservando uma considerável quantidade de obras de arte do período medieval, no qual foi elaborada esta forma. Como costuma acontecer neste período, não se faz simplesmente uma construção e depois se pergunta que vamos colocar nela. Existe já uma Tradição que orienta as formas e os programas iconográficos, que é utilizada com grande liberdade e criatividade. Escolhemos um dos três portais que tem este batistério, aquele ocidental, para mostrar um exemplo de programa para uma porta de igreja.
A temática desta porta é a do Juízo Universal, praticamente a mesma da parede frontal da Capela Sistina, alguns séculos mais tarde. Bastante evidente a figura do Juiz Bondoso e Justo, o Cristo, com proporções gigantescas em relação a todo o conjunto de personagens. Ele aparece mostrando os sinais da Paixão impressos em seu corpo, as Santas Chagas gloriosas, e os anjos ostentam os instrumentos da mesma, com todo o respeito (mãos cobertas com um véu). Ao seu redor, sentados nos galhos da Vinha, os doze apóstolos que intercedem por nós no Juízo. A visão deste Juízo é a de que o preço de nossos pecados já foi pago pelos sofrimentos do Senhor! Então de quê se trata o julgamento? Segundo o texto do Evangelho, no aceitar esta redenção oferecida por Cristo! Só isto? Alguns detalhes precisam ser esclarecidos...
Antes do Juízo, é preciso despertar os que dormem na morte. Os anjos com as trombetas chamam todos os mortos, de todos os tempos, e a terra e as sepulturas devolvem os mortos. Note-se que sob os pés do Senhor está um rio, que é o Jordão, que separava o tempo do deserto e peregrinação da Terra Prometida, que será o símbolo do Paraíso.
Despertam todos, bons e menos bons... todos nus, pois a nudez tem relação com o nascimento e a morte, no caso serve para mostrar que estão mortos e estão nascendo de novo, e também, que diante da morte, todos somos iguais.
Do lado direito do Senhor, despertam os benditos, e se nota que o são, primeiro pela sua atitude, rostos tranquilos, mãos abertas ou juntas, que são dois modos de orar. Digno de nota é o fato de que eles sejam 8, pois este número está ligado à Ressurreição do Senhor, acontecida no oitavo dia da semana, o domingo de Páscoa, que marcará o início dos tempos do Reino. Por isso as fontes batismais costumavam ter oito lados, assim como os batistérios, como este que estamos contemplando.
Do lado esquerdo do Senhor, os malditos... são mais rígidos que os benditos, tem rostos mais duros, e as mãos estão fechadas, são em número de 7 que é a perfeição, eles estão ligados ao tempo cronológico e não do Reino. O pior de tudo é que o sete, ligado à maldição, dá um caráter irreversível à situação.
O quê distingue esses dois grupos? O terceiro personagem dos malditos nos ajuda a entender, ele aponta para cima, mas não olha na direção, como que perguntando ao outro ou a si mesmo: quem é aquele lá?
No batente da direita do Senhor, vemos o critério do Juízo: as boas obras! enumeradas em seis, que é o número dos dias de trabalho em uma semana.

Notemos um detalhe importantíssimo: é sempre o mesmo personagem que realiza as boas obras, o homem com barbas e cabelos longos, com túnica, manto. O mesmo que aparece do outro lado na parábola dos operários da vinha! Este personagem não está entre os ressuscitados acima... pois todos são imberbes e tem cabelos curtos como as crianças. Quem é este personagem? Não pode ser outro que o mesmo Senhor! 

No primeiro milênio do cristianismo e um pouco dos séculos XII e XIII ainda é viva a reflexão de que quando um cristão faz uma obra boa ao outro, não é ele que a faz, mas o Cristo nele! Ele é somente um instrumento do Senhor. Praticamente é o inverso de uma aplicação moralista do texto evangélico, na qual seríamos obrigados a ajudar os outros, por uma obrigação que condicionaria nossa salvação. As boas obras ajudam o cristão a experimentar Cristo dentro dele mesmo, e consequentemente, a conhecê-lo. O texto do Evangelho fala de obras, realizadas ou não, sem a consciência de que se fazia para Ele. O Senhor nos coloca em guarda, para que não privilegiemos os "bons sentimentos" em detrimento da ação concreta para aquele que precisa. 
A parábola de Mateus 20,1-16 é apresentada também em seis voltas dos ramos da vinha, representando as seis horas em que o Senhor da Vinha busca operários para trabalhá-la. O da primeira hora é pequeno, pois representa aqueles que servem ao Senhor desde criança. Aqueles da segunda, são maiorzinhos.


Os das últimas horas são adultos, e é notável que nas duas últimas voltas o Senhor toca a Vinha com sua mão direita. Se são os seis dias da semana, então são a Sexta feira e o Sábado, período mais intenso da sua Paixão, morte e sepultura.

O "pagamento" não é o merecido, mas o concedido, e isso provoca murmuração entre os primeiros, que queriam ganhar mais que os da última hora. Seja o batente das boas obras, seja este, revelam um Deus que não segue os parâmetros racionais, e que é mais humano que os humanos. Tudo é Graça, tudo é de graça, somente que para entrar nesta dinâmica, precisamos nos "revestir" de Cristo, a Divina Graça. A Salvação é gratuita, mas é preciso buscá-la onde se encontra: fora, no Cristo que sofre no outro, e dentro, no deixar que Ele realize a obra, através de meu ser.
Os 12 apóstolos (incluído Matias no extremo esquerdo) estão na faixa externa do semi círculo, e o quê faz São Paulo dentro? Dado que ele está do lado dos Benditos do Pai, e preciso buscar a razão bíblica de sua presença nesta área, já que na arte medieval não encontramos arbitrariedades... ICor 13 pode nos dar uma chave: o hino da caridade, que afirma que tudo passará, menos a caridade. "No horizonte desta vida seremos julgados sobre o amor!", diz São João da Cruz, e este portal inteiro não diz outra coisa que isto.
Batistério, porta Norte, dedicada os Mistérios da vida de Cristo.
Como dizíamos, no início, o conjunto do Batistério de Parma oferece material para muito estudo, mas sobretudo para reflexão e oração com os olhos, pois as coisas mais importantes são aquelas que não entendemos...
Com a mesma Graça do Senhor, esperamos oferecer outras visitas a este santo e belo lugar!














domingo, 23 de junho de 2013

A RENOVAÇÃO QUE VEM DOS RITUAIS

Adoro rituais. Eles me ensinam a descobrir o novo naquilo que sempre é. Rituais não se repetem. Não são círculos que se fecham em si mesmos, mas espirais que ascendem, em direção ao Magis.

Há possibilidade de rito ou mesmice em tudo o que fazemos e vivemos. Como professor, já preparei uma mesma aula e a ministrei (chique a palavra; ministrar) a diversas turmas, da mesma série, repetidamente. Para mim, cada uma daquelas aulas era um rito novo.

O segredo da novidade estava na interação com os alunos. O conteúdo era o mesmo, o esquema, até as brincadeiras que um bom professor introduz na sua fala para tornar a aula menos massante e pesada, mas a relação com o outro faz toda a diferença.

Naquela turma, há aquele aluno, sentado na fileira do canto, perto da janela. Quando começo minha aula, seus olhos brilham. Adivinho nele a curiosidade vital, cheia de perguntas instigantes, que desafiam o professor que sou a ser cada vez melhor.

Há o outro lado. A turma difícil, o aluno do fundão. Enquanto faço minha exposição, risos clandestinos cruzam o espaço entre as carteiras. Tenho que ficar atento à matéria, à forma como apresento a matéria e o escasso interesse de alguns dos ouvintes. É aquela aula da qual saio exausto, tenso, mas com a sensação de conquista, como quem acabou de enfrentar a escalada de uma montanha e chegou ao cume.

Há rituais que nos relaxam como uma sessão de massagem, outros que nos tensionam como uma reunião de condôminos para discutir as contas e despesas do prédio.

Em todos eles, sempre, o que faz diferença é a relação que estabelecemos com o outro.

Um rito eucarístico, por exemplo, pode ser uma experiência de profunda comunhão ou imensa solidão. A missa é encontro eclesial em torno de uma mesa. Nela, o Cristo se reparte e convida ao compartilhamento. Por isso se diz; “felizes os convidados para a ceia (ou a mesa) do Senhor...”.

A assembléia, então, se move em direção à mesa. Em procissão, as pessoas se aproximam, se tocam, convergindo para o mesmo ponto. A comunhão ali ritualizada é imagem e convite à comunhão a ser vivenciada no dia a dia.

Missas e outros ritos podem ser, também, uma experiência de isolamento e distanciamento. Ainda há pessoas que ali vão para cumprir uma obrigação, um preceito, de olho no relógio, pés e coração na direção da porta de saída. O outro, ao lado, é um incômodo. Há quem diga que é melhor ir à igreja quando ela está vazia.

Igreja vazia... o avesso da comunhão, a morte do ritual do encontro.

Mas há ritos, também, fora das igrejas. O sagrado é maior que templos ou instituições.

Ir à padaria, por exemplo, num sábado ou domingo pela manhã, bem cedinho, é um ritual sagrado que faço com prazer e gosto. A rua recém amanhecida, o sol se espreguiçando no berço de nuvens e montanhas do meu belo horizonte, o frescor da madrugada ainda presente, resistente, na brisa, nas folhas das árvores.

Fregueses madrugadores como eu, sempre os mesmos, as meninas atarefadas do outro lado do balcão, o pão quentinho, tostado, os sentidos todos atentos a essa inundação de cores, aromas, rumores, a água na boca diante da cesta de pães de queijo fumegantes...
Estendo a mão para escolher os mais atraentes. Um rapaz, ao meu lado, faz o mesmo gesto e esbarra em mim. Sorri, pede desculpas, dá um passo atrás.

- O senhor me desculpe, passei quase a noite toda acordado...

(Que mania as pessoas tem, de uns tempos pra cá, de me chamar de senhor...)

- Espero que tenha sido por uma boa causa! - brinca o menino moleque em mim.

- Mariana, dois meses, chorou a noite toda. Cólicas...

Num átimo, lembro-me das muitas noites mal dormidas ou indormidas, ao redor do berço dos meus três bebês, num ritual de fraldas a trocar, mamadeiras, massagens na barriguinha, funchicória na chupeta, o carinho sonolento, os passos titubeantes pelo quarto às escuras levando nos braços o tesouro maior da vida de um pai, de uma mãe.

- Ah, então foi por uma ótima causa!

Ele, num sorriso cansado mas sincero, entende e confirma:
- É, uma ótima causa a Mariana...

O rito não terminou. Na saída, passa por mim um senhor (outro) passeando com um cachorro. Não o conheço, nunca o vi. Mas nossos olhos se cruzam e ele entende e apreende em mim, num átimo, um sorriso de leveza e felicidade que sobrevive e transborda. Também sorri e me dá um raro e natural “bom dia”. Respondo com a mesma intensidade.

Pronto; aquele simples “bom dia” do sujeito anônimo foi o “Amém” que eu precisava para fechar o rito matinal que me tira do anonimato da cidade grande e me faz humano, entre humanos.

Sigo em frente, amanhecidamente humanizado, pronto para os outros tantos e muitos ritos do dia, dos dias, da vida que me espera e convida para celebrar a vida que vibra no sagrado cotidiano que se faz altar dos meus sonhos.

Prof. Eduardo Machado

Jornal de Opinião Edição 1133
Arquidiocese de Belo Horizonte/MG

sábado, 25 de maio de 2013

Silêncio Litúrgico


«O silêncio não se restringe somente no plano das nossas palavras – escreve Madeleine Delbrêl: existe aquele da Palavra de Deus, do Verbo de Deus feito carne, para que possa ser gritada a Palavra de Deus por tudo aquilo que faz de um homem um homem, para que ela seja escrita mesmo na sua carne». Parece fazer eco ao convite da constituição Sacrosanctum Concilium (nº 30), que faz parte das disposições conciliares sobre a participação ativa dos fiéis: «Observe-se, também, no devido tempo, o sacro silêncio». Esta solicitação provém principalmente do desejo dos fiéis de interiorizar palavras e gestos das celebrações comunitárias. Reintroduzir «instantes de silêncio» significa favorecer o recolhimento, a meditação da Palavra ouvida, a oração interior de louvor e de agradecimento. É a instrução Musicam Sacram a indicar a função e a motivação de fundo do silêncio da liturgia: «Observe-se, no devido tempo. O sacro silêncio; por ele, de fato, os fiéis não são reduzidos a participar da ação litúrgica como estranhos e mudos espectadores: e sim se inserem mais intimamente no mistério que se celebra, em força das disposições internas, que derivam da Palavra de Deus que se escuta, dos cantos e das orações que se pronunciam e da união espiritual como o sacerdote que profere as partes que a ele cabem».

A introdução ao Lecionário disciplina este silêncio, prevendo os modos e os tempos. O silêncio deveria encontrar espaço depois da saudação, antes do ato penitencial, e preceder a proclamação da leitura: o leitor, pois, não deve subir ao ambão senão quando os ritos de introdução estiverem concluídos. Deste modo, a assembleia terá todo o tempo para sentar-se e predispor-se à escuta. São previstas breves pausas de silêncio entre as leituras: entre a primeira e o salmo responsorial; entre o salmo e a segunda leitura, entre esta e a aclamação ao evangelho. Neste caso, o diácono ou presbítero deverá esperar alguns instantes antes de levantar-se para a proclamação. Enfim, a liturgia da Palavra prevê uma pausa de meditação depois da homilia, para favorecer a interiorização das leituras e preparar a liturgia eucarística. Um último espaço de silêncio segue a comunhão. Caso singular, o silêncio abre a liturgia na Sexta-feira Santa: «O sacerdote e os sacros ministros chegam ao altar e, feita a reverência, prostram-se por terra, ou se ajoelham: todos, em silêncio, oram por um breve tempo». Como a liturgia, também o local da celebração deve ter um cuidado atento para os próprios espaços de silêncio, que se traduza em estar livre de excessivas decorações, dos múltiplos cartazes e frases escritas, de flores e plantas colocados sem critério, em qualquer lugar: não é multiplicando o número de enfeites, de fato, que se torna melhor o serviço da liturgia. Cultivar o silêncio representa, no fundo, uma explicação vivida do convite de Jesus a adorar o Pai em espírito e verdade(4,21.23-24). O silêncio, vivido com consciente profundidade na eucaristia, pode favorecer também uma «cultura do silêncio», uma espécie de hesicasmo moderno, que seria salutar, sobretudo na vida pessoal e nas relações sociais, nas quais, com frequência, dominam a agitação e a superficialidade: cultivar o silêncio significa exercitar-nos na atenção ao outro, examinar-nos para compreendermo-nos melhor e não nos fecharmos em nosso narcisismo, refletir sobre nossas escolhas e prever suas consequências. O silêncio cristão é, fundamentalmente, a consciência do mistério transcendente de Deus, revelado em Cristo: atitude adorante e maravilhado diante do Deus inefável, que revelando-se não dissolveu o seu mistério, mas o tornou participável.
Semeraro, MichelDavid, Messa quotidiana – agosto, Bologna 2010, 544-545. 

domingo, 19 de maio de 2013

TP 08 1 O envio do Espírito Santo


Ao dar a seus discípulos poder para que fizessem os homens renascer em Deus, o Senhor lhes disse: Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28,19)

Deus prometera, por meio dos profetas, que nos últimos tempos derramaria o seu Espírito sobre os seus servos e servas para que recebessem o dom da profecia. Por isso, o Espírito Santo desceu sobre o Filho de Deus, que se fez Filho do homem, habituando-se com ele a conviver com o gênero humano, a repousar sobre os homens e a morar na criatura de Deus. Assim renovava os homens segundo a vontade do Pai, fazendo-os passar da sua antiga condição para a vida nova em Cristo.

São Lucas nos diz que esse Espírito, depois da ascensão do Senhor, desceu sobre os discípulos no dia de Pentecostes, com o poder de dar a vida nova a todos os povos e de fazê-los participar da Nova Aliança. Eis por que, naquele dia, todas as línguas se uniram no mesmo louvor de Deus, enquanto o Espírito congregava na unidade as raças mais diferentes e oferecia ao Pai as primícias de todas as nações.

Foi por isso que o Senhor prometeu enviar o Paráclito, que os tornaria capazes de receber a Deus. Assim como a farinha seca não pode, sem água, tornar-se uma só massa nem um só pão, nós também, que somos muitos, não poderíamos transformar-nos num só corpo, em Cristo Jesus, sem a água que vem do céu. E assim como a terra árida não produz fruto se não for regada, também nós, que éramos antes como uma árvore ressequida, jamais daríamos frutos de vida, sem a chuva da graça enviada do alto.

Com efeito, nossos corpos receberam, pela água do batismo, aquela unidade que os torna incorruptíveis; nossas almas, porém, a receberam pelo Espírito.

O Espírito de Deus desceu sobre o Senhor como espírito de sabedoria e discernimento,espírito de conselho e fortaleza, espírito de ciência e de temor de Deus (Is 11,2). É este mesmo Espírito que o Senhor por sua vez deu à Igreja, enviando do céu o Paráclito sobre toda a terra, daquele céu de onde também Satanás caiu como um relâmpago (cf. Lc 10,18).

Por esse motivo, temos necessidade deste orvalho da graça de Deus para darmos fruto e não sermos lançados ao fogo, e para que também tenhamos um Defensor onde temos um acusador. Pois o Senhor confiou ao Espírito Santo o cuidado da sua criatura, daquele homem que caíra nas mãos dos ladrões e a quem ele, cheio de compaixão, enfaixou as feridas e deu dois denários reais. Tendo assim recebido pelo Espírito a imagem e a inscrição do Pai e do Filho, façamos frutificar os dons que nos foram confiados e os restituamos multiplicados ao Senhor.

Do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo
(Lib. 3,17,1-3:SCh34,302-306)         (Séc.II)