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sábado, 18 de maio de 2013

TP 07 7 A unidade da Igreja fala todas as línguas

Claustro do Mosteiro de Silos, séc. XIII, Espanha.


        Os apóstolos começaram a falar em todas as línguas. Aprouve a Deus, naquele momento, significar a presença do Espírito Santo, fazendo com que todo aquele que o tivesse recebido, falasse em todas as línguas. Devemos compreen­der, irmãos caríssimos, que se trata do mesmo Espírito Santo pelo qual o amor de Deus foi derramado em nossos corações.
        O amor haveria de reunir na Igreja de Deus todos os povos da terra. E como naquela ocasião um só homem, recebendo o Espírito Santo, podia falar em todas as línguas, também agora, uma só Igreja, reunida pelo Espírito Santo, se exprime em todas as línguas. Se por acaso alguém nos disser: "Recebeste o Espírito Santo; por que não falas em todas as línguas?" devemos responder: "Eu falo em todas as línguas. Porque sou membro do Corpo de Cristo, isto é, da sua Igreja, que se exprime em todas as línguas. Que outra coisa quis Deus significar pela presença do Espírito Santo, a não ser que sua Igreja haveria de falar em todas as lín­guas?"
        Deste modo, cumpriu-se o que o Senhor tinha prometi­do: Ninguém coloca vinho novo em odres velhos. Vinho novo deve ser colocado em odres novos. E assim ambos são preservados (cf. Lc 5,37-38).
        Por isso, quando ouviram os apóstolos falar em todas as línguas, diziam alguns com certa razão: Estão cheios de vinho (At 2,13). Na verdade, já se haviam transformado em odres novos, renovados pela graça da santidade, a fim de que, repletos do vinho novo, isto é, do Espírito Santo, parecessem ferver ao falar em todas as línguas. E com este milagre tão evidente prefiguravam a universalidade da futu­ra Igreja, que haveria de abranger as línguas de todos os povos.
        Celebrai, pois, este dia como membros do único Corpo de Cristo. E não o celebrareis em vão, se realmente sois aquilo que celebrais, isto é, se estais perfeitamente incorpo­rados naquela Igreja que o Senhor enche do Espírito Santo e faz crescer progressivamente através do mundo inteiro. Esta Igreja ele reconhece como sua e é por ela reconhecida como seu Senhor. O esposo não abandonou sua esposa; por isso ninguém pode substituí-la por outra.
        É a vós, homens de todas as nações, que sois a Igreja de Cristo, os membros de Cristo, o corpo de Cristo, a esposa de Cristo, é a vós que o Apóstolo dirige estas palavras: Supor­tai-vos uns aos outros com paciência, no amor. Aplicai-vos em guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz (Ef 4,2-3). Reparai como, ao lembrar o preceito de nos supor­tarmos uns aos outros, falou-nos do amor, e quando se referiu à esperança da unidade, pôs em evidência o vínculo da paz.
        Esta é a casa de Deus, edificada com pedras vivas. Nela o Eterno Pai gosta de morar; nela seus olhos jamais devem ser ofendidos pelo triste espetáculo da divisão entre seus filhos.
Dos Sermões de um Autor africano anônimo, do século VI
(Sermo 8,1-3: PL 65,743-744)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

TP 07 6 O Espírito é a novidade que age no mundo

Nos últimos tempos, que são os nossos, a potência escondida da ressurreição é o evento da novidade. Deveríamos reler os textos de S. Paulo relativos a esta energia[1] da ressurreição, que finalmente se difunde no mundo através do evangelho. Isto significa, para nós, que em cada evento o Verbo Incarnado, mundo novo, vem ao nosso mundo de morte. Ele entra na morte. Jesus realmente morreu; mas esta invasão do Deus Vivente faz despedaçar as múltiplas correntes que prendiam o homem na escravidão, correntes que são o demônio, o pecado, a morte, a lei, a carne, no senso paulino do termo. A cruz foi a hora da novidade: o eschaton[2], o século futuro, entrou em nosso tempo e fez explodir todas as nossas tumbas. Esta morte é a nossa ressurreição. «Eis que com a cruz a alegria invadiu o mundo inteiro» (Ofício pascal bizantino, sexta ode). Para nós, hoje, a coisa mais urgente é, talvez, redescobrir «qual é a extraordinária grandeza da sua potência sobre nós, os crentes, segundo a eficácia da sua força, que ele manifestou em Cristo, ressuscitando-o dos mortos» (Ef 1,19-20).

A ressurreição é a inauguração da parusia[3] no nosso tempo, e é por isso que nós podemos esperar, com certeza e impaciência, o cumprimento anunciado por aquele que está sentado no trono (Ap 21,5). Por isso nós «esperamos ardentemente como salvador o Senhor Jesus Cristo, que transfigurará o nosso corpo de miséria, para conforma-lo ao seu corpo de glória, em virtude da energia que ele há de submeter a si todas as coisas» (Fl 3,20-21).

Como nosso «hoje» pode se tornar o evento pascal, que aconteceu de uma vez para sempre? É graças a aquele que desde a origem e na plenitude dos tempos é o artífice: o Espírito Santo.

Ele é a novidade que opera no mundo, a presença do Deus-conosco, «unido ao nosso espírito» (Rm 8,16); sem ele, Deus está longe, o Cristo permanece no passado, o evangelho é letra morta, a igreja uma simples organização, a autoridade um domínio, a missão uma propaganda, o culto uma simples evocação e o agir cristão uma moral de escravos.

Mas nele, em uma sinergia[4] indissociável, o cosmos é fecundado e geme no trabalho de parto na geração do Reino, o homem está em luta contra a carne, o Cristo ressuscitado está presente, o evangelho torna-se potência de vida, a Igreja significa comunhão trinitária, a autoridade torna-se um serviço libertador, a missão é uma Pentecostes, a liturgia, um memorial e uma antecipação, o agir humano é divinizado.

O Espírito Santo faz vir a parusia em uma epíclese[5] sacramental e misticamente realista, dá vida aos profetas e fala através deles, recoloca cada coisa em diálogo, e na efusão de si mesmo, cria comunhão e impulsiona para o segundo Advento. «Ele é Senhor e dá a vida» (Símbolo Niceno-Constantinopolitano). É graças a Ele que a Igreja e o mundo invocam com todo o ser: «Vem, Senhor Jesus!» (Ap 22,20).

Inácio IV Hazim, Evento e rinnovamento, 256-258.




[1] Energia, segundo a terminologia teológica do primeiro milênio, quer dizer tudo aquilo que podemos conhecer de Deus, como emanações diretas dele.


[2] Literalmente, os últimos tempos, o final da história humana, o seu cumprimento e desfecho.


[3] Parusia é a segunda vinda de Cristo, no final dos tempos.


[4] Sinergia é a comunicação da energia divina na criação.


[5] Epíclese é o gesto que invoca a descida do Espírito Santo sobre as oferendas na missa, para que se tornem o Corpo e Sangue de Cristo, ou no caso dos outros sacramentos, para que Ele realize aquilo que o sacramento significa.

TP 07 5 O Espírito falou por meio dos profetas

Batistério de Albenga, Ligúria, Itália Belíssima imagem da Santíssima Trindade, Séc. VI.
Dizer que o Espírito falou por meio dos profetas significa recordar a sua ação potente, incansável, no decorrer da história da Salvação, a partir da criação do mundo até a obra de Cristo, passando pelas «preparações evangélicas» do primeiro Testamento. O Espírito, em uma verdadeira «Pentecostes cósmica», como dizia Sergej Bulgakov, esvoaça sobre as águas primordiais (cf. Gn 1,2). Deus «sopra nas narinas» do homem um «sopro de vida» (cf. Gn 2,7) que a Bíblia grega identifica com o Espírito Santo, e de quem os Padres dizem ser Ele a fazer do homem «a imagem de Deus». No Antigo Testamento, através de toda uma pedagogia divina de desilusões e superamentos, a revelação do Espírito Santo não cessa de interiorizar-se e universalizar-se. Com os grandes textos proféticos do exílio, o Espírito Santo aparece como potência de ressurreição – vivifica ossos ressequidos (Ez 37,1-14) – e de transformação dos corações, que tem a função de passar da Lei à espontaneidade do amor. O Espírito é a grande unção messiânica e Jesus, quando inaugura a pregação, retoma o anúncio de Isaías: «O Espírito do Senhor está sobre mim» (Lc 4,18; Is 61,1).

A encarnação é obra do Espírito, a cristologia de Lucas e de João é fundamentalmente pneumatológica: o Espírito é, de fato, a unção de Jesus, no qual permanece de tal modo, que a existência de Jesus aparece como uma existência no Espírito. Cristo torna a humanidade capaz de tornar-se «pneumatófora»: a sua vitória sobre a morte e sobre o inferno e sua glorificação uniram, para sempre, a divindade e a humanidade, e neste espaço, de agora em diante sem obstáculos, permitiram a inauguração de Pentecostes. A Igreja agora oferece aos homens a potência da ressurreição, que se identifica com aquela do Espírito. A Igreja, agora, é inteiramente profética. No dia de Pentecostes, Pedro anuncia o cumprimento da profecia de Joel: «Nos últimos dias, diz o Senhor, eu efundirei o meu Espírito sobre toda carne... Sobre meus servos sobre minhas servas, naquele dia, efundirei o meu Espírito e eles serão profetas» (At 2,17-18). Parece, no entanto, que a Igreja, em algum momento da história que seria difícil precisar, tenha começado a ter medo do Espírito, e se tenha fechado, no temor da vida e da liberdade pessoal, em um moralismo mais ritualístico no Oriente, e mais jurídico, no Ocidente. Na periferia da Igreja, e algumas vezes, contra ela, são sopradas, então, baforadas do Espírito, em uma imensa exigência de vida criativa, de comunhão e de beleza.

O. Clément, Je crois en l’Esprit Saint, 43-45.

terça-feira, 14 de maio de 2013

TP 07 4 O homem espiritual

O homem espiritual conduzido pelo Espírito, afresco pré-românico, séc. IX, San Quirce de Pedret, Espanha.
A finalidade da vida cristã, dizia São Serafim de Sarov, é a aquisição do Espírito Santo.

A graça sacramental, assimilada pouco a pouco através da ascese e da oração, provoca a espiritualização do coração, este centro de integração e abertura de todo nosso ser, e a partir deste «coração consciente», inflamado pelo fogo do Espírito, a espiritualização de todas as nossas faculdades, nossos sentidos, nosso corpo, e depois, de nosso ambiente histórico e cósmico.

A vida espiritual é a vida no Espírito Santo. A fórmula patrística «Deus se fez homem para que o homem possa tornar-se Deus» se esclarece melhor em uma outra: «Deus se fez sarcóforo, portador da nossa carne, para que o homem possa se tornar pneumatóforo, portador do Espírito» (Atanásio, De incarn., 8). O Espírito desperta, no homem, uma sensibilidade fundamental, que não é somente na ordem do sensível, nem do inteligível, mas do ser no insondável abismo do coração, o que os ascetas chamam a sensibilidade do Espírito. É a capacidade de «sentir» Deus em tudo e para além de tudo. O Espírito atualiza, em nós, a graça batismal, nos faz passar por sucessivas mortes e ressurreições, nas quais nos revestimos do Cristo humilhado e depois do Cristo glorificado. Também a memória dos mortos se torna a memória de Deus, do Deus que se incarna e desce até a morte e nos infernos, a nossa morte e nosso inferno, para fazer brotar a força vivificante do Espírito, a potência de sua ressurreição.

Muitos grandes santos da Igreja Ortodoxa conhecem um batismo do Espírito, uma tomada de consciência pessoal da graça batismal, porque o batismo de água é também batismo do Espírito, dimensão pneumatológica reforçada, clarificada, personificada da unção crismal. Este batismo do Espírito, recebido depois de grandes provas e grandes angústias nas quais o homem encontrou a verdadeira humildade, este batismo do Espírito se identifica, longe de todo triunfalismo carismático, ao dom das lágrimas. Trata-se sempre de água: a água sobre a qual sopra o Espírito, a água do «in principio», a água do batismo, e agora, a água das lágrimas, nas quais se dissolve a dureza do coração, a sclerocardia, quando o coração de pedra se transforma em coração de carne.

O Espírito recria o homem a partir das lágrimas, lágrimas de angústia e de amargor, e depois, lágrimas de gratidão e de maravilhamento, lágrimas de penitência tornadas lágrimas de alegria, que dão ao homem, ao mesmo tempo, força e vulnerabilidade, doçura e ternura, uma infinita capacidade de acolhimento. Então se abre, nele, um respiro do imenso, um sopro unido ao nome de Jesus, participa do Sopro divino que não cessa de anunciar o Verbo. Respira no Espírito, respira o Espírito, que leva ao mundo.

O homem, tornado espiritual, encontra a sua verdadeira natureza, que é dinamismo de assimilação à Graça; as suas virtudes, para além de todo moralismo, são outras tantas participações das energias divinas; e ele desperta e liberta a muda celebração das coisas; os ritmos mesmos do seu corpo, aquele da respiração, aquele do sangue, tornam-se oração, porque é preciso celebrar Deus com a dança, dizem os salmos. Então se manifestam os frutos do Espírito, a percepção da chama das coisas e do ícone de cada rosto, do universo como liturgia, da história como encontro do sacro e do profano. O homem espiritual recebe os carismas da caridade, compreende, assume sobre si a unidade ontológica de todos os homens e recebe o dom da compaixão, da simpatia, no seu sentido forte de «sentir com o outro».

O. Clément, Je crois en l’Esprit saint, 33-35.

TP 07 3 A verdade toda inteira

Holy Spirit Coming, by He Qi.
Se Jesus disse aos discípulos: «muitas coisas tenho ainda a dizer-vos, mas no momento não sois capazes de compreende-las» (Jo 16, 12), não significa que a sua instrução terrena deva permanecer incompleta por motivos exteriores – a fraqueza dos discípulos na escuta – e, conseqüentemente, deva ser completada. Isto vem contestado já pelo fato de que o intérprete, o Espírito, realize essencialmente essa instrução «recordando-vos tudo o que vos disse» (Jo 14, 26) E se, do intérprete mesmo se prediz que «dirá tudo o que terá ouvido e vos anunciará as coisas futuras» (16, 23), não parece descabido pensar que «coisas futuras» como referidas, antes de tudo, à sorte que esperava Jesus, à sua glorificação através da Cruz e da Ressurreição, única referência à qual a interpretação da Palavra pode ser feita na totalidade. «As coisas futuras» não indicam, em todo caso, uma revelação profética ligada ao tempo, mas muito mais (como em Is 41,23;42,23;44,7) a abertura da dimensão escatológica, isto é, que, no evangelho, vem chamado de saber ler os sinais dos tempos, saber reconhecer o aproximar-se do fim (Mt 24,32).

«A verdade toda inteira» não significa, então, a síntese de um certo número de verdades isoladas, mas sim, da única verdade da interpretação de Deus, através do Filho, na inexaurível plenitude da sua concreta universalidade. Ela já está presente no momento no qual o Filho, com toda sua existência incarnada, interpreta a verdade do divino amor: tal interpretação é «a glória da plenitude da graça e verdade» (Jo 1,14.17), e é, mesmo, o «verdadeiro testemunho» (Jo 5,31; 8,14). Em um sentido análogo, também o Espírito não comunicará, ulteriormente, somente elementos desta interpretação, mas dará dela o «testemunho» (J0 15,26), ou seja, a sustentará com todo seu ser. Compreendida no seu sentido teológico, tal testemunho é dado não somente diante de alguém, e nem menos, somente para alguém, mas muito mais, como doação, reveladora do que é próprio, a favor de alguém, e até mesmo, no caso de que seja aceita, dentro de alguém. Em João 1,14, a «verdade» é, ao mesmo tempo, «graça». A abertura do espaço do amor entre o Pai e o Filho acontece, no Filho, com sua doação ao mundo; e conseqüentemente, a introdução do Espírito, neste espaço aberto do amor, que é a verdade, é, ao mesmo tempo, a doação do Espírito dentro daqueles que acolhem o seu testemunho. Aqui é necessário recordar sempre que o Espírito é, contemporaneamente, a atestação (objetiva) do amor intercorrente entre o Pai e o Filho (expresso dogmaticamente como «terceira Pessoa») e o fruto interior deste amor recíproco (subjetivo), de modo que se possa chamar Espírito de Amor do Pai e, ao mesmo tempo, Espírito de Amor do Filho (cf. Rm 8,9). A sua obra de introdução na «verdade toda inteira» é então, antes de tudo, algo muito diferente de uma instrução objetiva, já que, muito mais, uma condução a uma participação íntima, a partir de uma participação íntima. Ele tem a força de realizá-lo, como está a demonstrá-lo o termo dynamis, que em Paulo, aparece freqüentemente junto com a pneuma, a ponto de amos os termos sejam intercambiáveis. Graças a Ele, «que escruta as profundidades de Deus» e nos vem comunicado como tal (I Cor 2,10.12), nós aprendemos a conhecer quem seja este Deus-Pai, que «tanto amou o mundo, a ponto de dar seu Filho unigênito» (Jo 3,16), e junto, quem seja o Filho, que se encarrega de revelar tal amor do Pai, até a glorificação sobre a Cruz e o coração transpassado. Com isso, nós somos introduzidos não somente em uma Trindade econômica voltada para fora de si, mas, até mesmo, em sua verdade imanente, pois ao contrário, a introdução realizada pelo Espírito não alcançaria, de fato, «a verdade toda inteira», e restaria, no fundo, ainda, alguma coisa de não comunicado do mistério de Deus. Nós somos introduzidos não somente nas «energias» de Deus, mas também, nos abismos imperscrutáveis da sua essência, que em sua mesma revelação e comunicação, permanecem incompreensíveis.

H. U. Von Balthasar, Nella pienezza della fede, 220-221.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

TP 07 2 A memória, atividade própria do Espírito

Pentecostes, Orcagna, 1365, Firenze, Itália.
Que o Espírito habite, não ao lado da Palavra, mas nela mesma, João o sublinhou com força quando designou a memória como atividade própria do Espírito na história.O Espírito Santo não fala de si mesmo, mas «do que é meu», diz Jesus (Jo 16,14). Ele se reconhece pela sua fidelidade à Palavra uma vez pronunciada. João construiu paralelamente sua cristologia e sua doutrina sobre o Espírito, de modo rigoroso. Também o Cristo, de fato, se caracteriza pelo fato que pode dizer: «A minha doutrina não é minha» (Jo 7,16). E este esquecimento de si mesmo o contradistingue, o fato de que não dê testemunho de si mesmo lhe dá credibilidade diante do mundo. O Anticristo, a contrário, é reconhecido porque fala em seu próprio nome. O mesmo vale para o Espírito Santo: Ele se revela como Espírito Trinitário, Espírito de Deus em três pessoas, e isso acontece justamente porque Ele não aparece por si mesmo, separado e inseparável, mas desaparece no Pai e no Filho. A impossibilidade de desenvolver uma pneumatologia, uma ciência do Espírito em si mesma, depende de sua própria natureza. João formulou decisivamente estas afirmações, no meio da lutas de seu tempo, como um sinal que distingue o Espírito do Antiespírito. Os grandes mestres da gnose suscitavam muito interesse porque falavam em seu próprio nome e se construíam um próprio nome. Eles impressionavam muito porque tinham alguma coisa de novidade, de diferente a dizer, além da Palavra, por exemplo, que Jesus não estava realmente morto, mas dançava com os discípulos, enquanto os homens acreditavam que ele estava suspenso na cruz. A tais novidades gnósticas, a afirmações que não se baseavam senão em seus próprios autores, o quarto evangelho contrapõe, conscientemente, o plural eclesial, o desaparecer daquele que fala por detrás do «nós» eclesial, que, na realidade dá ao homem o seu verdadeiro rosto, e lhe impede de dissolver-se no nada. Nas cartas de João, segue-se o mesmo modelo: o autor se define simplesmente «ancião», enquanto o seu adversário é o proagon, aquele que vai à frente (cf. 2Jo 9).

Todo o evangelho de João, assim como as cartas, não pretendem ser senão uma mobilização da memória, e é neste sentido que é o evangelho do Espírito Santo. E é nesta medida, na qual não se inventa um novo sistema, mas recorda, interiorizando, ele é fecundo, novo e profundo. A natureza do Espírito Santo, unidade do Pai e do Filho, é o esquecimento de si mesmo; nisto consiste a memória. É a autêntica renovação. Uma Igreja pneumática é uma Igreja que, recordando, penetra mais profundamente na Palavra, tornando-se assim, mais viva e rica. Verdadeiro esquecimento de si mesma, desapego para «entrar no Tudo»: eis o contrasinal do Espírito, reflexo da sua natureza trinitária.

J. Ratzinger, Le Dieu de Jésus Christ, 118-120.

domingo, 12 de maio de 2013

TP 07 1 Ascensão

Ressurreição e Ascensão. Marfim do séc. V, Roma.

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo
(Sermo de Ascensione Domini, Mai 98,1-2:PLS2,494-495)             (Séc.V)

Ninguém subiu ao céu a não ser aquele que de lá desceu
        Hoje nosso Senhor Jesus Cristo subiu ao céu; suba também com ele o nosso coração. Ouçamos as palavras do Apóstolo: Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar ascoisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres (Cl 3,1-2). E assim como ele subiu sem se afastar de nós, também nós subimos com ele, embora não se tenha ainda realizado em nosso corpo o que nos está prometido.
        Cristo já foi elevado ao mais alto dos céus; contudo, continua sofrendo na terra através das tribulações que nós experimentamos como seus membros. Deu testemunho desta verdade quando se fez ouvir lá do céu: Saulo, Saulo, por que me persegues (At 9,4). E ainda: Eu estavacom fome e me destes de comer (Mt 25,35).
        Por que razão nós também não trabalhamos aqui na terra de tal modo que, pela fé, esperança e caridade que nos unem a nosso Salvador, já descansemos com ele no céu? Cristo está no céu, mas também está conosco; e nós, permanecendo na terra, estamos também com ele. Por sua divindade, por seu poder e por seu amor ele está conosco; nós, embora não possamos realizar isso pela divindade, como ele, ao menos podemos realizar pelo amor que temos para com ele.
        O Senhor Jesus Cristo não deixou o céu quando de lá desceu até nós; também não se afastou de nós quando subiu novamente ao céu. Ele mesmo afirma que se encontrava no céu quando vivia na terra, ao dizer: Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu (cf. Jo 3,13).
        Isto foi dito para significar a unidade que existe entre ele, nossa cabeça, e nós, seu corpo. E Ninguém senão ele podia realizar esta unidade que nos identifica com ele mesmo, pois tornou-se Filho do homem por nossa causa, e nós por meio dele nos tornamos filhos de Deus.
        Neste sentido diz o Apóstolo: Como o corpo é um só, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo (1Cor 12,12). Ele não diz: “assim é Cristo”, mas: assim também acontece com Cristo. Portanto, Cristo é um só, formado por muitos membros.
        Desceu do céu por sua misericórdia e ninguém mais subiu senão ele; mas nele, pela graça, também nós subimos. Portanto, ninguém mais desceu senão Cristo e ninguém mais subiu além de Cristo.
        Isto não quer dizer que a dignidade da cabeça se confunde com a do corpo, mas que a unidade do corpo não se separa da cabeça.