quarta-feira, 5 de março de 2014

TQ 00 4 Converter ... em cinzas

Pecado em três momentos: Desobediência, culpando-se a si mesmos, fugindo de Deus.
Iluminura síria, séc. VI, Viena, Nationalbibliotek, ms Theol. gr 31 pictura I

Na oração, com a qual se abençoam as cinzas que serão impostas sobre a cabeça dos fiéis, no início da quaresma, elas são indicadas como «austero símbolo». Como cada símbolo, também as cinzas, com o qual a Igreja latina começa o tempo propício de conversão e de preparação para a Páscoa, tem a função de dar o quê pensar e fazer pensar: «Recorda-te que és pó...» é a fórmula mais tradicional que acompanha este gesto. 
A oração da Igreja não somente nos ajuda a ler o símbolo das cinzas, mas também a interpretá-lo na justa direção soteriológica[1] – como imagem da salvação – e certamente não como atitude de aniquilamento e esvaziamento do homem. A oração acompanha o coração do fiel para assumir o gesto da imposição das cinzas, de modo claramente orientado: «Para que, através do itinerário espiritual da quaresma, cheguem completamente renovados, a celebrar a Páscoa de vosso Filho» (oração da benção). A segunda oração opcional do Missal romano esclarece ainda melhor o horizonte interpretativo do símbolo, quando diz: «O exercício da penitência quaresma obtenha-nos o perdão dos pecados e uma vida renovada, à imagem do Senhor ressuscitado». 
As cinzas nos revivem o drama das origens (Gn 3,19) e nos rememoram a divina reação ao drama da nossa liberdade, que não pode – nem poderá jamais – fugir do olhar do «teu Pai, que vê o que é secreto» (Mt 6,8). Aquele olhar que tinha acompanhado ternamente a nossa criação e a nossa inserção no mundo – apenas criado por amor a nós e para nossa alegria – fez-se cuidadosa e trêmula pergunta, própria de um coração amante: «Onde estás?» (Gn 3,9). Como explica Pe. Lassus: «É justamente esta voz que, cada ano, ressoa na manhã da quarta-feira de cinzas, quando nos vem recordada a brevidade da vida e o inelutável Dia. 
Não nos podemos mais esconder entre os ramos, nem mimetizar-nos com as folhagens, mas torna-se necessário apresentar-se nus na presença do Vivente»[2]. Neste sentido, a palavra do apóstolo, que nos apresenta este tempo nas vestes mais belas e atraentes de «um tempo favorável» próprio como «o dia da salvação» (IICor 6,2), pode ser acolhida como um convite para reduzir em cinzas todas as máscaras com as quais buscamos conter o «medo» (Gn 3,10) herdado de nosso pai comum Adão. E ainda, acolhendo a afirmação do profeta, que nos recorda como e quanto o nosso Deus «é misericordioso e benigno, tardo na ira e rico de benevolência, e que se compadece daquele que sofre» (Gl 2,13), podemos coroar nossa cabeça com as cinzas de todas as nossas falências, de nossas pobrezas e dos nossos desejos frustrados. Tudo isto que, normalmente temos medo de assumir, pode ser transformado – em virtude e sob o olhar «secreto» (Mt 6,18) do Pai de Jesus – em cinzas que, mesmo recordando nossos mais verdadeiros jejuns existenciais, são sempre cada vez mais, cinzas perfumadas, dignas de homens e mulheres do «rosto» (6,17) sempre mais conforme à «imagem do Senhor Ressuscitado» (oração da benção das cinzas). Não nos resta senão que recebê-las alegres e decididamente no caminho para enfrentar as etapas desta «santa viagem» (Sl 83,6).

Fra Michel Davide, in Messa quotidiana, febbraio 2009, EDB Bologna.
[1] Soteriológico é um tema que está relacionado diretamente com a missão de Salvação de Jesus Cristo. Soter quer dizer salvador.
[2] Lassus, L.-A., «Costruire sa fidélité», in Assemblées du Seigneur 13 1975, 50.

Nenhum comentário: