terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Elogio de Abraão - Soren Kierkegaard

Detalhe do Mural da História da Salvação, Cláudio Pastro, na Igreja do Mosteiro São Geraldo, Morumbi São Paulo.
  Se o homem não possuísse consciência eterna, se um poder selvagem e efervescente produtor de tudo, grandioso ou fútil, no torvelinho das paixões obscuras, existisse só no fundo de todas as coisas; se sob elas se escondesse infinito vazio que nada pudesse encher, que seria da vida senão o desespero? Se assim fosse, se um vínculo sagrado não cingisse a humanidade; se as gerações se não renovassem como se renovam as folhas das florestas; se umas atrás das outras se fossem extinguindo como o canto dos pássaros nos bosques, atravessando o mundo como a nave o oceano, ou o vento o deserto estéril e cego; se o esquecimento eterno, sempre esfomeado, tivesse força suficiente para lhe arrebatar a presa espiada, quão vã e desoladora seria a vida! Mas tal não é o caso. Do mesmo modo que formou o homem e a mulher também Deus formou o herói, o poeta ou orador. O poeta não pode cumprir aquilo que o herói realiza: só lhe resta admirá-lo, amá-lo e rejubilar com ele. Entretanto não é menos favorecido do que este porque o herói é, por assim dizer, o melhor de si mesmo, aquele de quem está enamorado, feliz por não ser herói, para que o seu amor seja feito de admiração. O poeta é o gênio da recordação. Nada mais pode fazer do que recordar; nada mais senão admirar o que foi cumprido pelo herói.

Ama-o também com amor igualmente fiel, porque também para ele, herói, o poeta é o melhor do seu ser, como débil recordação certamente, mas tão transfigurado como ele. Por isso não será esquecido daqueles que foram grandes. E, se é preciso tempo, se ainda as nuvens da incompreensão dissipam a figura do herói, virá todavia aquele que o amou e tanto mais fielmente se unirá a ele quanto maior for o seu atraso.

Não! Nada será perdido dos que foram grandes; cada um a seu modo e segundo a grandeza do objeto que amou. Porque aquele que se amou a si próprio foi grande pela sua pessoa; quem amou a outrem foi grande dando-se; mas o que amou a Deus foi o maior de todos. A história celebrará os grandes homens, mas cada um foi grande pelo objeto da sua esperança: um engrandeceu-se na esperança de atingir o possível; um outro na esperança das coisas eternas — mas aquele que quis alcançar o impossível foi, de todos, o maior. Os grandes homens hão-de sobreviver na memória dos vindouros, mas cada um deles foi grande pela importância do que combateu. Porque aquele que lutou contra o mundo, foi grande triunfando do mundo, o que combateu consigo próprio foi grande pela vitória que alcançou sobre si — mas aquele que lutou contra Deus foi o maior de todos. Tal é a suma dos combates travados na Terra: homem contra homem, um contra mil; mas aquele que luta contra Deus é o maior de todos. Tais são os combates deste mundo: um chega ao termo usando da força, o outro desarma Deus pela sua fraqueza. Viu-se os que se apoiaram em si próprios de tudo triunfarem e os outros, fortes da sua força, tudo sacrificarem — mas o maior de todos foi o que acreditou em Deus. E houve grandes homens pela sua energia, sabedoria, esperança ou amor — mas Abraão foi o maior de todos: grande pela energia cuja força é fraqueza, grande pelo saber cujo segredo é loucura, pela esperança cuja forma é demência, pelo amor que é ódio a si próprio.

Pela fé Abraão abandonou a terra de seus maiores e foi estrangeiro na terra prometida. Abandonou uma coisa, a sua razão terrestre, por outra, a fé; se refletisse no absurdo da viagem, nunca teria partido. Pela fé foi estrangeiro na terra prometida onde nada evocava o que amou, onde a novidade das coisas imprimia na alma a tentação dum doloroso arrependimento. Contudo ele era o eleito de Deus, aquele em que o Eterno se revia! Em boa verdade, se fosse deserdado, banido da graça divina, teria compreendido melhor esta situação que parecia escarnecê-lo e à sua fé. Também houve no mundo quem vivesse desterrado da pátria amada. Não foi esquecido, como não se esqueceram as suas queixas entretecidas ali onde ele, na sua melancolia, procurou e encontrou o que tinha perdido. Abraão não nos deixou lamentos. Condoer-se alguém e chorar com o que chora é humano, mas é maior o que crê e mais reconfortante ainda contemplar o crente.

Pela fé Abraão obteve a promessa de que todas as nações da terra seriam abençoadas na sua posteridade. Passava o tempo, mantinha-se a possibilidade e Abraão cria. Passou o tempo, tornou-se absurda a esperança, Abraão acreditou. Por ele se viu no mundo o que era ter esperança. Passou o tempo, a tarde atingiu seu ocaso, e este homem nunca teve a covardia de a renegar; por isso jamais será esquecido. Conheceu depois a tristeza, e a amargura, em vez de o decepcionar como a vida, fez por ele tudo o que pôde e, nas suas esperanças, deu-lhe a posse da sua enganada esperança. Conhecer a tristeza é humano, humano ainda é partilhar do desgosto dos aflitos, mas crer é mais reconfortante do que contemplar o crente. Abraão não nos deixou lamentos. Não contou tristemente os dias à medida que o tempo passava, não observava Sara inquieto para ver se os anos cavavam sulcos no seu rosto, não parou o curso do sol para impedir o envelhecimento de Sara e com ela sua esperança. Para apaziguar o desgosto não entoou a Sara um triste cântico. Tornou-se velho e Sara foi escarnecida na sua terra. Contudo era o eleito de Deus e o herdeiro da promessa de que todas as nações seriam abençoadas na sua posteridade. Não valera mais que não fosse o eleito de Deus e o herdeiro da promessa de que todas as nações seriam abençoadas na sua posteridade. Não valera mais que não fosse o eleito de Deus? Que significa ser o eleito de Deus? É ver recusado o desejo de juventude na primavera da vida, para só obter tal favor na velhice, depois de grandes dificuldades. Mas Abraão acreditou e guardou firmemente a promessa a que teria de renunciar se houvesse vacilado. Teria dito então a Deus: Porventura não é da tua vontade que meu desejo se realize; renuncio ao meu voto, o único que contava para a minha felicidade; minha alma é reta e não guarda secreto rancor pela tua recusa. Não teria sido esquecido por isso, muitos se teriam salvo pelo seu exemplo, mas nunca chegaria a ser o pai da fé. Porque é grande renunciar ao mais querido voto, mas maior ainda é mantê-lo depois de o ter abandonado. Grande é alcançar o eterno, mas maior ainda é guardar o temporal depois de a ele ter renunciado. Os tempos foram cumpridos. Se acaso Abraão não acreditasse, Sara morreria sem dúvida de desgosto, e ele, roído de tristeza, não compreenderia a graça, e dela teria sorrido como de um sonho de juventude. Mas Abraão acreditou e, por isso, se manteve jovem, porque aquele que espera sempre o melhor envelhece na decepção e o que aguarda sempre o pior mais depressa se gasta, mas o que crê conserva eterna juventude. Bendita seja, pois, esta história! Porque Sara, em avançada idade, foi ainda suficientemente jovem para desejar as alegrias da maternidade, e Abraão, apesar dos seus cabelos brancos, foi suficientemente jovem para desejar ser pai. À primeira vista o milagre parece consistir em o sucesso se verificar segundo a sua esperança, mas, no profundo sentido, o prodígio foi Abraão e Sara terem sido bastante jovens para desejar; foi a fé que manteve neles o desejo e, com ele, a juventude. Ele viu a satisfação da promessa e obteve-a pela fé e isso sucedeu em concordância com a promessa e segundo a fé: porque Moisés golpeou a rocha com a sua vara mas não acreditou.
Detalhe do Mural da História da Salvação, Cláudio Pastro, na Igreja do Mosteiro São Geraldo, Morumbi São Paulo.


Houve então alegria na casa de Abraão e Sara foi a esposa das bodas de ouro.

No entanto, esta felicidade não duraria muito; uma vez mais Abraão devia ser posto à prova. Tinha lutado contra esse manhoso poder a que coisa nenhuma escapa, contra o inimigo que, ao longo dos anos, não cessa de vigiar, contra o ancião que a tudo sobrevive, tinha, enfim, lutado contra o tempo e conservado a fé. E Deus pôs Abraão à prova e disse-lhe: toma o teu filho, o teu único filho, aquele que amas, Isaac; vai com ele ao país de Morija e, ali, oferece-o em holocausto sobre uma das montanhas que te indicarei.
Detalhe do Mural da História da Salvação, Cláudio Pastro, na Igreja do Mosteiro São Geraldo, Morumbi São Paulo.



Estava tudo perdido. Oh! Desgraça terrível, maior ainda do que o desejo que nunca foi atendido! Assim o Senhor se divertia com Abraão! Eis que, depois de ter realizado milagrosamente o absurdo, queria agora ver sua obra reduzida a nada. Que loucura! Mas Abraão não se riu, como Sara, quando a promessa lhe foi anunciada. Setenta anos de fiel expectativa para tão curta alegria da fé satisfeita! Quem é, pois, aquele que arranca o bastão das mãos do ancião, quem é ele para exigir que o velho pai o quebre por si mesmo! Quem é ele, para tornar inconsolável um homem de cabelos brancos, exigindo-lhe que seja instrumento da própria infelicidade! Não há compaixão por tão venerável ancião nem pela inocente criança! E no entanto Abraão era o eleito de Deus e era o mesmo Senhor que lhe infligia a provação. Tudo então se ia perder!
Ilustração de Gocha Kakabadze Art

O renome magnífico da raça futura, a promessa à posteridade de Abraão, tudo isso não passara de fugitivo clarão divino que ele devia apagar agora. Esse fruto magnífico tão antigo como a fé no coração do patriarca, e anterior em muitos anos a Isaac, esse fruto da vida de Abraão, santificado pela oração, amadurecido na luta, essa bênção nos lábios do pai, esse fruto, ia ser-lhe arrebatado e perder todo sentido: que sentido, na verdade, podia encerrar a promessa, quando se impunha sacrificar Isaac! Hora de tristeza essa, e ditosa apesar de tudo, em que Abraão levantando pela última vez a testa venerável, resplandecente como a do Senhor, deveria dizer adeus a tudo quanto amava, recolhendo o espírito para dar a bênção cuja virtude se prolongaria por toda a vida de Isaac — essa hora não chegaria nunca! Porque Abraão deveria dizer adeus ao filho, permanecendo cá embaixo; separá-los-ia a morte, mas fazendo de Isaac a sua presa. No leito de morte, o ancião não podia estender alegremente a mão ao filho para o abençoar, mas, cansado da vida, erguer o braço sobre ele em gesto assassino. E Deus punha-o à prova. Desgraça! Desgraça para o mensageiro portador de tal notícia. Quem ousava ser o emissário de tão grande desolação? Mas era Deus que o punha à prova.

Relevo na Igreja Santa Maria Maggiore, Tuscania, séc. XIII

A sua fé se reportasse à vida futura, ter-se-ia, com facilidade, despojado de tudo, para sair prontamente dum mundo a que já não pertencia. Mas não era desta espécie a fé de Abraão, se acaso isso é fé. A bem dizer não se trata aí de fé, mas apenas de remota possibilidade que adivinha o seu objeto no horizonte longínquo, embora dele separado por um abismo onde se agita a desesperação. Mas a fé de Abraão era para esta vida; acreditava que iria envelhecer na sua terra, honrado e benquisto do seu povo, inolvidado pela geração de Isaac, o seu mais caro amor nesta vida, a quem abraçava com afeto tal que é insuficiente dizer que cumpria fielmente o dever de pai segundo o espírito do texto: o filho a quem amas. Jacó foi pai de doze filhos e só a um amou; Abraão teve somente um, aquele a quem amava.
Detalhe do Mural da História da Salvação, Cláudio Pastro, na Igreja do Mosteiro São Geraldo, Morumbi São Paulo.
Mas Abraão acreditou sem jamais duvidar. Acreditou no absurdo. Se tivesse duvidado, agiria de outro modo, teria mesmo realizado um ato magnífico. Acaso poderia ter feito outra coisa? Dirigir-se-ia à montanha de Morija; partida a lenha, teria acendido a pira, puxado da faca e gritado assim a Deus: Não menosprezes este meu sacrifício; de todos os meus bens não é este o mais precioso, bem o sei; que significa de fato a vida de um velho em comparação com a do filho da promessa? Mas é o melhor que posso oferecer-te. Faze com que Isaac nunca de tal se aperceba para que a juventude o conforte. Depois enterraria a faca no próprio peito. O mundo tê-lo-ia admirado e nunca o seu nome seria esquecido; mas uma coisa é suscitar justa admiração e outra ser a estrela que guia e salva o angustiado.

Mas Abraão acreditou. Não rogou para enternecer o Senhor a seu favor; nunca se antecipou em súplicas senão quando o justo castigo desabou sobre Sodoma e Gomorra.

Lemos na Escritura: E Deus pôs Abraão à prova e disse-lhe: Abraão, Abraão, onde estás? E Abraão respondeu: estou aqui! Tu, a quem o meu discurso se dirige, fizeste outro tanto? Não clamaste às montanhas escondei-me! e às vertentes desabai sobre mim quando viste chegar de longe os golpes do destino? Ou se foste mais forte, não te preguiçou o pé ao avançar pela boa senda? Não suspiraste ao recordar os antigos caminhos? E quando soou o momento da chamada, guardaste silêncio ou respondeste, talvez muito baixo, num murmúrio? Abraão, porém, não respondeu assim; alegre e corajosamente, pleno de confiança e em voz cheia exclamou: Aqui estou! — Lê-se ainda e Abraão levantou-se muito cedo. Apressou-se como quem vai para uma festa e, de madrugada, avança para o local designado, na montanha de Morija. Nada disse a Sara nem a Eliezer: de resto quem o compreenderia? E a tentação, por natureza, não lhe havia imposto voto de silêncio? — Partiu a lenha, amarrou Isaac, acendeu a pira, tirou a faca! Meu caro auditor! Muitos pais, ao perder seu filho, julgaram ficar sem o mais precioso tesouro do mundo e despojados de toda a esperança futura; mas nenhum foi o filho da promessa no sentido em que Isaac o foi para Abraão. Muitos pais perderam os filhos; mas perderam-nos pela mão de Deus, pela insondável e imutável vontade do Todo-poderoso. Outro é o caso de Abraão. Prova mais dura lhe estava reservada; a sorte de Isaac encontrava-se na sua mão ao empunhar a faca. Tal era a situação do ancião diante da sua única esperança! Mas ele jamais duvidou, não relanceou o olhar angustiado à direita e à esquerda, não importunou o céu com súplicas. Sabia que o Todo-poderoso o punha à prova, sabia que este era o sacrifício mais duro que se lhe podia exigir, mas sabia também que nenhum sacrifício é demasiadamente pesado quando Deus o pede — por isso puxou da faca.
Sacrifício de Abraão, Caravaggio, 1603. Galleria degli Uffizi, Firenze, Itália.



Quem foi que deu força ao braço de Abraão? Quem lhe manteve a mão direita erguida e a impediu de cair de novo, impotente? Sente-se o espectador desta cena paralisado. Quem foi que deu força à alma de Abraão e o impediu de cegar a ponto de não ver Isaac nem o cordeiro? É o espectador desta cena que se sente cego. — No entanto é raro, sem dúvida, o homem que fica paralisado e sem ver e, mais raro ainda, o homem que relata com dignidade o sucedido. Todos nós o sabemos hoje: tratava-se de uma prova e de uma prova apenas.

Se, na montanha de Morija, Abraão tivesse duvidado, se, irresoluto, olhasse em redor, se, ao puxar a faca, por mero acaso, se apercebesse da presença do cordeiro, e se Deus lhe permitisse sacrificá-lo em lugar de Isaac — então teria voltado para casa e tudo volveria ao que fora antes, teria Sara perto de si, conservaria Isaac e, apesar de tudo isso, que transformação! O regresso não passaria de fuga, a salvação mero acaso, a recompensa confusão e o seu porvir, talvez, a perdição. Não teria dado testemunho nem da sua fé, nem da graça de Deus, mas teria mostrado como é terrível subir a montanha de Morija. Abraão não seria esquecido, nem tão pouco a montanha de Morija. Ela seria então citada, não como o Ararat, onde descansou a arca, mas como um lugar de assombro: Foi ali — diriam — que Abraão duvidou.
Detalhe do Mural da História da Salvação, Cláudio Pastro, na Igreja do Mosteiro São Geraldo, Morumbi São Paulo.
Abraão, pai venerável! Quando de regresso a casa, vindo de Morija, não foi preciso dedicar-te um panegírico para te consolar duma perda: não é verdade que havias ganho tudo e conservado Isaac? Daqui em diante o Senhor nada mais te exigiu e viram-te bem feliz à mesa com teu filho, sob o mesmo teto, como lá em cima, para toda a eternidade. Abraão, pai venerável! Milhares de anos decorre-ram desde esses dias sombrios, mas não é necessário um tardio admirador para arrancar, pelo amor, a tua memória às potências do esquecimento, porque todas as línguas te recordam. E no entanto recompensas a quem te ama por forma mais magnânima do que ninguém; lá em cima o tornas bem-aventurado em teu seio, e cá embaixo cativas-lhe o olhar e o coração com o prodígio da tua ação. Abraão, pai venerável! Segundo pai do gênero humano! Tu que foste o primeiro a sentir e a manifestar essa prodigiosa paixão que desdenha a luta terrível contra a preciosa arremetida dos elementos e das forças da criação para combater contra Deus, tu que primeiramente sentiste esta paixão sublime, expressão sagrada, humilde e pura, do divino frenesi, tu que constituíste justa admiração dos pagãos, perdoa a quem intentou cantar em teu louvor, se não soube bem desempenhar a sua tarefa. Falou humildemente, segundo o secreto desejo do seu coração; falou brevemente, como convinha; mas nunca esquecerá que te foram necessários cem anos para receber, contra toda a expectativa, o filho da velhice e que tiveste de puxar da tua faca para conservar Isaac — tão pouco esquecerá que, aos cento e trinta anos, não havias ido mais longe do que a fé.
Coleção Pensadores, Ed. Abril, São Paulo 1979, 200-209.
Tradução Maria José Marinho
Detalhe do Mural da História da Salvação, Cláudio Pastro, na Igreja do Mosteiro São Geraldo, Morumbi São Paulo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

22 de Dezembro: O Magnificat

O Magnificat traz à tona o conteúdo e o significado da Anunciação, à partir de três situações humanas: aquela religiosa, aquela socio-política e aquela étnica; cada uma das quais, sozinha, não bastaria para interpretar o evento. A conjunção das três linguagens distintas tende, precisamente, a penetrar mais profundamente no Mistério. Cada uma desta aproximações tem vantagens e limites. O filho que Maria leva em seu ventre é a resposta de Deus às aspirações religiosas «daqueles que o temem», às aspirações socio-políticas dos fracos e necessitados, e daquelas nacionais, do povo judaico. Todavia, mesmo respondendo a estas aspirações, vai muito além de suas espectativas.

Aos olhos do evangelista Lucas, é muito significativo que a mãe do Salvador tenha sido escolhida entre as filhas de Israel, que pertença à estirpe de Abraão dos patriarcas, ainda que seja verdade que a salvação, na qual creem os cristãos, não seja questão de carne e sangue. Era preciso que a Salvação universal viesse de Israel, afim de que se manifestasse a fidelidade de Deus às suas promessas e a continuidade, que faz da Igreja, a herdeira de Israel.

É também significativo que a mãe do Salvador tenha sido escolhida no interno de um grupo religioso de tementes a Deus, os quais querem estar inteiramente a seu serviço, mesmo que seja, também verdade, que a Salvação anunciada pelo evangelho não seja reservada somente às pessoas que se distinguem pela sua religiosidade: muito mais que isso, Lucas insistirá sobre o amor de Deus pelos pecadores, os quais são todos chamados à conversão. E não é, enfim, menos significativo que a mãe do Salvador tenha sido escolhida da classe social mais humilde, aquela dos pequenos, dos fracos, tornando-se, assim, a primeira testemunha de uma salvação, cuja boa nova é diretamente destinada aos pobres. E isto não quer demonstrar a idéia de que a salvacão trazida ao mundo por Cristo, seja reservada a uma classe social, mas revela sobretudo a atitude de um Deus que não aceita a injustiça, sobre a qual estão fundadas as sociedades humanas, nas quais a lei do mais forte é sempre a melhor, e as preferências de um Deus que privlegia exatamente aqueles que a sociedade dos homens despreza e rejeita: no Reino deste Deus, os primeiros deste mundo serão os últimos e os últimos, primeiros. (...)

O Deus de quem o Magnificat celebra a santidade, a misericórdia e a força, é certamente o Deus que os «tementes a Deus» servem, todavia a continuação do evangelho nos faz saber, sem dúvida, que a sua solicitude se desdobra de modo particular àqueles que dEle se afastaram. A estes, pede que retornem, para que lhes possa perdoar tudo.

O Deus celebrado no Magnificat é e permanece o Deus de Israel, o Deus que chamou Abraão e cujas promessas, em favor de sua descendência, jamais falharão. Todavia, é também o Deus que quis que todos os homens pudessem se beneficiar da Salvação concedida a seu povo, independentemente de sua origem étnica.

A Salvação, enfim, que Deus quer assegurar a todos os homens, não prescinde das situações concretas de suas existências, mas comporta, de modo essencial, uma reviravolta das situações de injustiça, que agravam sobre os fracos e necessitados. O Deus do Magnificat se coloca, resolutamente, do lado dos pobres e dos que não tem nenhum poder.

O Magnificat não define Deus, mas fala dEle somente em função dos diversos aspectos da intervenção salvífica, iniciada com a Anunciação. E deste evento, Lucas nos apresenta Maria, como a primeira testemunha.

J. Dupont, Le Magnificat comme discours sur Dieu, 338-342.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

18 de Dezembro: o Justo José

Anunciação a S.José, têmpera acrílica sobre papel, 2007, Monastero di San Lorenzo, Amandola, Itália.

Em que consiste a justiça de José? Nada nos é explicado sobre a sublime justiça pela qual José acreditou na intervenção divina; ao contrário da Virgem, ele não tem nenhum papel na concepção virginal. A justiça se cumpre quando permite a Deus superar as dificuldades que se criam para um nascimento sem pai, difamante para os homens. Em compensação, José tem um papel capital no nascimento legal. Como Maria obedeceu na qualidade de serva do Senhor para conceber o Filho do Altíssimo, assim também ele deve obedecer para tornar-se o pai. A dúvida que o entrega às suas forças não é relatada por interessar-se em suas angústias pessoais, ou às virtudes morais, mas por revelar como se realiza o plano divino. Somente Deus conduz o desenrolar-se dos acontecimentos, mas nem por isso despreza a participação dos homens. É em nome da estirpe de Davi, em nome de Israel, como representante do Povo Eleito que, por ordem divina, o justo José aceita o mistério da Nova Aliança. Se Lucas, evangelista de Maria, nos conta a concepção e o nascimento do Filho da Virgem, Mateus refere o nascimento do Messias, o Filho de Davi.

José se mostra justo não enquanto observa a Lei que autoriza o divórcio em caso de adultério, nem porque se demonstra bom, nem porque ele deva prestar justiça a uma inocente, mas pelo fato de que ele não queira passar-se por pai do menino, Filho de Deus. Se ele teme tomar Maria como sua esposa, não é por uma razão profana; é porque ele descobre uma «economia» superior àquela do matrimônio que pretendia contrair.

O Senhor modificou o seu desígnio sobre ele; que ele aceite de assegurar o futuro de sua eleita. José se retira, tendo o cuidado, na delicadeza da sua justiça para com Deus, de não «divulgar» o mistério divino de Maria. (...)

José não é somente um modelo de virtude, mas o homem que exerceu uma função indispensável na economia da Salvação. O justo José pode ser comparado a João, Precursor.

João anuncia e indica o Messias; José acolhe o Salvador de Israel. João é a voz que se faz eco da tradição profética; José é o Filho de Davi que adota o Filho de Deus. Por motivo de sua proclamação oficial, João é Elias, o grande profeta; por motivo do humilde acolhimento que ele faz ao Emanuel na sua estirpe, José é o Justo por excelência. Como todos os justos, ele espera o Messias, mas somente ele recebe a ordem de estender uma ponte entre os dois Testamentos; muito mais que Simeão que toma Jesus em seus braços, ele acolhe Jesus na sua própria estirpe. José reage como os justos da Bíblia diante de Deus que intervem na sua história: como Moisés que descalça as sandálias, como Isaías aterrorizado com a aparição do Deus três vezes Santo, como Isabel que se pergunta como a Mãe de seu Senhor venha até ela, como o centurião do evangelho, como Pedro que diz: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador» (Lc 5,8).

X.-L. Dufour, Studi sul vangelo, 103-108.

sábado, 11 de outubro de 2014

Os olhos abertos de Cristo crucificado

Escultura em madeira, Porta da igreja de Santa Sabina, Roma, século IV

O fato dos olhos abertos do Cristo sobre a Cruz é uma tradição muito antiga. A arte sacra não busca representar uma fotografia momentânea do evento sacro, como ele foi no passado, mas sim o que ele é na verdadeira Realidade, no "Agora" da eternidade, para nós. Por isso, muitos dos Mistérios da Vida de Cristo eram representados segundo modelos herdados da Antiguidade, para mostrar o seu significado profundo, aquilo que eles tem a nos dizer, no "hoje" daquele que o contempla. Por isso, eles sobrepunham passagens bíblicas na mesma cena, para que, na transparência, formassem uma imagem com mais dimensões que o 3D! 
Miniatura do Tetra Evangelho de Rabulla, de origem síria, séc. VI, Biblioteca Medicea, Firenze, Itália.
Bom Jesus de Bouças, Portugal, séc. XIII
O modo de dizer que Jesus morreu na Cruz e ressuscitou, que justamente através do seu aniquilamento Ele venceu a soberba do inimigo e derrotou a morte, que Ele se entregou livremente por nós, era representá-lo vivo e triunfante sobre a Cruz. Um dos modos de mostrar esta vida eram os olhos abertos, outros o gesto generoso e senhoril do corpo todo, com uma paz que emana de todo o conjunto. O Evangelho de João joga simbolicamente com as palavras, para mostrar que, na Cruz, Ele se manifesta como verdadeiro Rei. Como representar o invisível? através de símbolos visíveis! 
Este marfim, que está no Museu do Louvre, e é de 420-430, mostra dois aniquilamentos, o de Judas e o de Jesus,
O primeiro, na Árvore da Vida (note-se o ninho de passarinhos...) encontra a Morte, por não se deixar perdoar,
como o velho Adão, depois do pecado. Alusão esta da bolsa das moedas que tem uma alça parecida com uma serpente.
A Cruz de Jesus é uma Cruz gloriosa, com as pontas que se abrem, e as atitudes são serenas e nobres:
Contempla-se um Mistério! A Beleza provoca a elevação e o silêncio.
Qual é a essência do evento? O sofrimento ou a vitória? Evidentemente é a Vitória, pois milhares sofriam e morriam na cruz, isso era o que se via continuamente, já que a crucifixão foi abolida somente no império bizantino. Não somente representavam com os olhos abertos, mas também vestido finamente, como um sacerdote, pelas razões ditas acima. Estes traços permanecerão uma constante na iconografia da crucifixão por quase mil anos! Olhos abertos ou fechados aparecerão, mas será sempre o conjunto dos elementos a viabilizar o discurso da vitória sobre o mal e a morte.

Afresco em Cimitile, Itália, séc. VIII.
Neste bronze e esmalte do séc. XIII (Limoges) vemos todo o Mistério representado:
A Paixão (pelos cravos e a Cruz), a Ressurreição (pela vestimenta real)
e pelas flores, que são como uma explosão de primavera, e a Ascensão
que nos conecta diretamente com a Eternidade: nosso Rei conhece nossa dor,
conhece de dentro dela, e sua presença nela, assegura a vitória.
Relicário do séc. VII, nos Museus Vaticanos.
Afresco da Crucifixão, São Gaudioso, séc. VI, Nápoles, Itália.
Stauroteca (relicário da Santa Cruz) Fieschi-Morgan - início do séc. VII - Siria
Vemos a unidade do Mistério que une Encarnação, com a Anunciação e Natividade
e embaixo, a Cruz e Ressurreição, com a descida aos infernos para o resgate de Adão e Eva.
Tudo se trata de uma Grande Descida dos Céus dos céus até os abismos, onde nos metemos...
Ícone da Crucifixão, do séc. VII, do Mosteiro de Santa Catarina do Monte Sinai.
Bronze e esmalte, Geórgia, séc. X.

O século XIII trará grandes mudanças na sociedade e na teologia e espiritualidade cristã. O advento das
Ordens mendicantes e sua pregação, colocarão grande ênfase na humanidade de Jesus, sem negar a divindade, evidentemente. O Santo Corpo do Senhor começa a pender da Cruz, no peso do ser humano, os personagens também manifestam a dor de forma sempre mais intensa. O silêncio ainda se experimenta, e a Vida triunfa sobre a morte, mesmo com as mudanças de linguagem.
No séc. XIV, o Corpo do Senhor se esvazia, no grande Mistério da Quênose (não se apegou à sua igualdade com Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de Servo), pende sempre mais, os sinais da dor ficam evidentes, ainda que a luminosidade do corpo, e a paz continuem presentes, mostrando que este não é o fim!
Quando acontecerão mudanças drásticas na história da humanidade e na teologia e espiritualidade, as imagens vão seguir o mesmo caminho, perdendo seu aspecto mistérico-simbólico pouco a pouco, dando espaço a um emocionalismo sempre maior, e consequentemente, a um naturalismo e sensualidade crescentes, com o fim de provocar a sensação e emoção diante da dor do Senhor: Sentir-se pecador diante do sacrifício do Senhor! 
Têmpera sobre madeira dourada, séc. XIV. O drama e a dor, os contrastes humanos, as potências do Céu, fazem ver que definitivamente, algo mudou, não o Mistério, que continua o mesmo, mas os caminhos para ele são vários: o da contemplação silenciosa, mas também o da emoção pessoal que vagueia entre a indignação contra os soldados que crucificaram Jesus, a presença de S. Longinus que reconhece a divindade dEle, Maria Madalena que beija os pés ensanguentados, a Virgem Maria que desfalece de dor, as mulheres que a sustentam, os anjos que recolhem o Santíssimo Sangue, e se contorcem de sofrimento.
O século XV levará a reflexão adiante, e a Crucifixão torna-se uma reflexão sobre a Bondade Divina e a maldade humana. Esse quadro do renascimento alemão, mostra o naturalismo crescente, o grotesco dos corpos, o perfeccionismo nos detalhes, tudo é um drama e também uma cena composta. A banalidade se mistura com o sagrado, e o Mistério é diluído em humanidade, e sobre a cena se "sente" e se "pensa", mas sempre como um espectador externo, cada vez mais longe.
Ainda no séc. XV, teremos o primeiro renascimento, no qual os modelos grego-romanos começam a ser utilizados,  ainda que com critérios ligados à Tradição, abrindo espaço ao naturalismo. Esta escultura é de Donatello, feito em 1406, e é conservado na Chiesa della Santa Croce, em Florença, Itália.
Contemporâneo de Donatello, Bruneleschi esculpiu este Crucifixo entre 1410-15, e encontra-se na Chiesa di Santa Maria Novella, na mesma Florença. Ainda que tenham sido duas esculturas escandalosas para a época, pelo seu naturalismo e sensualidade, pouco a pouco, o modela vai fazendo sua estrada.
A idéia é aquela de provocar a experiência de que o Amor ama assim, dando a vida, mesmo no caso extremo, e é uma idéia… na sucessão das mudanças na iconografia, elas conservam muitos traços das anteriores, e somente pouco a pouco muda radicalmente em relação aos primeiros modelos. 
Matthias Grünewald, Políptico de Isenheim: Cristo Crucificado, detalhe, 1515. O naturalismo do renascimento italiano chega nos países do Norte, e na Alemanha, e produz obras de arte de grande valor como esta. Cristo é o homem das dores e do sofrimento, mas aqui nem mesmo a paz se percebe, somente a entrega em meio à violência dos instrumentos da Paixão. Vale a pena ver todo o conjunto, onde está representado todo o Mistério, também a Encarnação e a Ressurreição: http://it.wikipedia.org/wiki/Matthias_Grünewald#mediaviewer/File:Grunewald_Isenheim1.jpg 
Na maioria das imagens do crucificado, vamos encontrar os traços comuns de uma paz e de uma entrega total. Nas mais contemporâneas, nem isto… algumas imagens vão passar estranhas mensagens, sobretudo o contrário daquilo que as primeiras queriam dizer, ou seja, dizem que a morte venceu ou não aconteceu!
No século XVII, em 1630, Diego Velasquez pinta esta Crucifixão. O renascimento e suas reflexões filosóficas passaram, e agora resta a pura emoção diante da serena e sensualíssima atitude do Cristo. As marcas da Paixão são discretas, estamos diante de um modelo que posa para um pintor, pode ser que este quisesse mostrar, deste modo, a vitória sobre a morte, mas o efeito não é exatamente este, pois ainda que tenhamos certeza de que o personagem em questão está vivo, não cremos que ele morreu de fato...
Uma imagem literária simpática é aquela do Leão, que segundo os livros da Antiguidade, dormia com os olhos abertos! O que significava, também por outros motivos simbólicos, que o dito animal tem um poder especial sobre a morte! De fato, segundo os mesmos textos, os filhotes nascem da leoa mortos, e será o bafo quente do leão a ressuscitar os leõezinhos. Nota-se como uma imagem simbólica consegue dizer muito mais que um tratado filosófico. Não por nada, nos primeiros séculos se dizia que Jesus morre como um cordeiro e ressuscita como um leão! Porque a sua morte-ressurreição (inseparáveis) nos dão a verdadeira vida!

sábado, 29 de março de 2014

Etty Hillesum: reencontrar a vida no turbilhão do Holocausto

Justamente, Alessandro Barban (prior dos beneditinos camaldulenses) e Antonio Carlo Dall'Acqua começam o seu livro sobre Etty Hillesum, intitulado Osare Dio (Cittadella Editrice, 284 páginas), com uma fotografia tirada em 1931. É o retrato de uma família judaica composta por pai, mãe e três filhos, que vive na Holanda, mas poderia ser a de centenas de milhares de outras famílias judaicas de classe média de toda a Europa.
A análise é do escritor e crítico literário italiano Giorgio Montefoschi, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 18-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Sabemos que o pai, Louis Hillesum, é um professor de latim e grego, tímido, interessado principalmente nos seus estudos; que a mãe Riva (Rebeca) é de origem russa, emigrou para a Holanda depois de um pogrom e tem um caráter difícil, marcada pela loucura; que os dois meninos, Jaap, de 15 anos, e Mischa, de 11 (se tornarão: um médico, e o outro, um refinado pianista), têm grandes problemas psíquicos; e que Etty, a menina morena de 17 anos, que, com olhos intensos, tem uma péssima relação com os pais e está passando pela "idade ingrata" em que lutamos com nós mesmos.
Tudo isso, porém, tem uma importância relativa. O que conta, no retrato fotográfico em que os Hillesum exibem com confiança o seu decoro burguês, é a sua "normalidade": a homogeneidade de milhões – desta vez – de famílias europeias não judaicas, mais ou menos bem de vida, mais ou menos felizes. Passar-se-iam 12 anos, e os Hillesum, sem saber naquele momento, juntamente com outros seis milhões de judeus ignaros e inocentes, seriam varridos da face da terra.
O percurso espiritual de Etty Hillesum, considerada por muitos como uma das almas mais elevadas do século XX, não pode ignorar a tragédia do povo judeu. Provavelmente ela não teria ocorrido dessa forma, ou até mesmo teria permanecido sem expressão – um "fácil idílio" com Deus, cultivado atrás de uma escrivaninha, em uma cômoda sala com muitos livros e sempre belas flores, e do lado de fora os quietos canais de Amsterdã – se a sua vida não houvesse sido "jogada na dor".
Conhecemo-lo através de um exíguo número de Lettere [Cartas] (publicadas pela editora Adelphi), escritas principalmente do campo de repartição de Westerbork, ao longo de um ano (de 14 agosto de 1942 a 7 de setembro de 1943: data da partida de Etty e dos seus para Auschwitz), e por um interminável Diário de mais de 800 páginas compactas (publicado também integralmente pela Adelphi), que vai do dia 8 de março de 1941 a 12 de outubro de 1942: 17 meses, um tempo muito breve (como observado por Barban e por Dall'Acqua), no qual a lagarta se torna borboleta e se cumpre uma transformação incrível.
O dia 8 de março de 1941 marca um momento fundamental na existência de Etty Hillesum: o encontro com Julius Spier. Spier, judeu alemão de 54 anos, que se refugiou na Holanda depois de ter deixado sua esposa e dois filhos, noivo de uma jovem garota, Hertha (que emigrou para a Inglaterra em 1938), é uma psicoquirólogo (um psicanalista que parte, para a sua análise, do estudo da mão), seguido na sua formação e apreciado por Jung. Não é um homem bonito: é robusto, corpulento, mas tem uma boca extremamente sensual e dois olhos que "transpassam o tempo". Até aquele momento, antes de conhecê-lo, Etty viveu desordenadamente: se formou sem entusiasmo em jurisprudência; teve experiências sexuais e sentimentais que a deixaram insatisfeita (atualmente ela tinha um relacionamento fixo com Han Wegerif, um senhor de nada menos do que 62 anos); desperdiçou os seus talentos. Agora, em determinados momentos, ela sente que as suas ideias são "muito vagas, pendem como vestidos muito largos" do seu corpo; em outros, gostaria de "desaparecer, se dissolver, fundir-se harmoniosamente com a terra e o céu"; sofre pelo caos que reina em si mesma; busca um homem para possuir por toda a vida e, ao mesmo tempo, sabe que essa posse absoluta não é a posse do Absoluto; invoca a Deus, que ela intui que está dentro de si mesma, mas tem a impressão de que é uma fonte coberta por pedras e areia. Spier, que em Amsterdã tem um certo sucesso, é o homem do destino. Os seus métodos terapêuticos, na verdade, são (como destacam Barban e Dall'Acqua) bastante estranhos e, no mínimo, discutíveis. Baseiam-se (além da leitura da mão) na convicção de que corpo e alma estão estreitamente ligados e devem viver em harmonia. Para que os seus pacientes possam alcançar essa harmonia, libertando-se das regressões e dos medos que os bloqueiam, Spier faz uma luta com eles. Uma luta propriamente dita: física, até mesmo violenta. É realmente um método estranho e, se quisermos, no limite da deontologia médica: porque, quando a paciente é uma mulher, é inevitável ou quase que da luta, do contato convulsivo dos corpos, se passe para outros gestos, talvez para carícias relutantes. É exatamente o que acontece com Etty, que muito logo se sente atraída Spier ("A sua boca, de repente, era tão selvagem e demoníaca, e floresceu com sensualidade (...) A carne, eu só queria a carne") e se apaixona. Mas Julius – que é um homem culto, religioso, sensível e honesto no seu desejo para fazer com que emerja em cada indivíduo a parte mais profunda e verdadeira do seu ser – também se apaixona por Etty. Assim, entre os dois, se cria uma situação extremamente complexa e contraditória, feita de pulsões eróticas e inibições, explosões sentimentais e sentimentos de culpa (Spier não quer deixar a sua namorada, Etty continua fazendo amor com Han, até engravida e aborta), na qual, em essência, esse homem e essa jovem mulher que poderia ser sua filha põem a si mesmos como um obstáculo (talvez necessário) para conseguir um amor diferente, ao qual, no entanto, tendem cegamente como a algo misterioso, ainda obscuro, indefinido. Enquanto isso, a situação dos judeus piora. Em junho de 1942, são promulgadas também na Holanda as leis de Nuremberg: começam as perseguições, as deportações. Os judeus devem ser aniquilados, desaparecer. E eis que Deus chama. Desce no coração de Etty: onde já habita. Um dia, de repente, Etty se encontra (não decidiu fazê-lo) ajoelhada no meio da sala. Um dia, lê o trecho da Carta de Paulo aos Coríntios sobre a caridade e sente que essas palavras são "como varas" na dureza do seu coração. Novamente cai de joelhos. As ameaças e o terror crescem, as barbáries se acumulam. E, lentamente, as pedras e a areia se erguem do coração de Etty, e aquela fonte escondida brota com um poder inaudito. É o amor de Deus: que Etty reconhece em todo ser humano, começando pelos seus carnífices, e na vida. Uma vida que, mesmo nesse abismo de desespero, não consegue deixar de considerar como plena de significado e maravilhosamente bela. Uma noite, está no seu leito e, através da janela, olha para o céu e as árvores. E escreve: "A guerra, os campos de concentração (...) tudo isso existe, eu sei, mas, em um momento de abandono, eu me encontro no peito nu da vida, e os seus braços me circundam tão doces e protetores, e as batidas do seu coração eu ainda não sei descrever: tão lento e regular e tão doce, quase abafado, nunca tão fiel, como se nunca tivesse que parar, e também tão bom e misericordioso". Em outra página, ela escreve: "Acho a vida bela e me sinto livre. Os céus se estendem dentro de mim, assim como acima de mim. Acredito em Deus e nos homens, e ouso dizer isso sem falso pudor". Mais adiante, ela escreve ainda: "Uma coisa é certa: deve-se contribuir para aumentar a reserva de amor sobre esta terra. Cada migalha de ódio que se acrescenta ao ódio exorbitante que já existe torna este mundo inóspito e inabitável". Agora, os eventos progridem. Etty poderia se esconder, fugir. Não o faz. Primeiro como empregada do Conselho Judaico, depois como prisioneira destinada ao extermínio, entra no campo de Westerbork. O que ela vê com os seus olhos, o que ouve com os seus ouvidos, é o horror: fome, miséria física e mental, degradação, humilhação de todos os tipos, crianças arrancadas dos berços, esposas separadas dos maridos para sempre. E, todas as segundas-feiras, a chegada daquele trem composto por carros de gado que é preciso encher com seres inocentes e que na terça-feira parte para a morte. Etty não se isenta de nada. Spier morreu de câncer, e o seu amor já é todo pelos outros: pelo seu próximo, sustentado por aquela fonte que continua jorrando no seu coração. Mas Deus está no coração de todos.
"Uma coisa, porém, torna-se cada vez mais evidente em mim", escreve Etty um dia, já diante da inevitabilidade do seu destino, "isto é, que Tu não podes nos ajudar, mas que somos nós que devemos Te ajudar, e desse modo ajudamos a nós mesmos. A única coisa que podemos salvar nestes tempos, e também a única que realmente importa, é um pequeno pedaço de Ti em nós mesmos, meu Deus. E talvez também possamos contribuir para desenterrar-Te dos corações de outros homens. Cabe a nós Te ajudar, defender até o fim a Tua casa em nós".
Estamos no auge do caminho espiritual dessa jovem judaica que lia os Salmos e os Evangelhos: ajudar Deus. Uma ideia maluca e revolucionária, como apontam Barban e Dall'Acqua, que subverte a relação do ser humano com o seu Criador.

Etty Hillesum morreu em Auschwitz em novembro de 1943. Do trem, ela conseguiu jogar um cartão postal endereçado à sua amiga Christine van Nooten. Estava escrito: "Deixamos o campo cantando".
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/517842-etty-hillesum-reencontrar-a-vida-no-turbilhao-do-holocausto

Etty e o poço

«Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo. Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Essas procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondem nas mãos, penso que elas procuram Deus dentro de si.»


Etty Hillesum, Diário, 26 de Agosto de 1941, terça-feira à tarde, 112.

terça-feira, 11 de março de 2014

TQ 01 3 Converter ... em efeito

Homem orante com a filha - estela funerária pagã - Kom Abu Bihu séc. III-IV, Egito.
Depois de termos sido como que iniciados, de modo adequado, nas «atividades» quaresmais do jejum e da esmola, eis que hoje o Senhor se faz, para nós, um mestre de oração. Antes de colocar no nosso coração e sobre nossos lábios algumas expressões capazes de traduzir a necessidade da nossa vida e o desejo de nosso coração, o Senhor Jesus nos indica, indiretamente, como a atmosfera mais apta à oração é a moderação e uma espécie de quietude de fundo: «Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras» (Mt 6,7). Os versículos que a liturgia nos oferecem hoje são justo aqueles que são omitidos – quase colocados de lado, para poder dá-los mais adiante – na perícope que lemos na Quarta-feira de Cinzas. Podemos, deste modo, acolher este evangelho da oração, depois de ter meditado, no primeiro domingo da quaresma, o anti-evangelho das pretensões diabólicas que tendem a confundir, em nós, a imagem autêntica do Pai, de que Jesus se mostra filho através da escuta, e não por consequência de privilégio. Quando o Senhor nos diz para não desperdiçar palavras, não quer calar-nos, mesmo porque, imediatamente depois, doa-nos algumas palavras que «nós ousamos dizer» ao Pai, com toda a nossa confiança filial. Muito mais, o Senhor Jesus deseja que a nossa oração tenha, como origem e como meta, a consciência, que ela não força, mas muito mais, coloca-nos nas condições para que o Pai possa agir. De fato, «sabe do que precisais, muito antes que vós o peçais» (6,8). Ter consciência do fato de não poder contar nada a Deus que Ele já não saiba, já é um modo para ir contar-lhe tudo, pela alegria de sentí-lo pai e de sentir-nos filhos. Exatamente como faz uma criança que tem necessidade de contar as mesmas coisas e um pai que conta, cada noite, a mesma fábula, com uma recíproca cumplicidade, na qual se faz de conta que não se sabe como termina, só pelo desejo de prolongar o tempo que se passa junto. Neste sentido, então, a oração segue a mesma lei da palavra de Deus, assim como narra o profeta Isaías: «Como a chuva e a neve descem do céu e não retornam [...] sem efeito» (Is 55,10-11). Quando a oração nos coloca em relação a Deus, recordando-nos docemente quanto ele ame estar em relação conosco e com as nossas necessidades, então atingimos plenamente o seu efeito. Quando entramos neste dinamismo, então a oração se faz, não uma fuga da vida, mas uma escola de vida, porque nos permite curar nossas relações intra-humanas, com algo a mais de compreensão e de acolhimento. Também eu, muitas vezes, não conheço, até o fundo, a necessidade de meu irmão e, do mesmo modo, também ele pode cair na terrível culpa de não compreender as minhas verdadeiras necessidades: então abre-se o espaço do perdão recíproco como respiro inevitável da vida. Agostinho pergunta-se e pergunta-nos, justamente comentando a última petição da oração do Senhor, colocando na boca do Pai, a quem nos dirigimos este pedido: «Quais tuas ofensas? Todas ou somente algumas?» e acrescenta: «Tu responderás “Todas!”», e conclui: «Assim, pois, deverás perdoar todas ao que te ofendeu»[1].
MichelDavide Semeraro

Homem orante de Pedret, séc. IX, o homem que ora é circundado pela "energia divina" e é conduzido pelo Espírito.




[1] Agostinho, Sermões 83.