quinta-feira, 7 de março de 2013

23 Fome e sede do Deus vivo

Remagen, Renânia-Palatinado, Alemanha.séc. XII.
Homem que se esconde ou busca a Deus detrás de sua árvore, será Adão?

O jejum toca o homem em um de seus rítmos mais vitais: o duplo rítmo da nutrição, que se apresenta sucessivamente como necessidade e como satisfação. Já desde os primeiros instantes de sua existência fora do ventre materno, o ser humano é estruturado pela sucessão destes dois momentos. É assim que pode permanecer vivo e lhe é possível situar-se progressivamente diante das coisas que o circundam. O recém-nascido tem fome ou está saciado. Necessidade e satisfação, fome e saciedade, com suas características de sofrimento e gozo, alternam-se continuamente.

Mais o adulto se desenvolve na direção da profundidade do seu ser, mais profundo se torna, também, a necessidade e é menos satisfeito pela nutrição material que lhe é apresentada. Vem um dia no qual a fome e a sede de Deus vivo nascem nele e, dominando a nutrição material, marcam-se no seu corpo. «Como um cervo suspira pelas fontes de água, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de ti!» (Sl 42,2-3). A partir deste momento, somente Jesus pode saciar perfeitamente a sua sede: «quem tem sede venha a mim e beba... dizia isto acerca do Espírito que deveriam receber» (Jo 7,37.39).

O jejum tem um impacto profundo sobre o homem. Ele o fere, mas sem machucá-lo, a fim de que a abstinência corporal oriente fielmente na direção de uma abstinência mais profunda e espiritual, que, para dizer a verdade, custa ainda mais ao homem: a ausência de Jesus, o esposo.

Rejeitar o alimento do mundo significa que queremos expressar também com o corpo a nossa fome do século futuro e de Jesus mesmo, o pão descido para nós, do céu (cf. Jo 6,33). Quando o jejum é vivido segundo esta perspectiva, coloca em movimento, no interior do homem, um processo de maturação espiritual, com o qual, lenta, mas seguramente, este vem arrastado na direção de sua nova realidade de existência, na direção do seu ser-no-Espírito Santo. Notemos, de passagem, que o jejum eucarístico toma o seu significado e sua força invisível pelo mesmo processo. A tensão, provocada pelo jejum, não é retirada pela comunhão sacramental com Jesus, assim como, fora da santa comunhão, não é pacificada senão na intimidade da oração com Jesus. Isto acontecendo, o jejum e a oração agem em profundidade para o desenvolvimento psicológico do homem. Contribuem, de fato, até um certo ponto, a cancelar os traços do pecado nele. Também a necessidade psicológica eclipsa, e frequentemente, assim carregada pela paixão, passa por uma tranformação fundamental. Não bastaria, de fato, sublimar a necessidade de alimento corporal sobre o plano espiritual somente com o jejum. Existe um apetite guloso espiritual, tão egocêntrico como aquele material, e que da mesma maneira freia a livre atividade da graça em nós. Ao contrário, o jejum exige muito mais. Trata-se de renunciar a todo apetite egocêntrico, e de transformar toda necessidade, qualquer que seja, em desejo do outro, paciente e respeitoso: de fato, somente o outro, na sua alteridade irredutível, pode doar-se a nós, livremente e sem constrangimentos. 
A. Louf, Signore, Insegnaci a pregare,118-119.

quarta-feira, 6 de março de 2013

22 Na espera de Deus

Ceia, Paróquia São Vicente Pallotti, Arapongas, Paraná Brasil.
O jejum deveria ser praticado em dois níveis: antes de mais nada, como jejum ascético; e depois, como jejum total. O jejum ascético consiste em uma drástica redução do alimento, de modo que, um estado permanente de uma certa fome possa ser vivido, como uma lembrança de Deus e um esforço constante de manter nossa mente orientada para ele. Quem quer que o tenha praticado, ainda que por um pouco, sabe que o jejum ascético, ao invés de enfraquecer-nos, torna-nos leves, unificados, sobrios, alegres e puros. Então se recebe o alimento como verdadeiro dom de Deus. Encontramo-nos constantemente orientados para aquele mundo interior que, de modo inexplicável, torna-se, por si mesmo, uma esécie de alimento. No que se refere à quantidade, à frequência e à qualidade do alimento a ser tomado no período do jejum ascético, não é o caso de discutir aqui; tudo depende das nossas capacidades individuais e das condições exteriores da vida de cada um. Mas o princípio é claro: trata-se de um estado de semi-fome, cuja natureza «negativa» é sempre transformada em força positiva pela oração, pela memória, pela atenção e concentração.

Quanto ao jejum total, ele deve ser, necessariamente, limitado na sua duração e ligado com a eucaristia. O essencial é vivê-lo como espera, esperança, fome de Deus. Trata-se de concentrar-se espiritualmente sobre o que está por vir, sobre o dom que se vai receber, e pelo qual, um está disposto a renunciar a todos os outros dons.

Devemos lembrar que o nosso jejum, ainda que limitado, se é um verdadeiro jejum, conduzirá às tentações, à fraqueza, às dúvidas e à irritação. Em outras palavras, será uma autêntica luta e provavelmente, sucumbiremos muitas vezes. Mas, justamente a descoberta da vida cristã como luta e esforço é o aspecto essencial do jejum. Uma fé que não superou as dúvidas e a tentação é, raramente, uma fé autêntica. Infelizmente, nenhum progresso é possível, na vida cristã, sem a amarga experiência do insucesso. Muita gente começa o jejum com entusiasmo, e depois o abandona no primeiro fracasso. Diria que é exatamente no primeiro insucesso que acontece a primeira vitória. Se, depois de ter cedido e ter dado livre curso aos apetites e às paixões, conseguimos retomar do início, sem abandonar o propósito, não importa quantas vezes venhamos a cair, mais cedo ou mais tarde, o jejum produzirá os seus frutos espirituais. Entre a santidade e o cinismo desencantado existe lugar para a maior e divina virtude da paciência, paciência consigo mesmo, principalmente. Não existe atalho para a santidade; para cada passo, devemos pagar o preço inteiro. Assim, é preferível, e mais seguro, iniciar com um mínimo, apenas um pouco acima das nossas possibilidades naturais, e incrementar, pouco a pouco, o nosso esforço, muito mais que tentar saltar demasiadamente alto, no início, e quebrar-se, caindo por terra.

Em poucas palavras: de um jejum simbólico e formal, o jejum entendido como obrigação e costume, devemos fazer o retorno ao verdadeiro jejum, ainda que seja limitado e modesto, mas efetivo e sério. Coloquemo-nos, com honestidade, diante das nossas capacidades físicas e espirituais, e tomemos a atitude consequente, recordando, porém, que não existe jejum que não seja um desafio a estas capacidades, e que não introduza, na nossa vida, uma prova divina de que as coisas impossíveis aos homens são possíveis para Deus.

A. Schmemann, La grande Quaresima,106-107.

segunda-feira, 4 de março de 2013

20 Predispor o coração para a caridade

Comida na casa de Simão, e a pecadora que muito amou. Sant'Angelo in Formis, séc. XIII.
Para que o jejum e a ascese possam realizar eficazmente a sua função, é necessário que sejam praticados com consciência de causa. Não se trata, simplesmente, de sobrepor a alguns de nossos atos um significado intelectual, e muito menos de cumprir algumas práticas por pura obrigação. É necessário, muito mais, que o movimento interior, suscitado pela graça, envolva também o nosso corpo.

Neste mesmo movimento, é necessário que a medida da ascese seja proporcionada às possibilidades reais do sujeito. Eis porque os Padres do deserto insistiam tanto sobre a discrição: ela tem a missão de assegurar este equilíbrio. A sua função não é aquela de fixar regras, mas de proporcionar, concretamente, as exigências externas às forças do sujeito e às monções interiores do Espírito, com o fim de tornar sempre possível um verdadeiro propósito pessoal. Se é o Espírito que convida e que dá a força, também certos “excessos”, ao invés de atentar contra a integridade física e espiritual, vão favorecê-la. Temos inumeráveis testemunhos nas vidas dos santos. O que os Padres do deserto pediam, ao contrário, a um fraco, a um pecador que buscava retomar o caminho, era de uma surpreendente condescendência. Os critérios que permitem, nestes casos, uma decisão, são os sinais clássicos do discernimento dos espíritos: qual é o meio que favorecerá, primeiramente, a paz da alma, a mansidão, a ausência de ansiedades, de durezas e de asperezas? Aqui se mostra indispensável o conselho de um pai espiritual.

O jejum é inseparável das outras práticas tradicionais da ascese cristã e do exercício concreto da caridade. Justamente em virtude de seu caráter essencialmente simbólico, os exercícios da ascese, corporal não podem ser trocados um pelo outro. Cada um deles «simboliza» um aspecto diverso do esforço ascético, e juntos, constituem um organismo no qual, cada elemento tem sua função própria. Seria absolutamente prejudicial à vida espiritual, por exemplo, se reduzíssemos toda a ascese para cumprir bem o próprio trabalho e sustentar as dificuldades cotidianas da vida. Tudo isto é necessário, sem dúvida, mas não é o símbolo eficaz daquela atitude de pobreza espiritual, de negar-se a confiar somente nas forças da carne, de humilhação diante de Deus, que o jejum deseja expressar...

Sobretudo, e o proclamam com força os profetas de Israel, deve-se unir ao jejum, o exercício concreto da caridade para com o próximo. Os Padres recordam, constantemente, que o jejum deve permitir ao cristão satisfazer ao dever da esmola e que ele, sozinho, não tem nenhum sentido se não predispõe o coração à caridade.

PIacide Deseille, Humilier son âme..., 14-17.

sábado, 2 de março de 2013

18 Despojar-se da própria pobreza

Retorno ao Paraíso, Murais da Capela do Monastero San Lorenzo, Amandola, Itália.
Adorando «em espírito e verdade» (Jo 4, 23), o homem fala e age não como aquele que compreende e possui com as suas forças, mas como aquele que é compreendido e pussuído, conquistado. A sua oração não impede a grande vitória do mistério do homem, não torna o homem «forte» contra o mistério; muito mais, na oração, o mistério se eleva sobre o horizonte estético cintilante das mais altas sensações humanas e, pela primeira vez, torna´se uma urgente exigência e uma chamado. De uma anônima presença no mudo pathos da comoção humana, o mistério passa, na oração, a tornar-se o «Emanuel», ganha plena força sobre todo o nosso ser, e não somente sobre a oculta profundidade e a vastidão transcendental do espírito, mas também, sobre a objetiva realidade física: sobre os pensamentos e as imaginações, sobre a palavra, sobre o olhar e seus gestos. O homem não tem mais nada que não corresponda à dominante promessa do mistério, nada que possa absolvê-lo de seu compromisso com ele. Rezando, de fato, o homem se despoja também da sua própria pobreza, e a entrega ao mistério. Este é o sentido mais profundo do falar humano: que nele não haja desvinculação do mistério, mas muito mais, que se entregue a ele; e pensando e falando, não se afaste do mistério, mas sim, o invoque, e com isto se coloque sempre à sua disposição.

Quando, na pobreza do seu espírito adorante, o homem aparece diante do rosto da divina liberdade, diante do impenetrável misterioso «Tu» de Deus, então ele é também introduzido na profundidade do seu eu insondável, da sua dignidade pessoal; então, em uma palavra, se cumprirá o seu tornar-se humano. Na adoração glorificante de Deus, o homem é levado, todo inteiro, diante e dentro de si mesmo. Porque, na realidade, ele não é outra coisa senão o que Deus deu a ele mesmo, a promessa de Deus, chamada e reunida à sua natureza.

A adoração é, pois, a mais alta plenitude do homem, a sua representação e atuação mais completa. Sacrificando tudo, também a propria pobreza, ousando, na oração, a pobreza da própria pobreza, o homem se torna «rico» e grande: «porque, quando sou fraco, justamente então, é que sou forte» (2 Cor 12, 10).

J.B. Metz, Povertà nello spirito, 69-71.

sexta-feira, 1 de março de 2013

17 A pobreza de espírito limiar do encontro com Deus

Monte Sinai, séc. VI
Na morte, nós todos nos encontramos de fronte à grande pobreza da nossa natureza. Na morte se cumpre a obediência ao destino do nosso ser e nela, essa obediência chega a sua crise mais radical, à sua problemática mais alta. Porque a morte descobre, do modo mais agudo, o caráter «aniquilante» da nossa pobreza: onde o homem escapa de suas prórias mãos, é raptado de si mesmo. Aqui, tudo lhe é totalmente escondido, e em tudo, subtraído ao seu controle, o caráter definitivo da sua operação vital, atuada na pobreza da liberdade, a única coisa, pois, que nos abismos da morte oferece ainda um terreno, uma sólida consistência e uma duração fiel. No sofrimento obediente desta profundíssima impotência, onde o homem não tem nada mais que a sua doação, e esta, somente na experiência de um total «empobrecimento», realiza a «pobreza no espírito», cuja paixão sem voz e sem nome encontrou em Jesus a sua mais feliz expressão: «Pai, em tuas mãos entrego meu espírito» (Lc 23,46). A obediente doação ao próprio ser, que com seu peso, aprofunda-se na morte, torna-se doação «ao Pai», cumprimento da tríplice doação na fé, esperança e caridade. Abandonando-se à decisão de sua pobreza, o homem, quer saiba ou não, abandona-se a Deus mesmo. A «pobreza no espírito» torna-se o limiar do encontro com Deus, a brecha para a conquista da transcendência. Neste sentido, a pobreza é, ainda uma vez, não um comportamento ou uma virtude facultativa entre outras, mas o ingrediente secreto de todo ato transcendente, a raiz de toda «virtude teologal». Porque a nossa pobreza, à qual nós nos confiamos através da «pobreza no espírito», é como um perfil, o reflexo, aqui, deste lado do mundo, daquele esplendor da própria infinidade de Deus, na qual, por graça e misericórdia, deveremos encontrar a nós mesmos na plenitude de nossa existência. Em todas as formas desta pobreza, finalmente ligadas e convergentes como os raios de uma roda, quase no seu centro, na grande pobreza da morte, Deus dá um antegosto, uma amostra grátis de si mesmo.

Na sua inelutabilidade se apresenta categoricamente a nós a santa contade de Deus: esta não está suspensa acima de nossa contingência, arbitrariamente ou sem significado, de maneira «não obrigatória»; mas, ao contrário, cada vez incide-se nela como um «sigilo» da sua divina promessa. Assim, os aspectos singulares da pobreza de nossa existência são, outras tantas possibilidades do nosso devir humano, prometidos e impostos por Deus. A partir deles, Ele nos fala, e neles, nos apresenta o cálice de nossa missão. Tomando e bebendo deste cálice, nós fazemos que aconteça em nós, a sua santa vontade.

J.B. Metz, Povertà nello spirito, 60-62.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

16 Somente o pobre sabe amar

Lava-pés - Evangelho 1391 n. 8772 - Armenia - f. 11r
Todo autêntico impulso de amor nos torna pobres. Ele empenha todo o homem, coloca em jogo todas suas forças e todos os seus laços (cf. Mt 22, 37), e tem, como consequência, uma diminuição da segurança e proteção objetiva, situada fora do homem. Por isso, pode verdadeiramente amar somente o homem que é capaz de dar-se «gratuitamente», sem proteção e sem dúvidas, para conservar, depois, esta doação na solitária e dolorosa fidelidade de toda uma vida.

Todo autêntico encontro humano acontece no espírito de pobreza. Porque nós devemos fazer-nos «pequenos», saber esquecer-nos e ficarmos de lado, para que o outro venha a nós na sua unicidade. Devemos saber deixá-lo ser, deixá-lo livre no seu ser próprio que, frequentemente nos arranca de nós mesmos, e nos chama a uma dolorosa conversão. Somente assim prepararemos a ele, e a nós, um autêntico «advento».

Frequentemente nós oprimimos o outro; deixamos chegar até nós somente aquilo que passa pelo filtro da nossa própria existência individual, a qual estamos acostumados: em poucas palavras, somente aquilo que já está em nós. Mas, deste modo, em nós, não chega propriamente o outro, o mistério beatificante e salvador do seu ser único; somos, ao contrário, nós que recaímos sobre nós mesmos, e pagamos o preço de uma solidão dolorosamente corrosiva, poruqe não ousamos a pobreza do encontro e fizemos desta ocasião unicamente uma nova e desesperada tentaiva de autoafirmação e autoidolatria. Aquilo que resta é uma sombra de nõs mesmos, o espectro infernal daquela natureza que deveria encontrar a plenitude e esplendor do próprio ser na humilde abertura ao outro, na audácia do «perder-se» pelo seu amor.

J. B. Metz, Povertà nello spirito, 58-60.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

15 Reconhecer a própria miséria para encontrar misericórdia

Lázaro e o rico que não via os pobres, à esquerda Abraão sentado com a alma de Lázaro no colo! Essa imagem de Céu como "colo" é fascinante! Portal da igreja de Moissac, séc. XIII, França.
Não existe verdadeira vida espiritual fora do amor de Cristo.

Possuímos uma vida do Espírito somente porque somos amados por Ele. E a vida espiritual consiste no receber o dom do Espírito Santo e a sua caridade, porque Jesus dispôs, no seu amor, que vivêssemos do seu Espírito, deste mesmo Espírito que procede da Palavra e do Pai, e que é o amor de Jesus por seu Pai.

Se conhecemos o quanto é grande o amor de Jesus por nós, não teremos nunca medo de caminhar para Ele, em toda nossa pobreza, nossa fraqueza, nossa miséria e nossa enfermidade espiritual. Mas, ao contrário, quando chegamos a compreender de que gênero seja o seu amor por nós, preferimos andar para Ele em vestes de pobres miseráveis. Não nos envergonharemos nunca mais de nossa miséria. A miséria se torna a nossa vantagem, quando não buscamos outra coisa que a misericórdia.

Podemos estar contentes de nosso estrado de indigência, se estamos verdadeiramente convencidos que a potência de Deus opera na nossa enfermidade.

O sinal mais seguro de que recebemos uma compreensão espiritual do amor que Deus tem por nós é o apreciar nossa pobreza à luz da sua infinita misericórdia.

Devemos amar nossa pobreza como a ama Jesus. Ela tem tanto valor aos seus olhos, que morreu sobre a cruz, para apresentar nossa pobreza ao seu Pai, e enriquecer-nos com os tesouros da sua misericórdia infinita.

Devemos amar a pobreza dos outros como a ama Jesus. Devemos vê-los com os olhos de sua compaixão. Mas, não podemos ter uma verdadeira compaixão pelos outros, se não estamos dispostos a ser objeto de compaixão e a receber o perdão pelos nossos pecados.

Não sabemos realmente perdoar se não conhecemos que coisa seja o ser perdoados. Deveríamos, pois, estar contentes de que nossos irmãos nos possam perdoar. É o perdão, dado reciprocamente, que torna manifesto, na nossa vida, o amor que Jesus tem por nós, porque no perdoar-nos reciprocamente, nos comportamos como os outros como Jesus se comporta conosco.
Th. Merton, Pensieri nella solitudine, 29-30.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

14 A pobreza é a nossa verdade

O ponto de vista, sob o qual se apresenta o ideal de pobreza evangélica, muito frequentemente, partiu de uma visão de ascese mal compreendida, como se fosse um fim em si mesma, e por isso, pseudo-cristã. A partir de tal ótica, a pobreza aparece como um ato forçado, uma espécie de autodestruição, onde o homem se desfaz de um valor postivo para agradar a Deus.

Na realidade, nos encontramos diante da velha imagem pagã de um Deus ciumento, vingativo, que não suporta o bem-estar nem a grandeza dos homens, o Deus que exige uma espécie de automutilação espiritual em oferta à sua glória. É como uma Deus concorrente do homem, e o será sempre, enquanto o ideal da pobreza for interpretado como descida de um grau superior a um grau inferior. Porque, neste cado, a pobreza consiste, simplesmente, no diminuir nossa auto-realização para aumentar a glória de Deus. Glória dúbia, que não ajuda a aumentar as possibilidades de sobrevivência do discurso da montana!

Não, para compreender a profundidade da mensagem evangélica da pobreza, é necessário mudar, radicalmente o ponto de vista. O ideal da pobreza cristã não consiste no desfazer-nos do que somos para chegar ao que não somos ainda. Trata-se, ao contrário, de revirar a nossa situação irreal, para tornar-nos aquilo que somos de verdade. Antes de ser uma ordem, as palavras e o exemplo de Jesus são, antes de mais nada, um apelo. A pobreza não tem valor em si mesma. Para ser um ideal evangélico, é necessário que o espírito de pobreza nos aproxime, mais que outra coisa, daquilo que o homem deve ser para ser plenamente homem, para que chegue à realidade de homem.

No discurso da montanha, Jesus nos fala desta realidade. Trata-se de uma mensagem que se enraiza sobre o solo de nosso ser. Dizendo: «Sede pobres», Cristo diz, em primeiro lugar: «vós sois pobres». É esta a razão substancial do seu preceito. O que devemos fazer não é outra coisa que a consequência do que somos.

A primeira bem-aventurança coincide, além disso, com a tradição dos «pobres de JHWH», que se encontra nos salmos e nos profetas, estes pobres que não colocam a sua esperança em si mesmos, ou na sua potente posição no mundo.

Eles esperam de Deus somente a vida, a salvação, a felicidade. Por isso, a Escritura os louva, e Jesus nos é apresentado como o pobre de JHWH por excelência. Com efeito, a atitude do pobre coloca na luz a verdade do homem.

Ser pobre em espírito quer dizer, antes de tudo: ter consciência da própria pobreza efetiva. Pobres diante de Deus, isto é o que somos. Por isso, a atitude do possuidor é uma atitude falsa, e mentiroso é o espírito de riqueza. Viver como rico é não ver a realidade.

A mensagem da pobreza toca o núcleo da vida, porque nos revela a nossa situação real. E escava muito mais profundamente a aproximação psicológica ou também, ética, do desapego. Trata-se do nível ontológico de nossa existência: o homem é pobre diante de Deus. Pobre, porque recebeu e porque deve receber. A vida, o sentido último da existência, a salvação, tudo o que é dom. Nós somos radicalmente indigentes.

O nosso ser é recebido naquilo que o constitui como ser. Eis a rocha sobre a qual se ergue o evangelho da pobreza.
P. Schmidt, Credo in Dio creatore..., 50-51.

13 Jesus, pobre por excelência

Crucificado, pintura sobre madeira, séc. XIII, que conversava com Santa Catarina de Sena.
Jesus, pregado na cruz, é o pobre por excelência: pobre de coração, pela comunhão intensa com a vontade do Pai e com o destino de seus irmãos, pobre também pelo despojamento a que foi conduzido na sua incarnação na carne do pecado.

É da união destas duas pobrezas que brota a salvação e que nasce a ressurreição, que salva e enriquece, com toda a Glória de Deus, a humanidade redimida. O texto de Filipenses diz: «por isso Deus o exaltou» (Fp 2, 9). A expressão «por isso» traz em si toda a revelação cristã do mistério da pobreza salvífica. A ressurreição não é somente um episódio que vem depois daquele da cruz: um brota do outro, a ressurreição é fruto da cruz. Porque voluntariamente, na sua «pobreza de coração», o Cristo se empobreceu até esta última indigência, que é a cruz, o Pai o exalta e o faz Senhor. João usa a imagem: «se o grão de trigo não cai por terra e não morre, permanece sozinho, mas se morre, produz muito fruto» (Jo 12, 24). A espiga de trigo vem da putrefação do grão; o «senhorio» de Jesus vem da sua pobreza; a salvação do homem, ligada a este senhorio, vem da kênose[1] de Cristo; o Senhor Jesus vem de Jesus pobre; o Kyrios[2] vem do servo de JHWH[3]. Eis a extrema loucura do poder do ágape do Pai: a pobreza do pecado, assumida com «pobreza de coração» se torna salvação e riqueza do homem. A salvação se realiza inteiramente no universo da pobreza. A salvação é obra de um pobre que vive a sua pobreza, de um modo tal, a libertar, através dela, os seus irmãos das raízes de sua mais oprimente miséria. A pobreza pertence, pois, essencialmente à salvação e ao evangelho. Ela é evangélica no sentido mais forte do termo. Porque é nela e por ela, que se vive o mistério que constitui o coração da boa nova. Jesus nos salva no seu sacrifício de servo que sofre, de servo pobre; «por suas chagas fomos curados» segundo a expressão de Isaías (53, 5), que a primeira carta de Pedro retoma (1Pd 2, 24). A sua ressurreição é a revelação da extraordinária fecundidade da pobreza. O Senhor Jesus não é nenhum outro senão o pobre Jesus, exaltado porque viveu até as últimas consequências, e no amor, a sua pobreza. Desta exaltação, os homens todos devem ser os beneficiários: não somente os oprimidos e famintos, mas também os ricos, na condição que saibam descobrir, em si, a presença radical da miséria, aquela do pecado, e que queiram se libertar dela, radicando no seu coração uma disponibilidade que lhes abra a Deus e aos outros. Eis a suprema generosidade do pobre: através de seu amor, foram salvos aqueles que o maltratavam. Se, antes, nós podíamos dizer que Deus via, no rosto do pobre, a sua própria dor, agora devemos acrescentar que ele encontra no coração de Jesus pobre, o seu próprio amor e sua própria generosidade.

H.J.-M. Tillard, La salvezza mistero di povertà, 27-29.



[1] Esvaziamento voluntário de Deus, em grego.
[2] Senhor, em grego.
[3] Nome impronunciável de Deus, escrito somente com consoantes, para evitar a profanação do Nome.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

11 Conhecer o próprio pecado para conhecer Deus

Três tentações de Cristo, mosaicos do séc. XIII, São Marcos, Veneza, Itália.

«Quem conhece os próprios pecados é maior de quem, com a oração, ressuscita os mortos... quem chora uma hora sobre si mesmo é maior do que aquele que ensina e prega às multidões. Quem conhece a prórpia fraqueza é maior do que aquele que vê os anjos... quem segue Cristo na solidão e na contrição é maior do que aquele que é famoso às multidões nas igrejas». Com este paradoxo, Isaac, o Sírio afirma o caráter especificamente cristão da conversão[1]. O arrependimento cristão não deve se reduzido nem comparado a nenhuma experiência das religiões naturais. Toda tenttativa de comparação comporta, inevitavelmente, o risco de cair no ridículo ou no de precipitar-se no desequilíbrio.

A conversão é fruto do Espírito Santo e é um dos sinais menos contestáveis da sua ação na alma.

Ninguém, com efeito, pode reconhecer o próprio pecado sem ter, contemporaneamente, reconhecido Deus. Não antes, nem depois, mas no mesmo instante, em uma mesma e única intuição espiritual. De tal modo, o pecado, no momento mesmo no qual Deus o perdoa, e no qual vem, por assim dizer, recuperado e restituido na graça, torna-se, inesperadamente o lugar no qual Deus se torna ao coração do homem.

Mas, é necessário acrescentar, também, que não existe outra estrada para encontrar verdadeiramente a Deus e conhecê-lo, fora deste caminho da conversão. Fora dela, Deus não é outra coisa que uma palavra, um conceito analógico, um pressentimento, um desejo, o Deus dos filósofos e dos poetas, mas não é ainda o Deus que se revela na superabundância do seu amor.

O Senhor, de fato, veio para os pecadores, para hospedar-se e comer na casa deles, não na casa dos justos, para buscar o que estava perdido (cf. Mt 9, 13; 18, 11).

Deus se faz conhecer, perdoando. Quanto ao pecador, somente medindo o abismo do próprio pecado descobre o abismo da misericórdia. É neste exato momento que um abismo cumula e submerge o outro.

Este momento constitui a experiência evangélica absolutamente primária e fundamental, aquela dos pequenos e dos pobres em espírito, aquela dos pecadores sobretudo, prostitutas e publicanos, que precedem os outros no Reino dos céus (cf. Mt 21, 31). É neles, e naqueles que são como eles, que Deus decidiu encontrar e salvar o homem.
A. Louf, Repentir et expérience de Dieu, 28-29.




[1] Discurso 34

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

10 Perder a vida para ganhá-la

tentação de Cristo, Arcabas, Igreja Saint Hughes de Chartreuse :
«Converter-se» quer dizer: seguir Jesus, andar com Ele, no seu camino. Mas insistimos ainda sobre o fato de que seja Deus a nos converter. A conversão não é uma auto-realização do homem, e o homem não é o arquiteto de sua própria vida. A conversão consiste, essencialmente, nesta decisão: o homem deixa de ser seu criador, cessa de buscar somente a si mesmo e a sua auto-realização, mas aceita que esta dependência seja a verdadeira liberdade, e que a liberdade da autonomia emancipada do Criador não seja liberdade, mas ilusão e engano. Fundamentalmente, existem somente estas duas possibilidades de opções essenciais: a auto-realização, na qual o homem busca criar-se a si mesmo, para possuir o seu ser completamente, para ter a totalidade da vida exclusivamente por si e a partir de si; Do outro lado, a opção da fé e do amor. Esta opção é, ao mesmo tempo, a decisão pela verdade. Sendo criaturas, não o somos por nós mesmos, nem à partir de nós mesmos; somente se «perdemos» a vida podemos ganhá-la. Estas opções correspondem ao conteúdo das palavras «ter» e «ser». A auto-realização quer ter a vida, porque considra a vida como uma possessão a ser defendida contra os outros. A fé e o amor não pretendem possuir nada contra os outros. A fé e o amor não visam a possessão. São a opção pela reciprocidade do amor, pela magestade da verdade. In nuce esta alternativa corresponde à escolha fundamental entre a morte e a vida: uma civilização do ter é uma civilização da morte, de coisas mortas; somente uma cultura do amor é também uma cultura de vida: «quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas que perder a própria vida... a salvará» (Mc 8, 35).

Podemos dizer, também, que a alternativa entre auto-realização e amor corresponde à alternativa das tentações de Cristo: a alternativa entre o poder terreno e a cruz, entre uma redenção consistente no seu bem estar e uma redenção que se abre e se confia ao infinito amor divino. (...)

«Converte nos, Deus salutaris noster». A rejeição da auto-realização e o primado da graça, resumidos nesta oração, não pretendem um quietismo, mas muito mais, uma força nova e mais profunda da atividade humana. A auto-realização atropela a vida, interpretando-a como uma posse, e assim, coloca-se ao serviço da morte; a conversão é um ato da opção à reciprocidade do amor, a disponibilidade a deixar-se formar pela verdade, para tornar-se «cooperador da verdade», como diz S. João (III Jo 8). Consequentemente, a conversão é o verdadeiro realismo, que nos torna capazes para um trabalho realmente comum e humano. «Converter-se» quer dizer: não buscar o próprio sucesso, não buscar o próprio prestígio, a própria posição. «Converter-se» significa: cessar de construir a própria imagem, não trabalhar para construir um monumento a si mesmo, que termina, frequentemente, por tornar-se um falso deus. «Converter-se» quer dizer: aceitar os sofrimentos da verdade. A conversão exige que, não só geralmente, mas dia por dia, nas pequenas coisas, a verdade, a fé, o amor se tornem mais importantes que a nossa vida biológica, que o nosso bem estar, nosso sucesso, prestígio, nossa «vida tranquila». De fato, sucesso, pretígio, tranquilidade e comodidade são aqueles falsos deuses que, na maioria dos casos, impedem a verdade e o verdadeiro progresso na vida pessoal e na vida social. Aceitando esta prioridade da verdade, seguiremos o Senhor, tomaremos a nossa cruz e participaremos da cultura do amor, que é a cultura da cruz.
J. Ratzinger, Il cammino pasquale, pp. 19-20.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

09 Recomeçar (André Louf)

Não podemos jamais fazer parte daquela categoria de pessoas das quais Jesus disse «que não tem necessidade de conversão» (Lc 15,7) porque se creem justos: pois, em tal caso, não teríamos necessidade de Jesus. Talvez estaríamos ainda no caminho para Deus, mas sozinhos, no sentido mais «solitário» do termo, irremediavelmente sozinhos, continuamente em presa de nós mesmos, sob uma aparência de santidade que buscaríamos, em vão, realizar; estaríamos profundamente frustrados porque não encontraríamos nunca o amor verdadeiro. 

É uma grande ilusão achar-se convertido de uma vez para sempre. Não, não somos nunca simples pecadores, mas pecadores perdoados, pecadores-em-via-de-perdão, pecadores-em-conversão. Não existe outra santidade aqui embaixo, porque a graça não pode agir de modo diferente. Converter-se significa recomeçar sempre esta reviravolta interior, por meio da qual a nossa pobreza humana – aquela que Paulo chama a carne – se volta para a graça de Deus. Da Lei da letra se passa à Lei do Espírito e da liberdade, da ira à graça. Esta reviravolta não termina nunca, porque não faz outra coisa que recomeçar sempre. Santo Antão, o Grande, patriarca de todos os monges, dizia isto, de modo lapidar: «Cada manhã digo a mim mesmo: hoje recomeço». E o Abba Poimén, o mais famoso dos padres do deserto, depois de Antão, quando estava moribundo, estava sendo louvado por ter vivido uma vida beata e virtuosa, que o colocava em condições de apresentar-se a Deus com extrema tranquilidade, respondeu: «Devo começar, estava apenas iniciando a converter-me», e chorou.

A conversão, de fato, é sempre uma questão de tempo: o homem tem necessidade de tempo, e também Deus quer ter tempo conosco. Faríamos uma imagem completamente equivocada do homem se pensássemos que as coisas importantes, na vida de uma pessoa, pudessem realizar-se imediatamente e de uma vez por todas. O homem é feito de tal modo que tem necessidade de tempo para crescer, amadurecer e desenvolver todas as próprias capacidades. Deus o sabe, melhor que nós mesmos e, por isso, espera, não desiste, é indulgente, longânime: «A bondade de Deus te impele à conversão» (Rm 2,4). Não a cólera, mas, ao contrário, “to chrestón”, o seu afeto, a sua bondade, a sua paciência. No prólogo da sua regra, Bento faz um comentário impressionante: Deus está, cada dia, à procura do seu operário, e o tempo que nos dá é “ad inducias”, é uma prorrogação, um dom, um tempo de graça, concedido gratuitamente. É um tempo que podemos utilizar para encontrar Deus, ainda uma vez, para encontrá-lo sempre melhor, na sua estupenda misericórdia. Será somente mais tarde, depois de nossa morte, que poderemos viver fora do tempo, e para sempre. Hoje o tempo nos é concedido para conhecer sempre melhor a Deus: é sempre um tempo de conversão e de graça, dom da sua misericórdia.
A. Louf, Sotto la guida dello Spirito, 11-13.