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sexta-feira, 3 de maio de 2013

TP 05 6 O teu nome é Bem! Aleluia!

João escuta o Sagrado Coração do Amigo Jesus, grafica digital, 2008.
O início da primeira leitura, que assinala a conclusão da grande discussão no que se refere à questão tão importante da circuncisão, ainda fundamental para o hebraísmo, pode ser tomado como chave de compreensão do modo de agir e de interagir da comunidade dos fiéis com aquelas que são as exigências e perguntas colocadas pela história: «Aos apóstolos e aos anciãos, com toda a Igreja, pareceu bem...» (At 15,22). Sente-se a necessidade de acompanhar a carta com pessoas confiáveis que possam, pessoalmente, ajudar os fiéis a acolher profunda e serenamente as decisões tomadas. Em uma palavra, poderíamos dizer que o «bem» passa sempre através do encontro com pessoas concretas que nos fazem bem e nos fazem sentir-nos bem, isto não pode ser reduzido a frios e impessoais documentos. Esta modalidade eclesial, que deveria ser uma característica do modo de agir na comunidade dos fiéis, encontra o seu fundamento na palavra e na atitude de Cristo. O Senhor Jesus, justamente enquanto transmite aos discípulos o seu «mandamento» (Jo 15,12), ele o encastra, como uma pérola, no anel do dom de uma relação profunda, sem a qual o mesmo mandamento arrisca ser uma palavra morta:«Ninguém tem amor maior que este: dar a vida pelos próprios amigos» (15,13), que se traduz em uma espécie de declaração solene: «Vós sois meus amigos» (15,14).

Não basta usar este título de «amigos»! Cada vez que nós o utilizamos, somos chamados a fazer um longo caminho, que exige uma profunda renúncia a tudo o que pode impedir a recíproca compreensão e acolhimento. O caminho escolhido pela Igreja primitiva, sua inspiração do Espírito Santo que continuamente guia os passos concretos nos tempos e lugares reais da história, foi aquele de aliviar, mais que fazer pesados, limitando-se rigorosamente às coisas «necessárias» (At 15,28). O Senhor Jesus nos leva ao coração do que é verdadeira e absolutamente necessário: «Não vos chamo mais servos, porque o servo não sabe aquilo que faz seu patrão; mas vos chamei amigos» (Jo 15,15). O dom de Cristo é aquele de nos fazer entrar em uma comunhão de rara intimidade, da qual brota um profundo e real envolvimento: «Para que andeis e produzais muito fruto e o vosso fruto permaneça» (15,16).

Por três vezes, no texto dos Atos se faz referimento a este «bem», que puderam discernir juntos e que se deseja que possa ser participado por todos, para que todos possam profundamente gozar. Comentando o Evangelho de João, Clemente de Alexandria se exprime em termos paradoxais: «Pela sua compaixão para conosco, Deus se fez mãe para nós: no seu amor, o Pai se fez mulher e nos doou o grande sinal deste amor, com a geração do Filho, e o fruto nascido deste grande amor, é ele mesmo amor»[1]. O mesmo termo «amigo» remete ao mistério de um amor profundamente reconhecido e sensivelmente percebido: quê coisa nos pode fazer mais «bem»? Quê coisa poderia fazer aos outros mais «bem» do que isto?

Semeraro, M., Messa Quotidiana, Bologna, maggio 2011, 254-256.

[1] CLEMENTE ALESSANDRINO, Un ricco può salvarsi? 37.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

TP 05 5 O teu nome é Favor, Aleluia!

Mosaico da Igreja de San Clemente, perto do Coliseu, Roma, séc. XII

A palavra de Pedro move o coração da Igreja primitiva para torná-lo mais acolhedor e menos exigente em relação aos irmãos que não vem da circuncisão: «E Deus, que conhece os corações, deu testemunho a seu favor, concedendo também a eles o Espírito Santo» (At 15,8). Na profunda e penosa «grande discussão» (15,7) que sacode a comunidade dos fiéis, não está em jogo – e isto vale ainda naquelas que são as escolhas e as posições que a Igreja é chamada a operar no tecido concreto da história – a ordem externa e visível da comunidade, que corre o risco de identificar-se com a preservação de alguns usos e costumes, mas está em jogo a própria imagem de Deus. Para Pedro, a grande surpresa, que exige uma profunda conversão de atitudes, é que Deus testemunhe «a favor deles», e é esta percepção de um Deus que está de nosso lado e não contra nós que muda tudo, mesmo que tudo pareça igual. No contexto da palavra de Pedro dirigida à assembleia, e que orienta a escolha da primitiva comunidade no que se refere a uma linha mais rigorista ou mais acolhedora e sensível às diversas sensibilidades, a palavra do Senhor Jesus assume todo o seu valos e o seu peso de libertação. Estamos de fronte a duas proposições que exige todo o nosso acolhimento. A primeira permanece fundamental: «Como o Pai me amou, também eu vos amei» (Jo 15,9). 

Somente esta experiência fundamental de um amor, gratuito e unilateralmente oferecido, pode permitir a cada um acolher sem perturbação, ao invés, com alegria «plena» (15,11), expressão que segue: «Se observais os meus mandamentos, permanecereis no meu amor...» (15,10). No coração do evangelho está o convite a permanecer no amor, revivendo na nossa existência de discípulos, exatamente o que está no coração da própria vida do Verbo: «... e permaneço no seu amor» (15,10). Somente esta estabilidade no amor permite a fidelidade dinâmica aos «mandamentos». Estamos prontos a entrar e experimentar a alegria «plena» (15,11) prometida por Jesus e que nasce do enraizar a própria vida em uma relação, não somente significativa, mas capaz de dar qualidade à nossa vida? O segredo da alegria de Cristo que, no seu mistério pascal, nos faz participar, é a sua relação com o Pai e toda a revelação não é outra coisa que um convite a deixar-nos envolver neste fluxo de amor.

Quando Jesus fala de alegria, não fala senão do amor, e quando fala do amor, não pode ser senão da alegria. Assim os apóstolos, chamados a afrontar um grave problema, são impelidos pelo Espírito Santo a passar de uma visão problemática das coisas, que tende a defender as próprias posições, ao colocar em primeiro lugar a alegria dos outros, exercitando um grande amor por todos: «Para que busquem o Senhor também os outros homens e todas as gentes» (At 15,17). Assim diz uma mística do nosso tempo: «Nosso Senhor quis colocar em relevo esta grande verdade da supremacia do amor, da alegria do amor que se doa, da supremacia do amor na nossa relação com Deus. Mais amamos e mais cresce a nossa confiança nEle, e mais Deus encontra a sua alegria em nós»[1]. O Senhor está a nosso favor, está do nosso lado!
Semeraro, M., Messa Quotidiana, Bologna, maggio 2011, 245-247.


[1] MARIE-EUGÈNE DE L’ENFANT-JÉSUS, La joie de la misericorde, Nouvelle Cité, Bruyèresle-Châtel 2008, 28.

terça-feira, 30 de abril de 2013

TP 05 4 O teu nome é Vinha, Aleluia!

Mural Capela do Colégio Santo Inácio, Salvador BA
O Senhor Jesus fala de si mesmo como a «verdadeira vinha» (Jo 15,1), e ele é a verdadeira vinha na qual todos os discípulos são chamados a dar furto como ramos fecundos que, para serem tais, devem aceitar que sejam não somente cuidados, mas também podados e purificados. Na primeira leitura, os Atos nos recordam um dos momentos mais delicados de toda a história da Igreja, quando o problema da circuncisão exige uma tomada de posição não fácil, e que pede que se coloque em primeiro lugar a fecundidade da vinha, não mais ligada ao sinal feito na carne, mas na circuncisão do coração, assim como os profetas de Israel já tinham muitas vezes anunciado. Intuir, compreender e assumir que alguns sinais – aquele da circuncisão é, certamente, o mais forte ainda hoje para a tradição hebraica – não são mais adequados, e possam chegar a ser, senão de impedimento, pelo menos de enfraquecimento do caminho da fé, é muito difícil e não é automático. Assim também, para a videira e os ramos, carregar a responsabilidade da mútua pertença não é sempre evidente.

Para o ramo permanecer enxertado na videira é questão de vida ou morte, e o Senhor Jesus, comparando-se à vinha, nos diz que ele quer não somente dar-nos a vida, mas dá-la em abundância. Por isso, se faz urgente, de nossa parte, pessoal e todos juntos, compreender quanto seja «necessário» (At 15,5) não «cortar» mas sim, permanecer, de modo a receber a linfa vital, para poder, por nosso lado, dar a vida através dos frutos de uma vida que se doa. O convite é urgente justamente porque é uma questão de vida ou morte: «Permanecei em mim e eu em vós» (Jo 15,4). Neste verbo existe uma noção d fidelidade e de fecundidade, e é justamente este «permanecer» que a circuncisão, sinal para os pais da aliança com Deus, na carne, faz-se sinal bem mais eficaz da aliança de Deus com quem quer que aceite deixá-lo entrar e operar na própria vida, mesmo quando «corta», e sobretudo quando «poda» (15,2).

Permanecer é uma escolha, e é uma escolha exigente e purificante, porque nos liberta da ilusão e da sugestão de uma autonomia, e nos recoloca em um dinamismo e um caminho de profunda e verdadeira comunhão: na realidade, não existe somente a videira, não existem somente os ramos, mas existe também a vinha que, juntos, somos chamados a formar. O olhar a uma vinha em pleno outono não pode ser senão entusiasmante, e mesmo assim, pode arriscar ser estetizante: o que se contempla de tão maravilhoso evoca o trabalho da colheita e o longo tempo de transformação da uva esmagada em bom vinho. Cada vez que nos aproximamos da eucaristia, a linfa divina escorre na nossa vida e a torna sempre mais ligada à própria vida de Cristo, sem a qual somos como ramos mortos e secos que produzem pouca chama, e por isso não servem nem para esquentar um pouco. Um Padre da Igreja exulta diante dos novos batizados e assim exclama: «Cristo, que é a divina vinha, germinou da tumba e produziu o fruto dos novos batizados, como outros tantos bagos de uva na sua Igreja»[1]. Permaneçamos ligados intimamente a Cristo, serenamente em comunhão uns com os outros, e assim o vinho não faltará para ninguém... jamais!

Semeraro, M., Messa Quotidiana, Bologna, 2011, 235-237.




[1] ASTERIO IL SOFISTA, Omelie 14,1.

domingo, 28 de abril de 2013

TP 05 1 Às Quartas feiras, milagre

Cirineu ajuda Jesus, Mural "Criação e Via Crucis" Cripta da Catedral de Ponta Grossa, PR. 1994
Aquela tarde perguntou a Gabriela – um dos pequenos personagens de um romance de Gerard Bessiere – seu amigo Jacinto:

– Que fez hoje na escola?

– Fiz um milagre – respondeu a menina.

– Um milagre? Como?

– Foi no catecismo.

– E, como foi que fez o milagre?

– Temos como professora a uma senhorita que está muito doente. Não pode fazer nada sozinha, somente falar e sorrir.

– E o quê aconteceu?

– A senhorita falava dos milagres de Jesus. E as crianças disseram: ‘Não é verdade que existam milagres. Porque se existissem, Deus já teria te curado’.

– E ela, quê disse?

– Disse: ‘Sim, Deus faz também milagres para mim’. E as crianças perguntaram: ‘Quê milagre Ele fez?’

– E então?

– Então ela disse: ‘Meu milagre são vocês!’ ‘Porque?’, lhe perguntamos. E ela disse: ‘Porque vocês me levam a passear, nas quartas-feiras, empurrando minha cadeira de rodas’. Compreendeu? Fazemos milagres todas as quartas à tarde. A senhorita disse também que haveriam muito mais milagres se a gente quisesse fazê-los.

– E você, gosta de fazer milagres?

– Gosto. Tenho vontade de fazer um montão deles. Primeiro pequenos. Quando eu crescer farei maiores.

– Todas as quartas?

– Quero fazê-los todos os dias, toda a vida.

– Não parece que a vida é também um milagre?

– Não. – disse Gabriela – A vida é para fazer milagres!

Gabriela tem razão, a vida é para fazer milagre, às quartas, às quintas e aos domingos. A vida não é para sentar-se esperando que Deus faça milagres espetaculares, não é para limitar-se a confiar que Ele resolva nossos problemas, mas para começar a fazer este milagre pequenino que Ele colocou já em nossas mãos, o milagre de amar-nos e ajudar-nos. Quê é mais milagroso, devolver a vista a um cego ou a felicidade a um amargurado? Será mais prodigioso multiplicar os pães do que saber reparti-los bem? Mais espetacular mudar a água em vinho do que o egoísmo em fraternidade? Se os homens dedicássemo-nos a construir milagres pequeninos na metade do tempo que gastamos em sonhá-los espetacularmente, seguramente o mundo já estaria caminhando muito melhor.

E o milagre de amar podem fazê-lo todos, crianças e grandes, pobres e ricos, sãos e enfermos. Prestem bem atenção, a um homem podem privá-lo de tudo, menos de uma coisa: de sua capacidade de amar. Um homem pode sofrer um acidente e não poder nunca mais andar, Porém não existem acidentes que nos impeçam de amar. Um enfermo mantém integral sua capacidade de amar: pode amar o paralítico, o moribundo, o condenado à morte. Amar é uma capacidade inseparável da alma humana, algo que conservará sempre, inclusive o mais miserável dos homens.

Somente no inferno não se poderá amar. Porque o inferno é literalmente isso: não amar, não ter nada para compartilhar, não ter a possibilidade de sentar-se junto a alguém e dizer-lhe: “ânimo!”.

Porém, enquanto vivemos não existem correntes que aprisionem o coração, a não ser as do próprio egoísmo, que é como uma antecipação do inferno. “Os verdadeiros criminosos – dizia Follereau – são os que passam a vida dizendo «eu» e sempre «eu»”.

E ao contrário, ali onde se ama, começou-se a construir alguma coisa do céu, com golpes de milagres. Definitivamente, os milagres, para Jesus, eram antes de tudo “os sinais do Reino”, e qual é o melhor sinal de um Reino de Amor total do que começar amando, com amores pequeninos como os de Gabriela e de suas companheiras de escola?

José Luiz Martin Descalzo, Razones para el Amor.