sábado, 29 de março de 2014

Etty Hillesum: reencontrar a vida no turbilhão do Holocausto

Justamente, Alessandro Barban (prior dos beneditinos camaldulenses) e Antonio Carlo Dall'Acqua começam o seu livro sobre Etty Hillesum, intitulado Osare Dio (Cittadella Editrice, 284 páginas), com uma fotografia tirada em 1931. É o retrato de uma família judaica composta por pai, mãe e três filhos, que vive na Holanda, mas poderia ser a de centenas de milhares de outras famílias judaicas de classe média de toda a Europa.
A análise é do escritor e crítico literário italiano Giorgio Montefoschi, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 18-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Sabemos que o pai, Louis Hillesum, é um professor de latim e grego, tímido, interessado principalmente nos seus estudos; que a mãe Riva (Rebeca) é de origem russa, emigrou para a Holanda depois de um pogrom e tem um caráter difícil, marcada pela loucura; que os dois meninos, Jaap, de 15 anos, e Mischa, de 11 (se tornarão: um médico, e o outro, um refinado pianista), têm grandes problemas psíquicos; e que Etty, a menina morena de 17 anos, que, com olhos intensos, tem uma péssima relação com os pais e está passando pela "idade ingrata" em que lutamos com nós mesmos.
Tudo isso, porém, tem uma importância relativa. O que conta, no retrato fotográfico em que os Hillesum exibem com confiança o seu decoro burguês, é a sua "normalidade": a homogeneidade de milhões – desta vez – de famílias europeias não judaicas, mais ou menos bem de vida, mais ou menos felizes. Passar-se-iam 12 anos, e os Hillesum, sem saber naquele momento, juntamente com outros seis milhões de judeus ignaros e inocentes, seriam varridos da face da terra.
O percurso espiritual de Etty Hillesum, considerada por muitos como uma das almas mais elevadas do século XX, não pode ignorar a tragédia do povo judeu. Provavelmente ela não teria ocorrido dessa forma, ou até mesmo teria permanecido sem expressão – um "fácil idílio" com Deus, cultivado atrás de uma escrivaninha, em uma cômoda sala com muitos livros e sempre belas flores, e do lado de fora os quietos canais de Amsterdã – se a sua vida não houvesse sido "jogada na dor".
Conhecemo-lo através de um exíguo número de Lettere [Cartas] (publicadas pela editora Adelphi), escritas principalmente do campo de repartição de Westerbork, ao longo de um ano (de 14 agosto de 1942 a 7 de setembro de 1943: data da partida de Etty e dos seus para Auschwitz), e por um interminável Diário de mais de 800 páginas compactas (publicado também integralmente pela Adelphi), que vai do dia 8 de março de 1941 a 12 de outubro de 1942: 17 meses, um tempo muito breve (como observado por Barban e por Dall'Acqua), no qual a lagarta se torna borboleta e se cumpre uma transformação incrível.
O dia 8 de março de 1941 marca um momento fundamental na existência de Etty Hillesum: o encontro com Julius Spier. Spier, judeu alemão de 54 anos, que se refugiou na Holanda depois de ter deixado sua esposa e dois filhos, noivo de uma jovem garota, Hertha (que emigrou para a Inglaterra em 1938), é uma psicoquirólogo (um psicanalista que parte, para a sua análise, do estudo da mão), seguido na sua formação e apreciado por Jung. Não é um homem bonito: é robusto, corpulento, mas tem uma boca extremamente sensual e dois olhos que "transpassam o tempo". Até aquele momento, antes de conhecê-lo, Etty viveu desordenadamente: se formou sem entusiasmo em jurisprudência; teve experiências sexuais e sentimentais que a deixaram insatisfeita (atualmente ela tinha um relacionamento fixo com Han Wegerif, um senhor de nada menos do que 62 anos); desperdiçou os seus talentos. Agora, em determinados momentos, ela sente que as suas ideias são "muito vagas, pendem como vestidos muito largos" do seu corpo; em outros, gostaria de "desaparecer, se dissolver, fundir-se harmoniosamente com a terra e o céu"; sofre pelo caos que reina em si mesma; busca um homem para possuir por toda a vida e, ao mesmo tempo, sabe que essa posse absoluta não é a posse do Absoluto; invoca a Deus, que ela intui que está dentro de si mesma, mas tem a impressão de que é uma fonte coberta por pedras e areia. Spier, que em Amsterdã tem um certo sucesso, é o homem do destino. Os seus métodos terapêuticos, na verdade, são (como destacam Barban e Dall'Acqua) bastante estranhos e, no mínimo, discutíveis. Baseiam-se (além da leitura da mão) na convicção de que corpo e alma estão estreitamente ligados e devem viver em harmonia. Para que os seus pacientes possam alcançar essa harmonia, libertando-se das regressões e dos medos que os bloqueiam, Spier faz uma luta com eles. Uma luta propriamente dita: física, até mesmo violenta. É realmente um método estranho e, se quisermos, no limite da deontologia médica: porque, quando a paciente é uma mulher, é inevitável ou quase que da luta, do contato convulsivo dos corpos, se passe para outros gestos, talvez para carícias relutantes. É exatamente o que acontece com Etty, que muito logo se sente atraída Spier ("A sua boca, de repente, era tão selvagem e demoníaca, e floresceu com sensualidade (...) A carne, eu só queria a carne") e se apaixona. Mas Julius – que é um homem culto, religioso, sensível e honesto no seu desejo para fazer com que emerja em cada indivíduo a parte mais profunda e verdadeira do seu ser – também se apaixona por Etty. Assim, entre os dois, se cria uma situação extremamente complexa e contraditória, feita de pulsões eróticas e inibições, explosões sentimentais e sentimentos de culpa (Spier não quer deixar a sua namorada, Etty continua fazendo amor com Han, até engravida e aborta), na qual, em essência, esse homem e essa jovem mulher que poderia ser sua filha põem a si mesmos como um obstáculo (talvez necessário) para conseguir um amor diferente, ao qual, no entanto, tendem cegamente como a algo misterioso, ainda obscuro, indefinido. Enquanto isso, a situação dos judeus piora. Em junho de 1942, são promulgadas também na Holanda as leis de Nuremberg: começam as perseguições, as deportações. Os judeus devem ser aniquilados, desaparecer. E eis que Deus chama. Desce no coração de Etty: onde já habita. Um dia, de repente, Etty se encontra (não decidiu fazê-lo) ajoelhada no meio da sala. Um dia, lê o trecho da Carta de Paulo aos Coríntios sobre a caridade e sente que essas palavras são "como varas" na dureza do seu coração. Novamente cai de joelhos. As ameaças e o terror crescem, as barbáries se acumulam. E, lentamente, as pedras e a areia se erguem do coração de Etty, e aquela fonte escondida brota com um poder inaudito. É o amor de Deus: que Etty reconhece em todo ser humano, começando pelos seus carnífices, e na vida. Uma vida que, mesmo nesse abismo de desespero, não consegue deixar de considerar como plena de significado e maravilhosamente bela. Uma noite, está no seu leito e, através da janela, olha para o céu e as árvores. E escreve: "A guerra, os campos de concentração (...) tudo isso existe, eu sei, mas, em um momento de abandono, eu me encontro no peito nu da vida, e os seus braços me circundam tão doces e protetores, e as batidas do seu coração eu ainda não sei descrever: tão lento e regular e tão doce, quase abafado, nunca tão fiel, como se nunca tivesse que parar, e também tão bom e misericordioso". Em outra página, ela escreve: "Acho a vida bela e me sinto livre. Os céus se estendem dentro de mim, assim como acima de mim. Acredito em Deus e nos homens, e ouso dizer isso sem falso pudor". Mais adiante, ela escreve ainda: "Uma coisa é certa: deve-se contribuir para aumentar a reserva de amor sobre esta terra. Cada migalha de ódio que se acrescenta ao ódio exorbitante que já existe torna este mundo inóspito e inabitável". Agora, os eventos progridem. Etty poderia se esconder, fugir. Não o faz. Primeiro como empregada do Conselho Judaico, depois como prisioneira destinada ao extermínio, entra no campo de Westerbork. O que ela vê com os seus olhos, o que ouve com os seus ouvidos, é o horror: fome, miséria física e mental, degradação, humilhação de todos os tipos, crianças arrancadas dos berços, esposas separadas dos maridos para sempre. E, todas as segundas-feiras, a chegada daquele trem composto por carros de gado que é preciso encher com seres inocentes e que na terça-feira parte para a morte. Etty não se isenta de nada. Spier morreu de câncer, e o seu amor já é todo pelos outros: pelo seu próximo, sustentado por aquela fonte que continua jorrando no seu coração. Mas Deus está no coração de todos.
"Uma coisa, porém, torna-se cada vez mais evidente em mim", escreve Etty um dia, já diante da inevitabilidade do seu destino, "isto é, que Tu não podes nos ajudar, mas que somos nós que devemos Te ajudar, e desse modo ajudamos a nós mesmos. A única coisa que podemos salvar nestes tempos, e também a única que realmente importa, é um pequeno pedaço de Ti em nós mesmos, meu Deus. E talvez também possamos contribuir para desenterrar-Te dos corações de outros homens. Cabe a nós Te ajudar, defender até o fim a Tua casa em nós".
Estamos no auge do caminho espiritual dessa jovem judaica que lia os Salmos e os Evangelhos: ajudar Deus. Uma ideia maluca e revolucionária, como apontam Barban e Dall'Acqua, que subverte a relação do ser humano com o seu Criador.

Etty Hillesum morreu em Auschwitz em novembro de 1943. Do trem, ela conseguiu jogar um cartão postal endereçado à sua amiga Christine van Nooten. Estava escrito: "Deixamos o campo cantando".
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/517842-etty-hillesum-reencontrar-a-vida-no-turbilhao-do-holocausto

Etty e o poço

«Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo. Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Essas procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondem nas mãos, penso que elas procuram Deus dentro de si.»


Etty Hillesum, Diário, 26 de Agosto de 1941, terça-feira à tarde, 112.

terça-feira, 11 de março de 2014

TQ 01 3 Converter ... em efeito

Homem orante com a filha - estela funerária pagã - Kom Abu Bihu séc. III-IV, Egito.
Depois de termos sido como que iniciados, de modo adequado, nas «atividades» quaresmais do jejum e da esmola, eis que hoje o Senhor se faz, para nós, um mestre de oração. Antes de colocar no nosso coração e sobre nossos lábios algumas expressões capazes de traduzir a necessidade da nossa vida e o desejo de nosso coração, o Senhor Jesus nos indica, indiretamente, como a atmosfera mais apta à oração é a moderação e uma espécie de quietude de fundo: «Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras» (Mt 6,7). Os versículos que a liturgia nos oferecem hoje são justo aqueles que são omitidos – quase colocados de lado, para poder dá-los mais adiante – na perícope que lemos na Quarta-feira de Cinzas. Podemos, deste modo, acolher este evangelho da oração, depois de ter meditado, no primeiro domingo da quaresma, o anti-evangelho das pretensões diabólicas que tendem a confundir, em nós, a imagem autêntica do Pai, de que Jesus se mostra filho através da escuta, e não por consequência de privilégio. Quando o Senhor nos diz para não desperdiçar palavras, não quer calar-nos, mesmo porque, imediatamente depois, doa-nos algumas palavras que «nós ousamos dizer» ao Pai, com toda a nossa confiança filial. Muito mais, o Senhor Jesus deseja que a nossa oração tenha, como origem e como meta, a consciência, que ela não força, mas muito mais, coloca-nos nas condições para que o Pai possa agir. De fato, «sabe do que precisais, muito antes que vós o peçais» (6,8). Ter consciência do fato de não poder contar nada a Deus que Ele já não saiba, já é um modo para ir contar-lhe tudo, pela alegria de sentí-lo pai e de sentir-nos filhos. Exatamente como faz uma criança que tem necessidade de contar as mesmas coisas e um pai que conta, cada noite, a mesma fábula, com uma recíproca cumplicidade, na qual se faz de conta que não se sabe como termina, só pelo desejo de prolongar o tempo que se passa junto. Neste sentido, então, a oração segue a mesma lei da palavra de Deus, assim como narra o profeta Isaías: «Como a chuva e a neve descem do céu e não retornam [...] sem efeito» (Is 55,10-11). Quando a oração nos coloca em relação a Deus, recordando-nos docemente quanto ele ame estar em relação conosco e com as nossas necessidades, então atingimos plenamente o seu efeito. Quando entramos neste dinamismo, então a oração se faz, não uma fuga da vida, mas uma escola de vida, porque nos permite curar nossas relações intra-humanas, com algo a mais de compreensão e de acolhimento. Também eu, muitas vezes, não conheço, até o fundo, a necessidade de meu irmão e, do mesmo modo, também ele pode cair na terrível culpa de não compreender as minhas verdadeiras necessidades: então abre-se o espaço do perdão recíproco como respiro inevitável da vida. Agostinho pergunta-se e pergunta-nos, justamente comentando a última petição da oração do Senhor, colocando na boca do Pai, a quem nos dirigimos este pedido: «Quais tuas ofensas? Todas ou somente algumas?» e acrescenta: «Tu responderás “Todas!”», e conclui: «Assim, pois, deverás perdoar todas ao que te ofendeu»[1].
MichelDavide Semeraro

Homem orante de Pedret, séc. IX, o homem que ora é circundado pela "energia divina" e é conduzido pelo Espírito.




[1] Agostinho, Sermões 83.

domingo, 9 de março de 2014

TQ 01 1 Converter… a suspeita


Pecado da desconfiança, mosaico Basílica de San Marco, Veneza, séc. XII.
A liturgia da Palavra de hoje nos introduz neste tempo quaresmal, ajudando-nos, antes mesmo de fazer um programa de penitência e conversão, a dar-nos conta daquela que é a estrutura fundamental do mal, o seu modo de funcionar. Neste trabalho de compreensão profunda, somos ajudados pelo apóstolo Paulo, o qual, refletindo sobre o mistério do mal, não consegue pensá-lo senão como uma forma de contagio: «Por causa de um só, todos morreram» (Rm 5,15). A pergunta pode surgir espontânea nos nosso coração: «Porque por causa de um todos devem morrer?», e a pergunta se torna ainda mais dramática se, entre estes «todos», muitos são inocentes...! Mas, eis que, justamente enquanto nos estamos fazendo semelhante pergunta, acabamos de cair na armadilha da «serpente» (Gn 3,1), deixando-nos enrolar estreito pelas voltas daquela astúcia que nos torna estultos e deixamo-nos atravessar por aquela suspeita que nos torna escravos do medo.
De fato, a serpente introduz, no mundo e na história, o seu maior motor, que é a pergunta, a capacidade de perguntar e perguntar-se. Poderíamos dizer que é mérito da serpente ter introduzido, na Escritura, pela primeira vez, o ponto de interrogação: e isto é uma graça! Mas, existem dois modos de questionar-se e questionar. Um deles é fundado na suspeita: «... ao contrário, Deus sabe que no dia em que vós comerdes do fruto, vossos olhos se abrirão e sereis com Deus, conhecendo o bem e o mal» (3,5). O outro modo, ao invés, é fundado na confiança, semelhante àquela com a qual a criança pergunta ao próprio pai ou à própria mãe, para orientar-se, gradualmente, no mundo e na vida, com a profunda certeza de que, mesmo as proibições estão a serviço de seu crescimento gradual. O mal e o pecado não são outra coisa que o fruto da suspeita contra Deus e de tudo o que Ele criou, incluídos nós mesmos. O deserto, no qual Jesus «foi conduzido pelo Espírito» (Mt 4,1) é o lugar, o estado, no qual, cada um de nós, não podendo contagiar ninguém, projetando o próprio mal sobre o outro – porque estamos sozinhos – somos chamados a curar do vírus da suspeita, respondendo ao veneno do diabo com o antídoto da memória da Palavra, na qual Deus se revela como Pai cheio de misericórdia e ternura.

Entremos pois, neste tempo sagrado, retomemos o combate espiritual que acompanha toda a vida, armando-nos de confiança, porque «muito mais a graça de Deus, e o dom concedido na graça de um só homem, Jesus Cristo, foi derramada em abundância sobre todos» (Rm 5,15). Deixemo-nos tocar pela confiança e, possivelmente, busquemos contagiar, com a confiança, o mundo no qual somos chamados a mover-nos e vivermos, sem nunca desejar ser mais daquilo que nós somos, sem querer ultrapassar os limites que a natureza e a história nos estipularam, talvez para evitar que façamos muito mal a nós mesmos e aos outros: orientemos todo o nosso desejo a nãos querer ser«como Deus, conhecendo», mas ser «como Deus» conhecendo-nos e amando-nos por aquilo que somos. O caminho da conversão é justamente passar da ilusão que abre toda e cada tentação - «Se tu és...» (Mt 4,3) – à consciência de ser «por graça aquilo» (1Cor 15,10) somos, buscando ser o melhor que pudermos, cada um a sua maneira, um «filho de Deus» como o Senhor Jesus, que confia no Pai, mesmo quando este o abandona a si mesmo. Evitemos o contagio do mal, honrando o nosso limite, não querendo «conhecer» mas compreender, e transformando, deste modo, a suspeita em confiança.

Semeraro, M., La messa quotidiana, marzo, Bologna 2011, 124-126.

quarta-feira, 5 de março de 2014

TQ 00 4 Converter ... em cinzas

Pecado em três momentos: Desobediência, culpando-se a si mesmos, fugindo de Deus.
Iluminura síria, séc. VI, Viena, Nationalbibliotek, ms Theol. gr 31 pictura I

Na oração, com a qual se abençoam as cinzas que serão impostas sobre a cabeça dos fiéis, no início da quaresma, elas são indicadas como «austero símbolo». Como cada símbolo, também as cinzas, com o qual a Igreja latina começa o tempo propício de conversão e de preparação para a Páscoa, tem a função de dar o quê pensar e fazer pensar: «Recorda-te que és pó...» é a fórmula mais tradicional que acompanha este gesto. 
A oração da Igreja não somente nos ajuda a ler o símbolo das cinzas, mas também a interpretá-lo na justa direção soteriológica[1] – como imagem da salvação – e certamente não como atitude de aniquilamento e esvaziamento do homem. A oração acompanha o coração do fiel para assumir o gesto da imposição das cinzas, de modo claramente orientado: «Para que, através do itinerário espiritual da quaresma, cheguem completamente renovados, a celebrar a Páscoa de vosso Filho» (oração da benção). A segunda oração opcional do Missal romano esclarece ainda melhor o horizonte interpretativo do símbolo, quando diz: «O exercício da penitência quaresma obtenha-nos o perdão dos pecados e uma vida renovada, à imagem do Senhor ressuscitado». 
As cinzas nos revivem o drama das origens (Gn 3,19) e nos rememoram a divina reação ao drama da nossa liberdade, que não pode – nem poderá jamais – fugir do olhar do «teu Pai, que vê o que é secreto» (Mt 6,8). Aquele olhar que tinha acompanhado ternamente a nossa criação e a nossa inserção no mundo – apenas criado por amor a nós e para nossa alegria – fez-se cuidadosa e trêmula pergunta, própria de um coração amante: «Onde estás?» (Gn 3,9). Como explica Pe. Lassus: «É justamente esta voz que, cada ano, ressoa na manhã da quarta-feira de cinzas, quando nos vem recordada a brevidade da vida e o inelutável Dia. 
Não nos podemos mais esconder entre os ramos, nem mimetizar-nos com as folhagens, mas torna-se necessário apresentar-se nus na presença do Vivente»[2]. Neste sentido, a palavra do apóstolo, que nos apresenta este tempo nas vestes mais belas e atraentes de «um tempo favorável» próprio como «o dia da salvação» (IICor 6,2), pode ser acolhida como um convite para reduzir em cinzas todas as máscaras com as quais buscamos conter o «medo» (Gn 3,10) herdado de nosso pai comum Adão. E ainda, acolhendo a afirmação do profeta, que nos recorda como e quanto o nosso Deus «é misericordioso e benigno, tardo na ira e rico de benevolência, e que se compadece daquele que sofre» (Gl 2,13), podemos coroar nossa cabeça com as cinzas de todas as nossas falências, de nossas pobrezas e dos nossos desejos frustrados. Tudo isto que, normalmente temos medo de assumir, pode ser transformado – em virtude e sob o olhar «secreto» (Mt 6,18) do Pai de Jesus – em cinzas que, mesmo recordando nossos mais verdadeiros jejuns existenciais, são sempre cada vez mais, cinzas perfumadas, dignas de homens e mulheres do «rosto» (6,17) sempre mais conforme à «imagem do Senhor Ressuscitado» (oração da benção das cinzas). Não nos resta senão que recebê-las alegres e decididamente no caminho para enfrentar as etapas desta «santa viagem» (Sl 83,6).

Fra Michel Davide, in Messa quotidiana, febbraio 2009, EDB Bologna.
[1] Soteriológico é um tema que está relacionado diretamente com a missão de Salvação de Jesus Cristo. Soter quer dizer salvador.
[2] Lassus, L.-A., «Costruire sa fidélité», in Assemblées du Seigneur 13 1975, 50.