terça-feira, 17 de agosto de 2010

Ornamentos Armênios


Compartilho este belíssimo site de ornamentos da cultura cristã armena. Em cem folhas podemos ver o que poderia ser um velho tacuíno, ou seja, o caderno de desenhos e cores que todo mestre elaborava ao longo de seu aprendizado e vida, e que lhe serviam de "fonte de inspiração" diante dos trabalhos que fazia. Este era o elemento que servia de elo para a tradição, pois esses cadernos passavam de mestre a discípulo, eram copiados e ampliados, e isto pode explicar esta linguagem comum que encontramos na arte Antiga e Medieval, ao mesmo tempo ajuda-nos a entender a fecunda criatividade com que os mesmos desenhos eram usados por pessoas diferentes. Seguramente eles não tinham a noção, tão contemporânea, dos direitos autorais, pois o artesão se manejava dentro das águas de uma Tradição comum, da qual não se sentia proprietário, mas servidor. Ele mostrava seu gênio utilizando esses elementos da forma mais perfeita, no local concreto ou na obra em que devia trabalhar, adaptando, redimensionando, combinando, e com isso, criando algo novo, do velho tesouro. Poderemos recordar, não muito tempo atrás, que nossas avós tinham cadernos de bordados ou de costura, onde se conservavam, passados de mãe para filha, os riscos que dariam forma aos trabalhos manuais, as amostras de tricô ou crochê, as receitas de bolos e pratos familiares. No link raiz do site indicado, encontramos outros endereços sobre estes ornamentos armênios, incluídos estudos dos mesmos, e sua interessantíssima origem, relacionada, segundo seu autor, às manifestações dos primeiros homens das cavernas. Mais tradicional que isto, impossível!
Este tipo de realidade nos ajuda entender o papel do artista por milênios. Ele não era alguém "sui generis" que devia criar do nada, inventar sempre algo que não tinha ainda sido pensado... mostrar sua genialidade através de sua total originalidade. Se o gênio era verdadeiro, ele o fazia, através da combinação dos velhos elementos, e deste modo, ele entrava para a tradição e suas soluções passavam a fazer parte dos tacuínos. Esses cadernos, a maioria absoluta perdida, eram fruto da decantação e purificação de milênios de história humana! Quê grande conforto para o ser humano artista! ele não estava sozinho diante de uma parede branca, não era um deus nem um maldito, mas simplesmente um servidor.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

12 A TRANSFIGURAÇÃO

Mosaico da Transfiguração, Monte Sinai.
Este “estranho espetáculo” é propositadamente relatado pelos sinóticos como o cimo do ministério de Jesus. Em direção deste cume sobem as surpresas e indagações das teofanias precedentes — “quem é este?” e “Para vós, quem sou eu?” — e é dela que parte o caminho para a última Páscoa em Jerusalém. Os milagres anunciavam as energias do Cristo ressuscitado; a transfiguração é a teofania que lhe desvenda o sentido, ou melhor, que já atualiza o que essas energias realizarão em nossa carne mortal: nossa divinização.
No centro do Evangelho, histórica e literariamente, a transfiguração assim aparece motivada pelo seu realismo misterioso: a humanidade de Jesus é o nódulo vivo onde o homem se torna Deus. O Cristo é, realmente, homem! Ora, ser homem não é ser “em seu corpo”, conforme pensam os dualismos impenitentes, mas, segundo a revelação bíblica, é “ser seu corpo” um todo orgânico e coerente. Porque o ser humano é seu corpo, ele está, à imagem de seu Deus, em relação com as outras pessoas, com o cosmo, com o tempo, com Aquele que é a comunhão em plenitude. Ora, depois que o Verbo tomou corpo, formou uma relação “humana” com o Pai e com todos os homens, segundo to-das essas dimensões: o fogo de sua luz abrasa a sarça inteira, toda a sua humanidade é “ungida”, “nele habita toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9) . . e Paulo acrescenta: “e nele fostes elevado à sua plenitude” (v. 10).
Que se passou, pois, neste acontecimento repentino? Por que “a fugidia beleza” do Incompreensível transparece por instantes no corpo do verbo? Duas certezas nos podem guiar. Em primeiro lugar a transformação, a “metamorfose” segundo a transcrição do termo grego, não concerne a Jesus. O texto evangélico e a interpretação unânime dos Padres são claros: Cristo “se transfigura, não ao assumir o que não era, mas manifestando o que era a seus próprios discípulos: abre-lhes os olhos e, de cegos que eram, os faz videntes”. A mudança deu-se do lado dos discípulos, e confirma a segunda certeza: o fito da transfiguração, de acordo com o fim de toda a economia revelada na Bíblia, é a salvação do homem. Como na sarça ardente, o Verbo “deixa ver” em seu corpo a luz de sua divindade, não para mostrá-la, mas para fazer viver, para salvar: revela-se ao dar-se e dá-se para nele nos transformar.
Entretanto, se nos é permitido aproximar do mistério, deixando de lado a curiosidade e a gnose indiscreta, por que Jesus terá escolhido, naquele momento, suas duas testemunhas e seus três apóstolos? Que experimentava, pois, em seu coração de homem, Jesus, Filho amantíssimo do Pai e apaixonado por nós? Já alguns dias antes, Pedro fora interiormente iluminado e reconhe¬cera-o como o Cristo de Deus. Jesus começara, então, a erguer o véu sobre o desfecho iminente: deveria sofrer, ser condenado à morte e ressuscitar. Entre este primeiro anúncio e o seguinte toma a iniciativa de subir á montanha. A plenitude da transfiguração aparece assim através do “não dito” dos evangelistas: tendo terminado a catequese preparatória à sua Páscoa, Jesus decide-se a caminhar para a sua realização. Em todo seu ser, por todo o seu “corpo”, está entregue à vontade amorosa do Pai, a ela adere totalmente. Doravante tudo vai traduzir o seu “sim” incondicional ao amor do Pai, até a última luta da agonia á qual os mesmos discípulos serão convidados.
Precisamos, sem dúvida, entrar no mistério dessa adesão de amor para compreender que a transfiguração não é o desvendar impassível da luz do Verbo aos olhos dos apóstolos, mas o momento intenso em que Jesus se torna um só, através de todo seu ser, com a compaixão do Pai. Nesses dias decisivos, ele é mais do que nunca transparente à luz de amor daquele que o entrega aos homens para a sua salvação. Então, se Jesus se transfigura, é porque o Pai faz explodir a sua alegria. A irradiação de sua luz no seu corpo de compaixão é como o vibrar do Pai que responde ao dom total de seu Unigênito. Assim se explica a voz que atravessa as nuvens: “Esse é o meu Filho muito amado! nele encontro a minha complacência! . . . ouvi-o!”
Compreende-se, com efeito, o espanto de Moisés e de Elias: eles que vislumbraram a proximidade da glória divina, impaciente por salvar os homens, eis que a contemplam no corpo do Filho do homem. “Eu vi, eu vi a aflição de meu povo . . . ouvi os seus clamores . . . resolvi livrá-los . . .“ (Ex 3,7); “ouvi-me, Senhor, ouvi-me . . . estou devorado de zelo pelo Senhor Iahweh, porque os filhos de Israel te abandonaram (lRs 18,37; 19,10): já não são palavras divinas nem palavras de homens, mas o próprio Verbo em sua humanidade; não mais uma promessa e uma expectativa, mas o evento, a “realidade: é o corpo de Cristo!” (Cl 2,17). Moisés e Elias podem sair da gruta do Sinai sem cobrir o rosto: contemplam a fonte da luz no corpo do Verbo.
Quanto aos três discípulos, ficam inundados, durante alguns segundos, por tudo que lhes será dado receber, compreender e viver a partir de Pentecostes: a luz divinizante que emana do corpo de Cristo, as energias multiformes do Espirito que dá a vida. Naquele momento, o que os derruba é perceber que “Este” é não somente “Deus com os homens”, mas Deus-homem: nada pode ir de Deus ao homem e do homem a Deus senão pelo seu corpo. E a outra certeza será por Pedro testemunhada em suas cartas e por João, em seus escritos: a participação nesta vida do Pai que se irradia do corpo de Cristo é proporcional à fé do homem. Nessa luz de fé que iluminou seus olhos de carne consiste a novidade da transfiguração. Graças a ela, aproximando-se do corpo de Jesus, “apalpam a Palavra da vida” (lJo 1,1).
Doravante não há mais distância entre a matéria e a divindade: no corpo de Cristo nossa carne está em comunhão com o Príncipe da vida, sem embaraço nem separação. Do que o Verbo inaugurou em sua encarnação e manifestou desde o seu batis¬mo através de seus milagres, sua transfiguração faz entrever a plenitude: o corpo do Senhor Jesus é o sacramento que dá a vida de Deus aos homens. Quando nossa humanidade consentir em unir-se á humanidade de Jesus, participará, então, da natureza divina (2Pd 1,4), será divinizada. Se todo o sentido da economia da salvação consiste nisso, compreendemos que a Liturgia é, afinal, a sua realização. A divinização do homem será participação no corpo de Cristo.
CORBON, J., Liturgia de fonte, 66-69.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O teu nome é Luto, aleluia!


Os Atos dos Apóstolos falam do «luto», ou melhor «do grande luto» (At 8,2) que a comunidade cristã faz pelo diácono e mártir Estêvão e – lendo o discurso sobre o pão – poderíamos dizer que o Senhor Jesus faz o seu «luto» – talvez ainda maior – sobre a nossa incredulidade. A psicologia moderna e pós moderna fala frequentemente da necessidade do «luto» nas várias fases e nos momentos significativos da vida: é necessário metabolizar as mortes, as perdas, os fracassos que atravessam nossa vida, para que não sejam simplesmente tumbas que se fecham sobre nós, paralisando a vida, mas ocasiões de crescimento. De fato, o martírio de Estêvão e a sua piedosa sepultura são vividos pela comunidade cristã como um momento de tristeza, mas também como ocasião para continuar decisivamente o próprio caminho de anúncio do evangelho, tanto que, no final, encontramos o exato contrário daquilo que poderíamos esperar: «E houve uma grande alegria naquela cidade» (At 8,8).
Assim também o Senhor Jesus não tem nenhum temor em chamar a atenção e quase denunciar nossa incredulidade e nossa dureza de coração diante do anúncio do evangelho, e isto, ao invés de nos dobrar sobre nós mesmos, permite-nos nutrir-nos e metabolizarmos – para que dê vida – o «pão» (Jo 6,35) que Ele é para nós. Não se pode esquecer que nenhum tipo de alimento seria capaz de nutrir, se não passasse através do processo de assimilação que exige uma transformação, que acontece sempre através de uma morte e, depois, um «luto». A experiência da primeira comunidade cristã, acompanhada e iluminada pela Palavra do Senhor Jesus, obriga-nos, por um lado, a dar-nos contas das realidades de morte que necessariamente assinalam nossa vida, e por outro, a não pararmos: «Aqueles, porém, que se tinham dispersado, andaram de lugar em lugar, anunciando a Palavra» (At 8,4).
O Senhor Jesus o afirma com força: «Eu o ressuscitarei no último dia» (Jo 6,40), mas – como aconteceu para o Senhor Jesus e o seu discípulos Estêvão, que se fez o primeiro da fila de uma inumerável legião de homens e mulheres que souberam pagar com a vida o penhor da esperança que lhes fazia viver – nenhuma ressurreição é pensável se não passa através do tempo de «luto» como capacidade de englobar a morte, com serena força, no interno das próprias leis da vida. A lamentação do Senhor, que soa nestes termos: «Eu vos disse que, mesmo me tendo visto, ainda assim, não credes» (6,36) coloca o dedo na ferida da nossa incredulidade de fundo, que nasce de uma ignorância misturada com desconfiança naquele que é o mistério e o segredo da vida verdadeira. Somos bombardeados continuamente com propostas e ofertas que buscam iludir-nos com o fato de que possamos receber e ter muito – muitíssimo mesmo – a custo zero, enquanto o Senhor nos recorda que, nas coisas verdadeiras existe sempre um custo... exatamente como aquele que pagou Estêvão, cujo sangue se torna semente e não tumba.
Fra MichelDavide Semeraro OSB, Messa quotidiana – aprile, Bologna 2010, 268-270.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O teu nome é "Se", aleluia!


O modo como o rabino Nicodemos se dirige ao Senhor Jesus é emblemático: «Rabi, sabemos que vieste de Deus como mestre; ninguém, de fato, pode realizar estes sinais que tu realizas, se Deus não está com ele» (Jo 3,2). Nestas palavras podemos ler uma grande admiração da parte de um membro com autoridade do sinédrio em confronto com este rabino itinerante proveniente da Galiléia. Mas podemos também adivinhar como, para Nicodemos, o critério de discernimento para avaliar uma pessoa esteja ligado aos «sinais» que ele realiza muito mais que – partindo dos sinais externos – buscar compreender o sinal que ele é como pessoa. A isto o Senhor Jesus reage prontamente e, em certo aspecto, brutalmente: «Em verdade, em verdade eu ti digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus» (3,3). Poderíamos comentar esta resposta do Senhor Jesus a Nicodemos, retomando o texto do salmo responsorial que a liturgia nos oferece: «Ri-se deles o que mora lá nos Céus, zomba deles o Senhor onipotente» (Sl 2,4). É claro que o Senhor Deus não ri de nós, mas como uma mãe que assiste os primeiros passos de seu próprio filho, sustentando-o nas suas inumeráveis quedas, vê e considera como nos custa tanto olhar a realidade desde dentro e não somente do exterior, como também a avaliar e incrementar a nossa mesma vida desde o profundo de nosso coração, e não da exterioridade dos gestos e palavras, tantas vezes maiores que nós, ao ponto de não expressar nada daquilo que verdadeiramente desejamos e do que realmente somos. Como explica Teodoro de Mopsuéstia, falando do batismo: «Quando se trata da geração natural, o seio da mãe é o lugar no qual se forma a criança, mas este se desenvolve até o termino pela potência de Deus que, desde a origem, o criou. Assim também, no evangelho, a água ocupa o lugar da mãe, mas é o Espírito a ser o Criador»[1].

Lá onde Nicodemos busca colocar-se, diante de Jesus, em uma situação de paridade e, até mesmo, com uma pitada de superioridade - «nós sabemos» (Jo 3,2) – o Senhor o chama a si mesmo e ao seu caminho pessoal de crescimento interior, que não se faz «em grupo», mas só e exclusivamente, assumindo o peso da própria solidão e da própria responsabilidade pessoal. Atingir a própria interioridade é o grande convite que o Senhor ressuscitado faz a cada um de nós, para poder, por nosso lado, viver a mesma experiência dos apóstolos e da Igreja nascente: uma abertura à profundidade de si mesmos permite-lhes serem fiéis a si mesmos e a não temer nenhuma ameaça externa. Quando somos capazes de viver à altura de nossa interioridade, então é claro que o Espírito não somente vive dentro de nós, mas nos regenera tão profundamente que a sua ação potente se torna perceptível: «Quando terminaram a oração, o lugar no qual estavam reunidos tremeu, e todos ficaram plenos do Espírito Santo, e proclamavam a Palavra de Deus com franqueza» (At 4,31).

Fra MichelDavide Semeraro OSB, Messa quotidiana – aprile, Bologna 2010, 192-194.


[1] Teodoro di Mopsuestia, Commento su Giovanni II,2.

sábado, 10 de abril de 2010

O teu nome é Ignorância, aleluia!

Como explica um texto admirável de Michel de Certeau , tudo isto acontecia «no mesmo dia» (Lc 24,1). Trata-se do primeiro dia da semana: dia primeiro e último, dia no qual os discípulos parecem resignarem-se ao «fato» da morte de seu Mestre e que, ao invés, é o dia de sua ressurreição, capaz de recolocar em caminho a vida e a história desde um ponto completamente novo e inesperado. Tudo isto torna-se possível porque «Jesus, em pessoa, aproximou-se deles, e caminhava com eles» (24,15), fingindo uma ignorância que provocaria, nos discípulos, a possibilidade de um conhecimento total e completamente novo. Gregório Magno, enquanto comenta este texto, exprime-se assim: «A Verdade, que é simples, não fez nada com duplicidade; ela simplesmente manifestou-se aos discípulos no seu corpo assim como era no espírito deles. A Verdade caminhava com eles; não podiam, pois, permanecer estranhos ao amor e, por isso, ofereceram-lhe a hospitalidade, como se faz com um viajante» . Às mulheres que vão ao sepulcro e lá encontram o Mestre ressuscitado e desejoso de indicar-lhes caminhos novos de vida e de alegria, sucedem, hoje – naquela que poderíamos definir como galeria das testemunhas da Oitava de Páscoa – estes dois discípulos, que – um pouco como o profeta Jonas – vão na direção oposta àquela da Cruz, quase para subtraírem-se, em uma mistura de medo daquilo que lhes poderia acontecer e de uma nostalgia sutil daquilo que poderia, ao contrário, ter sido: «Nós esperávamos que ele fosse aquele que teria libertado Israel» (24,21). É tal a angústia que ferroa o coração dos dois discípulos, que eles tem necessidade de falar com alguém daquilo que lhe sufoca o coração: tomaram a decisão – estão indo longe de Jerusalém – mas a palavra – tão evidentemente absurda – das «mulheres» (24,22) deixou-os «desconcertados» e continua trabalhando-os interiormente, como um cupim. Se é típico das mulheres manifestar e afirmar os próprios sentimentos mais profundos, é próprio dos homens exorcizá-los com os raciocínios. O Senhor Jesus revela-se a partir do modo que cada um tem para enfrentar as grandes passagens da vida, por isso faz-se encontro diante das mulheres, em um face a face exaltante, e diante destes dois homens, caminhando próximo com eles, e subtraindo-se à sua vista, quase para não humilhar as conclusões a que chegaram, com seus raciocínios, repletos de evidências. Não é diferente a situação da qual nos fala hoje os Atos, e que acontece «junto à porta do templo, chamada Bela» onde «com frequência» era colocado um paralítico. Quem esperaria uma cura quando está acostumado receber «esmolas» (At 3,2)? O mistério pascal de Cristo Senhor nos convida a tomar consciência da nossa profunda ignorância sobre aquelas que são as possibilidades da vida, dentro e ao nosso redor. Saberemos, como Pedro e João, ser dispensadores de esperanças sempre maiores, que se exprimem em uma só palavra: «Caminha!»?
Fra MichelDavide Semeraro OSB, Messa quotidiana – aprile, Bologna 2010, 145-147.

O teu nome é Enquanto, aleluia!




Uma outra vez, uma mulher nos abre o caminho para nossa compreensão e imersão no mistério pascal de Cristo Senhor, e é a mesma e diversa Maria de Magdala que, no Evangelho segundo João, assume um papel particular e está como que ao lado e de frente com o discípulo amado, como tipo do que todo discípulo é chamado a se tornar e viver. O contexto da ressurreição não é aquele do « terremoto» (Mt 28,2), assim como o encontramos no Evangelho de Mateus, mas aquele do íntimo tormento de um coração transbordando de amor que não consegue mais encontrar os sinais do amor. Antes de tudo, Maria está só e não em companhia da «outra Maria» (28,1). João prefere apresentar-nos a chegada dos apóstolos em dois ao sepulcro, depois das palavras que Maria pronuncia no cenáculo trancado, enquanto deixa que a mulher chegue sozinha e sozinha se encontre – antes e depois – no jardim que hospeda a tumba do Senhor, e onde poderá reconhecê-lo como ressuscitado somente depois de ter aceitado ser chamada pelo nome e levada para alem das doces margens da morte, nas quais esta mulher – como frequentemente cada um de nós arrisca fazer – deixou-se levar em um tipo de dor de auto complacência. Deste modo é colocado no seu relato, o quarto evangelista: «Maria estava no externo, próximo ao sepulcro, e viu dois anjos em vestes brancas, sentados um à cabeceira e outro aos pés, onde tinha sido colocado o corpo de Jesus» (Jo 20,11).

Maria vê através do véu das lágrima e por isso pensa não ver senão a própria dor, que se fez «vazio» pela morte do Senhor Jesus. Mas à sua visão vem em socorro a palavra ouvida em forma de pergunta, primeiro através dos anjos e depois pela mesma voz do Senhor Jesus, que lhe propõe, primeiramente, uma pergunta e depois a chama pelo nome. A tumba se torna, desta maneira, o símbolo do coração do discípulo: nela é preciso encontrar o Senhor, mas de um modo completamente novo e bem diferente de todas aquelas que são nossas expectativas que, não raramente, tornam-se ilusões espirituais. O duplo dirigir-se e re-dirigir-se de Maria nos revela qual caminho de conversão interior é necessário fazer para que os lugares da morte se transformem em um jardim, no qual se respirem os perfumes da primavera. Com Maria, primeiro, e depois com Simão Pedro, somos chamados a aprender a arte de deixarmo-nos questionar por aquilo que atravessa a nossa vida e a leva além de tudo aquilo que ela já nos tinha oferecido. Neste contexto, a palavra que Simão Pedro dirige à multidão reunida diante do cenáculo, na manhã de Pentecostes, assume uma nota particular: «Convertei-vos e cada um de vós se faça batizar em nome de Jesus Cristo, para o perdão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo» (At 2,38). Não se trata de «fazer» (2,37), mas de aceitar viver o «enquanto» da nossa vida, como ela é, fazendo dela um lugar de contínua ressurreição, através de uma renovada e sempre mais plena relação com o Senhor Jesus, que não aceita ser prisioneiro de nenhuma tumba, e nos chama a segui-lo nos caminhos da vida, até bastante longe de nossas dores, muitas vezes tão amadas, porque nos dão seguranças. Não é Jesus o que está morto, mas é Maria a estar engalfinhada com a morte, e por isso o convite é lapidar: «Vai!» (Jo 20,17) exatamente lá onde nos encantaria escutar dizer: «Vem!».

Fra MichelDavide Semeraro OSB, Messa quotidiana – aprile, Bologna 2010, 136-138.