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sábado, 12 de março de 2016

Os modos do jejum

Detalhe do mural "Árvore da Vida" Paróquia São Sebastião, Ponta Grossa, PR, 1991.
Precioso diante de Deus é o jejum puro: ele guardado como um tesouro no céu, é uma armadura contra o maligno e um escudo contra as flechas do inimigo. Não digo isto a partir de minha inteligência, mas das Sagradas Escrituras, que nos mostraram, anteriormente, como o jejum seja útil em todo o tempo, para aqueles que jejuam de modo autêntico.
O jejum, de fato, meu querido, não é somente abster-se de pão e água, mas existem muitos modos de observar o jejum…
Há quem jejue colocando um freio em sua boca, para não dizer coisas terríveis que machucam tanto, e quem jejue da ira e reprima o seu instinto para que este não prevaleça sobre ele.
Existe quem jejue de possuir para escapar de ser escravo das coisas, e quem jejue de qualquer tipo de travesseiro, para estar vigilante na oração.
Detalhe do mural "Árvore da Vida" Paróquia São Sebastião, Ponta Grossa, PR, 1991.
Há quem, nas aflições, jejue das coisas deste mundo para não ser atingido pelo adversário, e quem jejue permanecendo de coração contrito, para agradar ao Senhor durante a aflição. E também existe aquele que faz de todos estes, um único jejum…
Detalhe do mural "Árvore da Vida" Paróquia São Sebastião, Ponta Grossa, PR, 1991.
Escuta, meu querido, os exemplos de jejum puro. Antes de tudo, de fato, mostraram um jejum puro Abel com sua oferta (cf. Gn 4,3-4), Enoc que agradou ao seu Deus (cf. Gn 5,24; Eclo 44,16; Hb 11,5), Noé que permaneceu íntegro em uma geração corrupta (cf. Gn 6,9), Abraão que foi excelente na fé (cf. Eclo 44,19-21), Isaac pela sua conformação com a Aliança de Abraão (cf. Gn 26,24; Eclo 44,22), Jacó, por causa de sua misericórdia e de sua administração (cf. Gn 50,19-21; 41,38-40). Para todos estes, a sua pureza foi um jejum perfeito diante de Deus. De fato, sem pureza de coração, o jejum não é lhe agradável.
Recorda e vê, meu querido, que coisa excelente seja que um ser humano purifique o seu coração, guarde sua língua e impeça suas mãos de fazer o mal, conforme escrevi acima. Não funciona bem quando alguém mistura mel com absinto. Se alguém jejua do pão e da água, não deve misturar seu jejum com as cobiças e maldições. Uma é a porta de tua casa, que é o templo de Deus, e não está bem, ó homem, que a porta pela qual entra o rei, despeje lodo e podridão.

Afraat, o persa (270-346), Exposições 3,1-2.

sábado, 11 de outubro de 2014

Os olhos abertos de Cristo crucificado

Escultura em madeira, Porta da igreja de Santa Sabina, Roma, século IV

O fato dos olhos abertos do Cristo sobre a Cruz é uma tradição muito antiga. A arte sacra não busca representar uma fotografia momentânea do evento sacro, como ele foi no passado, mas sim o que ele é na verdadeira Realidade, no "Agora" da eternidade, para nós. Por isso, muitos dos Mistérios da Vida de Cristo eram representados segundo modelos herdados da Antiguidade, para mostrar o seu significado profundo, aquilo que eles tem a nos dizer, no "hoje" daquele que o contempla. Por isso, eles sobrepunham passagens bíblicas na mesma cena, para que, na transparência, formassem uma imagem com mais dimensões que o 3D! 
Miniatura do Tetra Evangelho de Rabulla, de origem síria, séc. VI, Biblioteca Medicea, Firenze, Itália.
Bom Jesus de Bouças, Portugal, séc. XIII
O modo de dizer que Jesus morreu na Cruz e ressuscitou, que justamente através do seu aniquilamento Ele venceu a soberba do inimigo e derrotou a morte, que Ele se entregou livremente por nós, era representá-lo vivo e triunfante sobre a Cruz. Um dos modos de mostrar esta vida eram os olhos abertos, outros o gesto generoso e senhoril do corpo todo, com uma paz que emana de todo o conjunto. O Evangelho de João joga simbolicamente com as palavras, para mostrar que, na Cruz, Ele se manifesta como verdadeiro Rei. Como representar o invisível? através de símbolos visíveis! 
Este marfim, que está no Museu do Louvre, e é de 420-430, mostra dois aniquilamentos, o de Judas e o de Jesus,
O primeiro, na Árvore da Vida (note-se o ninho de passarinhos...) encontra a Morte, por não se deixar perdoar,
como o velho Adão, depois do pecado. Alusão esta da bolsa das moedas que tem uma alça parecida com uma serpente.
A Cruz de Jesus é uma Cruz gloriosa, com as pontas que se abrem, e as atitudes são serenas e nobres:
Contempla-se um Mistério! A Beleza provoca a elevação e o silêncio.
Qual é a essência do evento? O sofrimento ou a vitória? Evidentemente é a Vitória, pois milhares sofriam e morriam na cruz, isso era o que se via continuamente, já que a crucifixão foi abolida somente no império bizantino. Não somente representavam com os olhos abertos, mas também vestido finamente, como um sacerdote, pelas razões ditas acima. Estes traços permanecerão uma constante na iconografia da crucifixão por quase mil anos! Olhos abertos ou fechados aparecerão, mas será sempre o conjunto dos elementos a viabilizar o discurso da vitória sobre o mal e a morte.

Afresco em Cimitile, Itália, séc. VIII.
Neste bronze e esmalte do séc. XIII (Limoges) vemos todo o Mistério representado:
A Paixão (pelos cravos e a Cruz), a Ressurreição (pela vestimenta real)
e pelas flores, que são como uma explosão de primavera, e a Ascensão
que nos conecta diretamente com a Eternidade: nosso Rei conhece nossa dor,
conhece de dentro dela, e sua presença nela, assegura a vitória.
Relicário do séc. VII, nos Museus Vaticanos.
Afresco da Crucifixão, São Gaudioso, séc. VI, Nápoles, Itália.
Stauroteca (relicário da Santa Cruz) Fieschi-Morgan - início do séc. VII - Siria
Vemos a unidade do Mistério que une Encarnação, com a Anunciação e Natividade
e embaixo, a Cruz e Ressurreição, com a descida aos infernos para o resgate de Adão e Eva.
Tudo se trata de uma Grande Descida dos Céus dos céus até os abismos, onde nos metemos...
Ícone da Crucifixão, do séc. VII, do Mosteiro de Santa Catarina do Monte Sinai.
Bronze e esmalte, Geórgia, séc. X.

O século XIII trará grandes mudanças na sociedade e na teologia e espiritualidade cristã. O advento das
Ordens mendicantes e sua pregação, colocarão grande ênfase na humanidade de Jesus, sem negar a divindade, evidentemente. O Santo Corpo do Senhor começa a pender da Cruz, no peso do ser humano, os personagens também manifestam a dor de forma sempre mais intensa. O silêncio ainda se experimenta, e a Vida triunfa sobre a morte, mesmo com as mudanças de linguagem.
No séc. XIV, o Corpo do Senhor se esvazia, no grande Mistério da Quênose (não se apegou à sua igualdade com Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de Servo), pende sempre mais, os sinais da dor ficam evidentes, ainda que a luminosidade do corpo, e a paz continuem presentes, mostrando que este não é o fim!
Quando acontecerão mudanças drásticas na história da humanidade e na teologia e espiritualidade, as imagens vão seguir o mesmo caminho, perdendo seu aspecto mistérico-simbólico pouco a pouco, dando espaço a um emocionalismo sempre maior, e consequentemente, a um naturalismo e sensualidade crescentes, com o fim de provocar a sensação e emoção diante da dor do Senhor: Sentir-se pecador diante do sacrifício do Senhor! 
Têmpera sobre madeira dourada, séc. XIV. O drama e a dor, os contrastes humanos, as potências do Céu, fazem ver que definitivamente, algo mudou, não o Mistério, que continua o mesmo, mas os caminhos para ele são vários: o da contemplação silenciosa, mas também o da emoção pessoal que vagueia entre a indignação contra os soldados que crucificaram Jesus, a presença de S. Longinus que reconhece a divindade dEle, Maria Madalena que beija os pés ensanguentados, a Virgem Maria que desfalece de dor, as mulheres que a sustentam, os anjos que recolhem o Santíssimo Sangue, e se contorcem de sofrimento.
O século XV levará a reflexão adiante, e a Crucifixão torna-se uma reflexão sobre a Bondade Divina e a maldade humana. Esse quadro do renascimento alemão, mostra o naturalismo crescente, o grotesco dos corpos, o perfeccionismo nos detalhes, tudo é um drama e também uma cena composta. A banalidade se mistura com o sagrado, e o Mistério é diluído em humanidade, e sobre a cena se "sente" e se "pensa", mas sempre como um espectador externo, cada vez mais longe.
Ainda no séc. XV, teremos o primeiro renascimento, no qual os modelos grego-romanos começam a ser utilizados,  ainda que com critérios ligados à Tradição, abrindo espaço ao naturalismo. Esta escultura é de Donatello, feito em 1406, e é conservado na Chiesa della Santa Croce, em Florença, Itália.
Contemporâneo de Donatello, Bruneleschi esculpiu este Crucifixo entre 1410-15, e encontra-se na Chiesa di Santa Maria Novella, na mesma Florença. Ainda que tenham sido duas esculturas escandalosas para a época, pelo seu naturalismo e sensualidade, pouco a pouco, o modela vai fazendo sua estrada.
A idéia é aquela de provocar a experiência de que o Amor ama assim, dando a vida, mesmo no caso extremo, e é uma idéia… na sucessão das mudanças na iconografia, elas conservam muitos traços das anteriores, e somente pouco a pouco muda radicalmente em relação aos primeiros modelos. 
Matthias Grünewald, Políptico de Isenheim: Cristo Crucificado, detalhe, 1515. O naturalismo do renascimento italiano chega nos países do Norte, e na Alemanha, e produz obras de arte de grande valor como esta. Cristo é o homem das dores e do sofrimento, mas aqui nem mesmo a paz se percebe, somente a entrega em meio à violência dos instrumentos da Paixão. Vale a pena ver todo o conjunto, onde está representado todo o Mistério, também a Encarnação e a Ressurreição: http://it.wikipedia.org/wiki/Matthias_Grünewald#mediaviewer/File:Grunewald_Isenheim1.jpg 
Na maioria das imagens do crucificado, vamos encontrar os traços comuns de uma paz e de uma entrega total. Nas mais contemporâneas, nem isto… algumas imagens vão passar estranhas mensagens, sobretudo o contrário daquilo que as primeiras queriam dizer, ou seja, dizem que a morte venceu ou não aconteceu!
No século XVII, em 1630, Diego Velasquez pinta esta Crucifixão. O renascimento e suas reflexões filosóficas passaram, e agora resta a pura emoção diante da serena e sensualíssima atitude do Cristo. As marcas da Paixão são discretas, estamos diante de um modelo que posa para um pintor, pode ser que este quisesse mostrar, deste modo, a vitória sobre a morte, mas o efeito não é exatamente este, pois ainda que tenhamos certeza de que o personagem em questão está vivo, não cremos que ele morreu de fato...
Uma imagem literária simpática é aquela do Leão, que segundo os livros da Antiguidade, dormia com os olhos abertos! O que significava, também por outros motivos simbólicos, que o dito animal tem um poder especial sobre a morte! De fato, segundo os mesmos textos, os filhotes nascem da leoa mortos, e será o bafo quente do leão a ressuscitar os leõezinhos. Nota-se como uma imagem simbólica consegue dizer muito mais que um tratado filosófico. Não por nada, nos primeiros séculos se dizia que Jesus morre como um cordeiro e ressuscita como um leão! Porque a sua morte-ressurreição (inseparáveis) nos dão a verdadeira vida!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O TETRAMORFO

Visão de Ezequiel, iluminura, Winchester Cathedral, Hampshire, UK, séc. XII
Desde tempo imemoriais, passando por muitas culturas distintas do Mediterrâneo, encontramos a figura do Tetramorfo, ou da esfinge, que une os quatro seres, Homem, Águia, Touro e Leão. A estranheza da figura só contribuiu para sua ampla difusão nos mundo, e mesmo sua assimilação no judaísmo do Antigo Testamento e também no cristianismo do Novo.

Voltemos ao que pode ser a origem cosmológica do símbolo: As constelações que marcam os solstícios e os equinócios, estes quatro momentos importantíssimos no girar do tempo em um ano, são especificamente a constelação de Aquário, a de Leão, Águia e Touro.
Então, temos na origem o significado profundo do tempo cósmico, não aquele que depende de calendários convencionais e arbitrários, mas o fluir do tempo no universo. Os quatro animais ou seres eram os marcos dos dois solstícios e dois equinócios do ano, momentos chave do tempo. A fato de que sejam quatro tampouco é casual, dado que tudo que se refere ao mundo em que vivemos tem este número: um exemplo, na área do espaço, é o dos quatro pontos cardeais, sem os quais não conseguiríamos localizar-nos na superfície do planeta.
Os quatro filhos de Horus, em forma de vasos canópios, onde eram guardadas as entranhas das múmias, segundo o que cada um dos deuses tinham em função com os orgãos. Note-se a semelhança, seja no número seja nos tipos dos animais que os representam.
Nas concepções antigas, toda a criação é composta de quatro elementos: ar, fogo, terra e água. Então temos o quatro no universo, na superfície da terra e no íntimo da matéria: não por acaso se acreditava que o mundo fosse quadrado, porque de fato o é, não fisicamente, mas com o seu sentido quadrilateral.
Palace Guardian Nimrud, Assyria, c. 965 A.C. British Museum
Em Israel, as doze tribos estavam organizadas como as doze constelações que acompanham o sol em seu percurso anual, o zodíaco, e além disto, no acampamento no deserto, estavam agrupadas de três em três, com uma delas afrente, com seu emblema: Isacar, Zabulon, Judá: Leão; Ruben, Simeão e Gad: Homem; Efraim, Manasses, Benjamim: Touro; Dan, Aser, Neftali: Águia.
A tradição judaica faz corresponder a cada um destes seres, as letras do nome divino YHVH: Y corresponde ao Homem, H ao Leão, V ao touro, e a segunda H à Águia[1].
Teofania de Cristo, com a presença da Merkabah, com suas seis rodas. Mosteiro de Bawit, Egito, séc. VI
Ezequiel, seguindo a cultura de seu tempo, contempla a figura do «Carro de Deus» ou «Merkabah», justamente constituído pelos quatro seres vivos, associados às rodas do carro. (Ez 1,4-28) Este carro simboliza as ações divinas no mundo, o lado externo de o Deus indizível. Existe uma relação constante de natural entre o UNO transcendente (YHVH, o polo celeste) e o quaternário de sua manifestação e de sua ação no mundo criado[2]. A mensagem era, antes de tudo, mostrar a seus compatriotas que YHVH não estava materialmente unido ao Templo de Jerusalém, que a ruína do Santuário não levava à ruína da religião; que YHVH podia encontrar-se com o exilados junto aos rios da Babilônia e aparecer-lhes, más misterioso que nunca, no esplendor de uma teofania que superasse, de muito, as anteriores.
Ascensão de Cristo, no meio do Tetramorfo, Ponta de Santa Sabina, séc. IV, Roma.
A interpretação que Santo Irineu (202) deu aos tetramorfos e que a Igreja fez sua depois dele, situa-se no prolongamento da linha do «Merkabah». Na misteriosa aparição que surge no céu entreaberto, no meio dos quatro viventes, Irineu, referindo-se aos símbolos tradicionais d universo na Antiguidade, reconheceu a manifestação universal de Deus aos homens atentos, sendo esta a figura do anúncio de Cristo ao mundo, pelos quatro evangelhos. «Não é admissível que hajam mais de quatro evangelhos, nem tampouco menos. São quatro as regiões do mundo em que vivemos, e quatro os ventos dos pontos cardeais... Por isso é evidente que o Criador de todas as coisas, o Verbo, que está sentado sobre os querubins (os viventes da visão) e sustenta o universo, quando se manifestou aos homens, deu-nos um evangelho sob quatro formas, porém sustentado por um único espírito.... Os querubins tem, com efeito, quatro figuras (leão, toro, águia, homem) e seus semblantes são imagens da atividade do Filho de Deus».
Evangeliário, Madeira e marfim, Séc. XIII, Museo Cluny, Paris - França.
Irineu expõe o parentesco dos evangelistas com os Viventes, mas é uma aproximação arbitrária e não simbólica, que servirá mais para a iconografia que para outra coisa. Como o evangelho de Mateus começa com a anunciação a José, e nele aparecem os anjos, o Homem será o seu distintivo; Como o de Lucas começa no Templo, com a anunciação a Zacarias, depois do sacrifício do Touro, este animal será o seu distintivo. Já Marcos começa seu relato com Jesus indo para o deserto, e neste evangelho, aparece como o Leão de Judá, assim será representado. Finalmente, João começa seu relato nas alturas do Verbo no princípio de tudo, e por isso, associado à ave que mais alto consegue voar: a Águia.
Evangeliário, Etiópia, séc. XIV.
A associação não esgota o forte conteúdo do Tetramorfo, que tem seu referimento original, como dissemos à universalidade da manifestação do Senhor em relação ao mundo. Alguns autores insistirão que é mais importante o número do que a especificação de cada um deles, no que não concordamos plenamente, dado que uma análise das formas, em seus detalhes pode ser também muito rica. Em uma homilia muito famosa de Macário, o Grande, ele nos dá uma visão bastante interessante:


«O beato profeta Ezequiel narra uma visão e uma aparição divina e gloriosa que contemplou (cf. Ez 1,1s; 10,2s), e a descreveu plena de mistérios inefáveis. Viu, de fato, na planície, um carro de querubins, quatro eram os viventes espirituais, dos quais, cada um tinha quatro faces: a primeira era de leão, a segunda de águia, a terceira de touro e a quarta de homem. Cada face era provista de asas, de modo que não se distinguiam nem a parte anterior, nem a posterior. O seu dorso era coberto de olhos, e também o seu ventre, e não havia neles nenhum lugar que não estivesse cheio de olhos, e ao lado de cada face, existiam rodas, encaixadas umas nas outras; e, nas roda, havia um espírito. E viu uma aparência de homem sentado sobre elas; o escapelo de seus pés tinha a aparência de uma safira. O carro levava o querubim, e os seres vivos levavam o Senhor-Condutor que os conduzia. Onde quer que andasse, era sempre na direção de um dos rostos. E viu sob o querubim como que uma mão de homem, que o sustentava e o carregava. 
O que o profeta percebeu como real era verdadeiro e indubitável. Todavia, a visão deixava entrever uma outra realidade e figurava uma coisa misteriosa e divina, um mistério escondido, na verdade, por séculos e gerações (Cf. Col 1,26), mas que tornou-se visível nos últimos tempos (Cf. 1Pd 1,20) através da manifestação de Cristo. O profeta, de fato, contemplou o mistério da alma que recebe o Senhor e se torna o trono de sua Glória ( cf. Mt 19,28; 25,31) [3]

Para Macário, os quatro seres vivos que levavam o carro eram a figura das faculdades que regem a alma. De fato, como a águia reina sobre as aves, o leão sobre os animais selvagens, o touro sobre os animais domésticos e o homem, sobre a criação, assim acontece com as potências da alma, que reinam sobre as outras. Trata-se da vontade, da consciência (moral), do intelecto e da faculdade de amar. Elas dirigem o carro da alma, e nele, Deus repousa. Do que podemos inferir que o ser humano é a Merkabah de Deus no mundo.
Beatus de Fernando I - Liturgia Celeste - Biblioteca Nacional, Madrid - Vit. 14.2, f. 116v
Não se trata simplesmente de uma visão psicologizante, mas em perceber que o ser humano tem quatro dimensões. Quatro modos de ser no mundo, também ligados aos quatro elementos que estão na base de todas as coisas, a terra, o fogo, o ar e a água! Bastante diferente da visão helenística do corpo-alma, a que estamos acostumados.

Uma ajuda, nesta reflexão quadrilateral, vem de Pierre Weil[4], na qual, seguindo a intuição do tetramorfo das culturas mediterrâneas, associa apropriadamente os três seres às dimensões do homem: o Touro à parte vegetativa, o Leão à irascível, e a Águia à intelectiva.

Interpretação de Weil sobre o tetramorfo, com os geniais desenhos de Roland Tompakow.
O autor desenvolverá uma inteligentíssima leitura destas dimensões em relação com nosso corpo, mostrando como temos uma linguagem própria, muito para além das palavras, em cada mínimo gesto de nosso rosto ou corpo. O limite da visão de Weil é o fato de que ele não leve em consideração o número, que desde sempre foi o que marcou o símbolo. Ele vai definir que o quarto elemento, o Homem, é a somatória dos outros três, mas isto nunca acontece no campo da linguagem simbólica, ainda que possamos ter a complexa posição de um quarto elemento que seria também um quinto, por simbolizar os quatro juntos, não é o que se trata aqui. Por isso, à reflexão de Weil acrescentamos a visão de Macário nos primeiros séculos do cristianismo, em que o Homem-Anjo representaria a dimensão espiritual do ser humano, aquela parte que deseja e anseia pelo transcendente, mesmo que não religioso propriamente dito. É aquela parte de nosso ser que tem nostalgia da Beleza original. Muito da “religião” do mundo sem religião é direcionada para as artes, os concertos são como cerimônias sacras, os museus como novos templos, tudo levando a experiências de comunhão que vão além do simplesmente físico, racional ou afetivo. O mesmo pode acontecer com ideologias ou a política encaradas com fanatismo.
Tetramorfo em uma única figura. Afresco em um dos mosteiros Meteora, Grécia.
Poderíamos então concluir que o Touro trabalha por todos, o Leão ama por todos, a Águia busca as razões para todos, e o Anjo realiza a comunhão profunda por todos.

Sintetizando, nas manifestações de Deus, chamadas teofanias, encontrarmos os quatro seres vivos, o Tetramorfo, com múltiplas funções, como vimos acima: como Merkabah, carro de Deus, simbolizando sua mobilidade e presença junto de seu povo, através de símbolos cósmicos justamente para mostrar que este “estar com” vai infinitamente além do mero planeta Terra; Os seres simbolizam as doze tribos do Povo Eleito, resumidas nos quatro que estão à frente, assim como as quatro letras do Nome Divino, que como o carro, revelam, sem desvelar, a Presença invisível. Finalmente, também os quatro elementos que compõe o universo, a terra, o fogo, o ar e a água, com seus equivalentes das quatro dimensões humanas, das áreas vegetativa, irascível, intelectiva e
espiritual, que aparecem como moldura de um quadro, como janela de um Mistério maior: O Senhor se manifesta não somente para uma das dimensões do ser humano, mas para todas elas simultaneamente.
O equilíbrio de uma existência é justamente aquele de que cada dimensão cumpra sua função, e os Padres da Igreja, e também os Pais do Deserto, vão mostrar que as doenças do cristianismo estarão sempre em conexão com a falta de harmonia entre os quatro seres dentro de nós, pois somos a Merkabah de Deus no mundo.
[1] Champeaux, G. et Sterckx, S. Le monde des Symboles. St. Léger Vauban: Zodiaque, 1972, 510.
[2] Hani, J. , El simbolismo del templo Cristiano, José J. De Olañeta Editor, Barcelona, 1983, 81-82.
[3] Macario il Grande, Hom I, 1-3, PG 34, 451AB; Les homélies spirituelles de saint Macaire, Spiritualité Orientale n. 40, Abbaye de Bellefontaine 1984, 89-91.
[4] Weil, P. O corpo fala. Petrópolis: Vozes, 2005.

domingo, 21 de abril de 2013

O Bom Pastor e Batismo



Mosaico de Galla Placídia, Ravenna, Italia 425.

O salmo 22 devia ser aprendido de memória pelos que seriam batizados e cantado durante o batismo, segundo um costume atestado já no séc. III: «O Senhor é meu Pastor, nada me falta. Sobre verdes pastagens me faz repousar, para as águas tranquilas me conduz...». Era explicado aos catecúmenos que as águas tranquilas eram a fonte batismal; as verdes pastagens, as Sagradas Escrituras; no versículo 5, o perfume evocava a unção dada durante o batismo e o cálice que transborda figurava a eucaristia que os neófitos recebiam, pela primeira vez, saindo do batistério. Não surpreende, pois, que a decoração dos batistérios paleocristãos reservasse amplo espaço às imagens pastorais e sobretudo àquela do Pastor que leva a ovelha; os iconógrafos o chamam geralmente «o Bom Pastor»; encontraremos sua imagem desde a primeira metade do séc. III, em Dura Europos e, em seguida, nos batistérios de Roma, Nápoles, Milão, Ravena. Sobre a figura do bom pastor se havia enxertado um rico ensinamento doutrinal[1].

«Eis aqui o tocador de cítara que Davi designava; hoje manifestou-se, porque tocou o coração dos seus e conseguiu produzir os sons que eram necessários para se dar a conhecer a todos»[1]. O instrumento de Davi, diz Quodvultdeus, é «a cítara realizada com a madeira da cruz, com as cordas da sua carne e de seus membros; quando a toca com o plectro do Espírito Santo, cumula todo vivente de bênçãos e obtém, imediatamente, expulsar (como Davi) o diabo do coração de seus inimigos»[2]. Fílon definia o profeta «instrumento sonoro do qual Deus toca invisivelmente as cordas com seu plectro»[3]. «Alma e corpo, instrumento das mil vozes», cada homem, quando é animado pelo Espírito Santo, por Deus, é «uma cítara, uma flauta, um templo»; «uma cítara pela sua harmonia, uma flauta pelo seu sopro, um templo pela sua razão, de modo que a primeira vibra, o outro respira e aquele, hospeda o Senhor»[4].



[1] Agostinho, Sermone 265 B.
[2] Quodvultdeus, Sulle promesse 2, 25, 52.
[3] Fílon de Alexandria, Quis rerum 259.
[4] Clemente de Alexandria, Protrettico, 1, 5, 4.