quarta-feira, 7 de março de 2012

Antes de pintar


"Tu Eterno Artista,
Luz da Luz, Fonte de Vida.
Toma meu coração e minhas mãos
e guia-os no caminho da Beleza.
Teu Rosto Misterioso,
Tuas Mãos eloqüentes,
Tua mensagem aos homens,
que os pincéis de minha vida
possam pintá-los pela tua Glória;
possa expressar neles,
o meu desejo de ti,
a amizade dos santos
que habitam tua Casa
e sem cessar te louvam.
Possa penetrar neste mundo de alegria
e abrir dele uma janela
através de minha arte,
e ao vê-la os homens se alegrem
e te busquem sem cessar,
Fonte de toda Beleza,
Causa de nossa Alegria.
Amém".

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Aprendendo com Leonardo

Um belo trabalho com os textos de Leonardo da Vinci, com intruções para o processo de pintura e escultura. Vale a pena conferir!

São José de Maruipe, Vitória ES




 Pintura feita no processo de reforma da igreja, em colaboração com a arquiteta Raquel Tonin Schneider, no bairro de Maruipe, Vitória ES, no início de fevereiro de 2012.


Cruzeiro do Sul, Vitória ES






Comunidade Santo Antônio em Cruzeiro do Sul
Pintura realizada em fins de janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Deus me criou

No retorno ao Tempo Comum da liturgia católica, Newman nos ajuda a recordar algo tão simples e essencial: nossa condição de criaturas amadas, escolhidas e à serviço! Esse homem de Deus consegue fazer-nos sentir a grandeza de nossa existência, mesmo em ordinários recipientes!

"Deus me criou para que lhe prestasse um serviço particular; confiou-me um trabalho que não foi confiado a nenhum outro. Tenho a missão, que não saberei nunca neste mundo, mas que me será revelada no outro. Não sei como, mas sou necessário aos seus fins, necessário no meu posto como um Arcanjo no seu; […] tenho uma parte nesta grande obra; sou o anel de uma corrente, um laço de parentesco entre as pessoas, Não me criou para nada. Farei o seu trabalho; serei um anjo de paz, um pregador de verdade, estando no meu lugar, sem ter a intenção, se somente observo os mandamentos e o sirvo na minha vocação.
Terei, por isso, confiança nEle. Em qualquer coisa que faça, ou onde quer que esteja, não posso jamais ser jogado fora. Se estou enfermo, a minha enfermidade pode servir a Ele; se estou na dor, minha dor pode servir a Ele. A minha enfermidade, ou perplexidade, ou dor, podem ser causas necessárias a um grande desígnio, o qual está completamente acima de nós. Ele não faz nada inutilmente; pode prolongar minha vida, pode abreviá-la; sabe aquilo que faz. Pode tirar meus amigos, pode atirar-me entre estranhos, pode fazer-me sertir desolado, pode fazer sim que o meu espírito se abata, pode manter-me sigilado o futuro, e todavia Ele sabe o que faz. […] Não te peço para ver, não te peço o saber, peço-te simplesmente estar colocado na obra". (7 de março 1848)
JOHN HENRY NEWMAN, Meditazione e preghiere, Jaca, Milano, 2002, 38-39.

sábado, 17 de setembro de 2011

Umuarama Paróquia São José






Painel central da Paróquia São José, em Umuarama. O tema central é a Merkabá, o Carro de Deus, com o Pantocrator e o tetramorfo ao redor. Terminamos o trabalho esta semana, e esperamos poder ter fotos melhores, e então adicionaremos.



quinta-feira, 7 de abril de 2011

A sarça Ardente e o coração contrito


“Não te aproximes daqui. Tira tuas sandálias porque o lugar onde te manténs de pé – onde não te dobras nem te anulas – é terra santa”. (Ex 5, 3)
O intraduzível mistério da experiência humana e divina foi sempre contemplado e vivenciado a partir da linguagem simbólica, a única capaz de possibilitar compreensão profunda e, contemporaneamente, a vivência da mesma. O cristianismo não criou uma linguagem nova, apenas o conteúdo é novo, comunicado com a linguagem tradicional, compreendida universalmente. “O símbolo não é somente um significado, pois do contrário seria um sinal artificial, convencional. O símbolo é mais que um sinal, porque já é, por si mesmo, um caminho na direção do que ele aponta. É o que chamamos o laço intrínseco” . É por isso que, diante de uma narrativa ou imagem simbólica, o homem se sente envolvido e tocado pelo mistério, apesar de não entendê-lo, ou talvez por isso mesmo.
A linguagem simbólica entrou em descrédito quando o racionalismo a interpretou contrária à verdadeira ciência, como obscuridade e fantasia. Não obstante, essa foi a língua com a qual os homens de todos os tempos puderam comunicar-se com a divindade e com os aspectos mais profundos de seu ser e existência. O homem continua tendo esta sensibilidade fortíssima para o símbolo profundo, mas esqueceu sua linguagem, que ficou relegada ao mundo dos sonhos, mas explorada, ampla e ambiguamente, pelo mundo da publicidade e do consumo, que lhe retira toda sacralidade, mantendo-lhe forma sem conteúdo, ajudando em muito aumentar o vazio do homem contemporâneo.
Partiremos de três símbolos fundamentais para penetrar neste mistério: Os pés, a árvore e o fogo.
A concepção daquele que crê é que todo universo foi criado e é mantido na existência pela sabedoria (Sophia) e bondade de Deus. Ele o criou como um todo, vencendo o nada, num sistema perfeito. Essa grande criação é chamada com uma palavra grega: Cosmos, que quer dizer Beleza. Muito antes dos ecologistas do século XX falarem de um eco-sistema, os cristãos já o sabiam, assim como todos aqueles que acreditam em Deus criador. Tudo está em relação, porque Deus mesmo, no seu Mistério inefável, é relação de amor, é Trindade. Mas o homem contemporâneo ainda não chegou a redescobrir a decorrência de pertencer a um sistema: a de ser ele mesmo um pequeno sistema perfeito ou, como chamam os Padres , um microcosmo, a partir do qual ele pode conhecer o macrocosmo e vice versa. São Pedro Damião dizia que “o homem é chamado, com uma palavra grega, microcosmo, que quer dizer mundo pequeno, porque, por sua essência material, está composto dos mesmos quatro elementos do universo”. Conhecer-se a si mesmo conduz ao conhecimento do universo e vice-versa. Vem daí a força da linguagem simbólica, onde o mistério pode ser visto de ângulos complementares. Por isso os cristãos desde os primeiros séculos conseguiam ver na Escritura o resumo de tudo, e como tudo fala de Cristo, o homem perfeito, e de como esse mistério acontece dentro de nós também. Por isso o Mistério Cristão foi transmitido muito mais com os ritos e símbolos do que com um discurso intelectual. O trecho da Sarça Ardente é ilustrativo disto, porque toca as raízes de nossa existência, muito além do que possamos entender.

Os Pés
Moisés vive uma experiência singular, depois de suas tentativas frustradas de resolver um pouco os problemas de seu povo escravizado no Egito, ele foge para as terras de Madian e espera esquecer o que passou, e deixar que o tempo apague essa dor e vergonha que carrega. No entanto, como acontece com nossas próprias dores e vergonhas mais profundas, o tempo não faz outro que perpetuar um fogo que queima sem se consumir, prolongando no tempo um sofrimento secreto que não mostra alívios. Todo homem e mulher carrega seu quarto secreto, seu “calcanhar de Aquiles”, e é por isso mesmo que Quando Deus quis falar sobre isso com o homem, usou a imagem que ele entenderia: suas bases. “Os pés nos assentam no chão, permitem a postura vertical, a marcha e são um dos mais importantes lugares simbólicos do corpo humano. Objeto de tantos mitos, os pés são o lugar de contato entre o homem e a terra, ponto de partida para sua verticalização, elevação e ascensão. Os pés representam a força da alma, o suporte da postura ereta, a base de nossa estatura, o domínio do ter” . Nosso ponto inferior, o mais baixo, é também aquele que sustenta tudo. Era necessário que Moisés sentisse seus pés sobre a terra nua, que sentisse sua própria nudez diante de uma realidade que ultrapassava em muito sua capacidade de compreensão. Muitos seres humanos carregam também sua chaga, queimando sem se consumir, no segredo mais íntimo, suspirando, lamentando ou gritando: ‘porque eu?’. Vão caminhando com medo, “pisando em ovos”, temendo serem descobertos em seus segredos infantis, temendo sofrer mais ainda na vida, protegendo-se até mesmo de serem felizes, porque se protegem de sua própria verdade.
“Quem vive uma experiência pessoal de Deus, os homens e mulheres de Deus são constantemente inflamados pelo fogo de sua Presença, sem ser consumidos. Na entrada das mesquitas, de determinados mosteiros orientais e mesmo em alguns mosteiros católicos, retirar os sapatos para entrar é uma exigência. Neste ato de despojamento, onde retiramos o fardo dos sapatos, os pés tocando o solo, o piso, o tapete... falam-nos de uma outra experiência (Js 5, 13-15), capaz de derrubar muralhas. De uma intimidade, cuja base está nos pés. A palavra sandália em hebraico «naal», vem de um verbo que significa fechar, ferrolhar, apertar – como os pés num sapato. Por isso, em hebraico, retirar as sandálias significa retirar o que aperta, oprime ou ferrolha os pés. Como muitos que, ao chegar em casa, têm como primeiro gesto de bem-estar retirar os sapatos” .
Somente algo muito belo e forte pode motivar o descalçar-se, e é este grande mistério que fascina Moisés, que vê a sarça que queima sem se consumir. A sarça é um pequeno arbusto, quase rasteiro, que a iconografia ocidental representa como uma pequena árvore, e o faz muito justamente, porque o que está por detrás é o simbolismo vegetal. O formato do pé assemelha-se a uma semente, como aliás outros dois membros do corpo: os rins e as orelhas. E são justamente com estes órgãos vitais que o homem se relaciona com o Senhor. Na nossa língua, a palavra pé, ou compostas com ele, dão uma rica compreensão de seu valor de contato profundo com a realidade, com a verticalização, com a aceitação, etc. Porém, é notável como “pé” é sinônimo também de planta, e que toda árvore tenha um “pé”, que é sua base, assim como, chamamos, em nossa língua, a base do pé de “planta”. Inegável metáfora do micro e macro cosmo, que aponta para uma compreensão mais profunda de nossas raízes.

A Árvore
“Contemplemos o simbolismo natural da árvore: símbolo perfeito da Vida, plantado no paraíso, que cresce até os céus e vivifica a todo o universo, antes de receber sua dimensão total no mistério da Cruz cósmica de Cristo” . Ela une realidades muito diferentes, a de cima e a de baixo, com um duplo e sincronizado crescimento, um na direção da obscura verdade, no ventre da terra, transformando o húmus de nossa humilhação em seiva que corre em busca da luz, para cima, estendendo os braços para o alto, alimentando-se da força do sol, e fazendo-a retornar às profundezas escuras da terra, fechando um círculo de vida e morte, de decomposição e transfiguração. Por isso mesmo, ela representa a vida em seu movimento contínuo, em seu comunicar-se e doar-se, em seu enraizar-se e em seu lançar-se às alturas. Não por acaso as árvores foram, junto com as estelas, as primeiras representações do Sagrado, às sombras das quais se encontravam e cultuavam as divindades. Menos casual ainda, a inspirada associação da Cruz do Cristo com a Árvore da Vida e o paraíso.
Da planta de seus pés desnudados, Moisés vislumbra a compreensão total de seu interior, projetado exteriormente no símbolo. Uma realidade que lhe fascina e atemoriza, que atrai continua e inexplicavelmente: é Deus mesmo. O homem caminha com sua ferida oculta, fazendo de tudo para aliviá-la, escondê-la, eliminá-la de alguma forma, olha-a de longe, e ela continua sempre ali, a queimar sem consumir-se, sem trégua, como o espinho cravado na carne do grande São Paulo. O elemento vegetal, sozinho não seria suficientemente explícito para chamar sua atenção, era preciso que o paradoxo estivesse em cena, algo que lhe lembrasse de forma permanente que aquela região merecia um olhar mais profundo. O medo de aproximar-se da verdade leva o homem a todo tipo de fugas, subterfúgios, desculpas, mas felizmente para ele, toda esta tentativa é inútil, pois no centro de seu sistema queima um fogo inextinguível. Era por esta razão tão simples, que os monges do deserto diziam que toda vida monástica séria passa pelo conhecimento honesto de si mesmo. E, nada melhor para o auto conhecimento que o paradoxo, que reverte o previsível e, uma vez aceito, coloca o homem diante de seu centro, sua sarça ardente. E aqui, entramos no terceiro símbolo.
O Fogo
“Consumir-se e renascer. Para realizar esta metamorfose, o fogo, ambivalente, obceca a memória simbólica. (...) Antes mesmo que seja determinada a sua referência simbólica, o fogo se apresenta no seu significado elementar de força destruidora e vivificadora” . P. Bernard, comentando o simbolismo do fogo, evoca a imagem da Fênix, que se deixa queimar no fogo sagrado e dele renasce, citando ainda Teilhard: “Sobre tudo aquilo que, na Carne humana, se prepara para nascer ou para perecer sob o sol nascente, o chamarei ‘o Fogo’” . Ao lado do simbolismo vegetal, que traduz a força vital em seu expandir-se e doar-se, o fogo é a energia que movimenta tudo, princípio do ser, graça que se comunica e contagia. O mesmo Teilhard que chama o Espírito Santo de “Espírito incandescente, Fogo fundamental e pessoal” , aplica a imagem do fogo ao Verbo: “Verbo eterno, Potência ardente, Tu que plasmas o Múltiplo para insuflar-lhe a tua vida, impõe sobre nós, te rogo, tuas mãos potentes, tuas mãos premurosas, tuas mãos onipresentes” . A iconografia da Sarça Ardente se mostrou sempre nesta perspectiva do Verbo, com a imagem de Cristo mesmo, ou de seu Mistério da Encarnação, unido à Santa Mãe de Deus. De fato, o símbolo nos permite entrever algo totalmente incompreensível à razão, que o Divino possa estar totalmente presente no mesmo espaço que o humano, fazendo com ele uma única pessoa, sem aniquilá-lo, sem queimá-lo. A Virgem Maria é, no momento da Encarnação, a verdadeira Sarça Ardente, que contém aquele que o universo inteiro não pode conter, sem ser destruída por ele. Porém, esta Presença não deixa a matéria indiferente, porque é Fogo Divino: ele ilumina e queima de um modo singular. Os três jovens na fornalha experimentaram o frescor deste fogo, o mesmo que devorou seus algozes (Dn 3, 22.50.).
Nosso caro amigo Moisés, desarmado de proteções e auto defesas, olha para a ferida em seu coração, que lhe fez sofrer tanto, e agora se mostra como o Tabernáculo da Presença. O paradoxo é muito grande, mas ainda será sempre menor que aquele da Encarnação. Este é o gênero com que Deus atua! O homem fica sem palavras, porque sempre pensou que o Senhor queria suas virtudes, suas «áreas nobres», mas Ele preferiu o pó da terra, sua «vergonha ambulante». Essa atitude divina sempre assusta por ser demasiado bela, livre, criadora. O Senhor não se detém em explicações sobre ferida, nem tampouco ataca com moralismos superficiais, simplesmente se mostra Presença nela, isto basta! O fogo divino muda radicalmente a realidade das coisas, mesmo sem alterá-las, aparentemente: e o homem passado pelo fogo experimenta uma alegria até então desconhecida, que nada neste mundo lhe poderá tirar. O que antes fazia sofrer e envergonhar, agora é a única certeza de que verdadeiramente não está sozinho, provocando alegria pura e ação de graças.
Nosso Deus costuma ser íntimo, mas nunca intimista, por isso, Moisés, nem apenas tem tempo para ficar contente com a visão e a descoberta transfigurante, e já é enviado a salvar seu povo... o paradoxo não tem limites! Nem apenas nos acostumamos que Deus tenha escolhido nossa parte mais vergonhosa como ponto de encontro entre o Céu e a terra, e já Ele nos avisa que nossa missão também partirá deste ponto... foi por isso que Sara riu-se, dentro de sua tenda, quando os Anjos disseram a Abraão que eles teriam um filho na velhice, e Isaac foi chamado «Deus ri», porque Deus tem senso de humor. Diante de uma missão assim, vem-nos um sorriso aos lábios, como a perguntar se Ele não estaria brincando conosco. Ele também ri conosco, mas de bondade, e nos afirma que basta-nos sua Graça. Porque somente assim poderemos anunciar o Mistério dEle, e não o nosso, sua Misericórdia e não a nossa, sua Presença e não nosso moralismo. «Quem se conhece a si mesmo não julga ninguém!» repetem os padres do deserto.
Um certo espiritualismo de nosso tempo faz com que alguns cristãos situem a presença de Deus em áreas que julgam mais nobres para recebê-lO, mas isso não muda nada, Ele continua queimando lá onde Ele escolheu, porque somente lá pode encontrar nosso «eu» verdadeiro, desprovido de auto-justificações ou pretensos merecimentos. Nossos Pais antigos chamavam isso de Compunctio Cordis, compunção do coração, literalmente, um coração ferido, transpassado pela Graça. Em nossa língua dizemos que «cada um sabe onde aperta seu sapato», e com a experiência dos monges antigos e menos antigos, poderiam acrescentar: «e lá nos espera o Senhor! E de lá o anunciaremos!»
D. Ruberval Monteiro da Silva osb

terça-feira, 8 de março de 2011

Cacos para um mosaico


Nesta madrugada de carnaval, enquanto no país se desfilava pelos grandes sambódromos, líamos as atas do martírio destas duas santas africanas dos primeiros séculos, Perpétua e Felicidade. Mães de família, cristãs autênticas, de quem o narrador, vencido pela força de sua personalidade, diz que só puderam ser mortas porque decidiram morrer. O relato é belo, e conta de outros mártires também, num espetáculo de sangue e violência, a paz destas pessoas, de quem conseguiram arrancar tudo, menos o seu tesouro mais precioso: sua fé.

Muitas igrejas em Roma são adornadas com mosaicos antigos e belíssimos. Os pavimentos tem verdadeiros tapetes de mármores preciosos. Recordo-me que ficava muito impressionado diante destes arrebatadores pavimentos cosmatescos. Sabia que suas pedras eram reutilizadas de antigos monumentos romanos. Por isso, eram duplamente belos, no mínimo. Tinham adornado grandes palácios e templos romanos, e antes disso tinham vindo de muito longe, carregados por escravos, talvez de outros palácios e templos de outras culturas e religiões. Pedras de cores fortes, de belos veios, de resistente fascínio. Quando o império caiu, aos poucos, elas caíram juntas. A nova civilização surgia, e elas se levantaram com ela. Já eram fragmentos, fruto da decadência e dos terremotos, e foram artisticamente fragmentadas, agora com uma arte precisa, para que contassem aos olhos dos homens, os mistérios do cristianismo. Para mim, elas falavam de múltiplas formas, dentro do discurso de seu artífice e do seu próprio.

Encontrei um pequeno fragmento de um destes mosaicos, no lixo de uma igreja em restauração, no setor histórico de Roma. É pórfiro verde, e veio de muito longe, é muito duro e belíssimo. Ele estava sozinho, exatamente como eu, no dia em que o encontrei. Só Deus sabe em que desenho maravilhoso ele estava, o amor que recebeu de seu artífice, quando o escolheu para aquele exato lugar, onde sua cor e forma eram necessárias para traduzir o intraduzível. Muito mais tarde, ele voltou a fazer parte de um mosaico que realizei na capela do Santíssimo Sacramento da Catedral de Ponta Grossa, ele esperou - e as pedras sabem esperar - sua hora e sua vez!

Terminando o mosaico, lembrava do título e introdução do livro de Adélia Prado: “Cacos para um vitral”, prosa de uma das maiores poetisas da língua portuguesa. «Restos de poesia dão excelente prosa!» diz ela. A autora descreve os acontecimentos prosaicos da vida de uma dona de casa, como pedaços de vidro, coloridos e transparentes, que unidos, formam figuras e beleza inigualável. Nosso irmão, D. Beda, realizou vitrais extraordinários para nosso mosteiro, com restos de vidro colorido que ganhamos de uma firma de vitrais. Nas caixas são coisa poeirenta, mas nos conjuntos, iluminados e juntos, contam coisas que nenhuma palavra poderia conseguir.

Lembrava ainda de um comentário de uma amiga, que viu o mosaico sendo feito e me disse de um filme, onde uma mãe fazia um mosaico sobre uma mesa, com os cacos de toda louça que era quebrada por seus filhos, e que sua filha a criticava por essa mania bizarra, e depois de sua morte, decide continuar o mosaico da mãe...

Pensava em tantas existências que foram destroçadas por tragédias inevitáveis, por perdas irreparáveis, pensava em mim mesmo, feito em pedaços diante de algumas marteladas da vida, na escultura que ela vem realizando, descobri que os pedacinhos perdidos eram úteis! Que depois da desordem vinha a ordem, que a Segunda natureza, reconstituída, ficava mais bonita que a primeira. Que os fragmentos de realidades tão caras seriam úteis, sem deixar sua história para trás, apenas ocultando-a em seu redimensionamento, como meu pórfiro verde, que era feliz pelo que foi e viveu, e pelo que é e pelo que ainda será. Estar quebrado não é para nada agradável, e a sensação de estar separado em caixinhas, menos ainda. Mas descobri, no papel do artífice, o amor que ele tem por cada pedacinho de suas pedras. Ele aprende a amá-las, porque se não as conhece, não poderá descobrir seu melhor lado, aquele que ficará à mostra; outros 5 lados ficarão dentro da parede, cumprindo sua função também. Ele revela um mistério ao mesmo tempo que o vela. Os dedos do artífice passam continuamente pelas suas pedrinhas, até mesmo ferindo-se em suas pontas agudas. Seus olhos aprendem a contemplá-las, em seus variados lados, em suas cores. Todas são importantes, as bem comportadas (cubinhos ) e as “informais”, todas tem seu lugar, no seu tempo. Ele as ama, e reserva algumas para as tarefas especiais, ou porque são muito belas, ou porque são muito tortas.

No dia em que contemplamos, de novo, o martírio destes cristãos africanos, vidas despedaçadas, carnes e roupas rasgadas, batismo de sangue, ao mesmo tempo, vemos o conjunto maravilhoso do testemunho que deram. O Pai, o Eterno Artífice, com os dedos do Espírito Santo, deu forma com estes pedaços, ao belíssimo Rosto de Cristo que vive e sofre nos seus membros, ganha, mesmo perdendo, a batalha contra a superficialidade e o mal no mundo, e permanecem, diante de nossos olhos, obra prima da Criatividade Divina, no paradoxo dos acontecimentos humanos.


Cosmatesco é uma palavra que vem dos autores destes mosaicos, a família Cosmato, ou a sua corporação, responsável por muitíssimos trabalhos na Itália nos séculos XIII e XIV.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Ornamentos Armênios


Compartilho este belíssimo site de ornamentos da cultura cristã armena. Em cem folhas podemos ver o que poderia ser um velho tacuíno, ou seja, o caderno de desenhos e cores que todo mestre elaborava ao longo de seu aprendizado e vida, e que lhe serviam de "fonte de inspiração" diante dos trabalhos que fazia. Este era o elemento que servia de elo para a tradição, pois esses cadernos passavam de mestre a discípulo, eram copiados e ampliados, e isto pode explicar esta linguagem comum que encontramos na arte Antiga e Medieval, ao mesmo tempo ajuda-nos a entender a fecunda criatividade com que os mesmos desenhos eram usados por pessoas diferentes. Seguramente eles não tinham a noção, tão contemporânea, dos direitos autorais, pois o artesão se manejava dentro das águas de uma Tradição comum, da qual não se sentia proprietário, mas servidor. Ele mostrava seu gênio utilizando esses elementos da forma mais perfeita, no local concreto ou na obra em que devia trabalhar, adaptando, redimensionando, combinando, e com isso, criando algo novo, do velho tesouro. Poderemos recordar, não muito tempo atrás, que nossas avós tinham cadernos de bordados ou de costura, onde se conservavam, passados de mãe para filha, os riscos que dariam forma aos trabalhos manuais, as amostras de tricô ou crochê, as receitas de bolos e pratos familiares. No link raiz do site indicado, encontramos outros endereços sobre estes ornamentos armênios, incluídos estudos dos mesmos, e sua interessantíssima origem, relacionada, segundo seu autor, às manifestações dos primeiros homens das cavernas. Mais tradicional que isto, impossível!
Este tipo de realidade nos ajuda entender o papel do artista por milênios. Ele não era alguém "sui generis" que devia criar do nada, inventar sempre algo que não tinha ainda sido pensado... mostrar sua genialidade através de sua total originalidade. Se o gênio era verdadeiro, ele o fazia, através da combinação dos velhos elementos, e deste modo, ele entrava para a tradição e suas soluções passavam a fazer parte dos tacuínos. Esses cadernos, a maioria absoluta perdida, eram fruto da decantação e purificação de milênios de história humana! Quê grande conforto para o ser humano artista! ele não estava sozinho diante de uma parede branca, não era um deus nem um maldito, mas simplesmente um servidor.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A TRANSFIGURAÇÃO

Este “estranho espetáculo” é propositadamente relatado pelos sinóticos como o cimo do ministério de Jesus. Em direção deste cume sobem as surpresas e indagações das teofanias precedentes — “quem é este?” e “Para vós, quem sou eu?” — e é dela que parte o caminho para a última Páscoa em Jerusalém. Os milagres anunciavam as energias do Cristo ressuscitado; a transfiguração é a teofania que lhe desvenda o sentido, ou melhor, que já atualiza o que essas energias realizarão em nossa carne mortal: nossa divinização.
No centro do Evangelho, histórica e literariamente, a transfiguração assim aparece motivada pelo seu realismo misterioso: a humanidade de Jesus é o nódulo vivo onde o homem se torna Deus. O Cristo é, realmente, homem! Ora, ser homem não é ser “em seu corpo”, conforme pensam os dualismos impenitentes, mas, segundo a revelação bíblica, é “ser seu corpo” um todo orgânico e coerente. Porque o ser humano é seu corpo, ele está, à imagem de seu Deus, em relação com as outras pessoas, com o cosmo, com o tempo, com Aquele que é a comunhão em plenitude. Ora, depois que o Verbo tomou corpo, formou uma relação “humana” com o Pai e com todos os homens, segundo to-das essas dimensões: o fogo de sua luz abrasa a sarça inteira, toda a sua humanidade é “ungida”, “nele habita toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9) . . e Paulo acrescenta: “e nele fostes elevado à sua plenitude” (v. 10).
Que se passou, pois, neste acontecimento repentino? Por que “a fugidia beleza” do Incompreensível transparece por instantes no corpo do verbo? Duas certezas nos podem guiar. Em primeiro lugar a transformação, a “metamorfose” segundo a transcrição do termo grego, não concerne a Jesus. O texto evangélico e a interpretação unânime dos Padres são claros: Cristo “se transfigura, não ao assumir o que não era, mas manifestando o que era a seus próprios discípulos: abre-lhes os olhos e, de cegos que eram, os faz videntes”. A mudança deu-se do lado dos discípulos, e confirma a segunda certeza: o fito da transfiguração, de acordo com o fim de toda a economia revelada na Bíblia, é a salvação do homem. Como na sarça ardente, o Verbo “deixa ver” em seu corpo a luz de sua divindade, não para mostrá-la, mas para fazer viver, para salvar: revela-se ao dar-se e dá-se para nele nos transformar.
Entretanto, se nos é permitido aproximar do mistério, deixando de lado a curiosidade e a gnose indiscreta, por que Jesus terá escolhido, naquele momento, suas duas testemunhas e seus três apóstolos? Que experimentava, pois, em seu coração de homem, Jesus, Filho amantíssimo do Pai e apaixonado por nós? Já alguns dias antes, Pedro fora interiormente iluminado e reconhe¬cera-o como o Cristo de Deus. Jesus começara, então, a erguer o véu sobre o desfecho iminente: deveria sofrer, ser condenado à morte e ressuscitar. Entre este primeiro anúncio e o seguinte toma a iniciativa de subir á montanha. A plenitude da transfiguração aparece assim através do “não dito” dos evangelistas: tendo terminado a catequese preparatória à sua Páscoa, Jesus decide-se a caminhar para a sua realização. Em todo seu ser, por todo o seu “corpo”, está entregue à vontade amorosa do Pai, a ela adere totalmente. Doravante tudo vai traduzir o seu “sim” incondicional ao amor do Pai, até a última luta da agonia á qual os mesmos discípulos serão convidados.
Precisamos, sem dúvida, entrar no mistério dessa adesão de amor para compreender que a transfiguração não é o desvendar impassível da luz do Verbo aos olhos dos apóstolos, mas o momento intenso em que Jesus se torna um só, através de todo seu ser, com a compaixão do Pai. Nesses dias decisivos, ele é mais do que nunca transparente à luz de amor daquele que o entrega aos homens para a sua salvação. Então, se Jesus se transfigura, é porque o Pai faz explodir a sua alegria. A irradiação de sua luz no seu corpo de compaixão é como o vibrar do Pai que responde ao dom total de seu Unigênito. Assim se explica a voz que atravessa as nuvens: “Esse é o meu Filho muito amado! nele encontro a minha complacência! . . . ouvi-o!”
Compreende-se, com efeito, o espanto de Moisés e de Elias: eles que vislumbraram a proximidade da glória divina, impaciente por salvar os homens, eis que a contemplam no corpo do Filho do homem. “Eu vi, eu vi a aflição de meu povo . . . ouvi os seus clamores . . . resolvi livrá-los . . .“ (Ex 3,7); “ouvi-me, Senhor, ouvi-me . . . estou devorado de zelo pelo Senhor Iahweh, porque os filhos de Israel te abandonaram (lRs 18,37; 19,10): já não são palavras divinas nem palavras de homens, mas o próprio Verbo em sua humanidade; não mais uma promessa e uma expectativa, mas o evento, a “realidade: é o corpo de Cristo!” (Cl 2,17). Moisés e Elias podem sair da gruta do Sinai sem cobrir o rosto: contemplam a fonte da luz no corpo do Verbo.
Quanto aos três discípulos, ficam inundados, durante alguns segundos, por tudo que lhes será dado receber, compreender e viver a partir de Pentecostes: a luz divinizante que emana do corpo de Cristo, as energias multiformes do Espirito que dá a vida. Naquele momento, o que os derruba é perceber que “Este” é não somente “Deus com os homens”, mas Deus-homem: nada pode ir de Deus ao homem e do homem a Deus senão pelo seu corpo. E a outra certeza será por Pedro testemunhada em suas cartas e por João, em seus escritos: a participação nesta vida do Pai que se irradia do corpo de Cristo é proporcional à fé do homem. Nessa luz de fé que iluminou seus olhos de carne consiste a novidade da transfiguração. Graças a ela, aproximando-se do corpo de Jesus, “apalpam a Palavra da vida” (lJo 1,1).
Doravante não há mais distância entre a matéria e a divindade: no corpo de Cristo nossa carne está em comunhão com o Príncipe da vida, sem embaraço nem separação. Do que o Verbo inaugurou em sua encarnação e manifestou desde o seu batis¬mo através de seus milagres, sua transfiguração faz entrever a plenitude: o corpo do Senhor Jesus é o sacramento que dá a vida de Deus aos homens. Quando nossa humanidade consentir em unir-se á humanidade de Jesus, participará, então, da natureza divina (2Pd 1,4), será divinizada. Se todo o sentido da economia da salvação consiste nisso, compreendemos que a Liturgia é, afinal, a sua realização. A divinização do homem será participação no corpo de Cristo.
CORBON, J., Liturgia de fonte, 66-69.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O teu nome é Luto, aleluia!


Os Atos dos Apóstolos falam do «luto», ou melhor «do grande luto» (At 8,2) que a comunidade cristã faz pelo diácono e mártir Estêvão e – lendo o discurso sobre o pão – poderíamos dizer que o Senhor Jesus faz o seu «luto» – talvez ainda maior – sobre a nossa incredulidade. A psicologia moderna e pós moderna fala frequentemente da necessidade do «luto» nas várias fases e nos momentos significativos da vida: é necessário metabolizar as mortes, as perdas, os fracassos que atravessam nossa vida, para que não sejam simplesmente tumbas que se fecham sobre nós, paralisando a vida, mas ocasiões de crescimento. De fato, o martírio de Estêvão e a sua piedosa sepultura são vividos pela comunidade cristã como um momento de tristeza, mas também como ocasião para continuar decisivamente o próprio caminho de anúncio do evangelho, tanto que, no final, encontramos o exato contrário daquilo que poderíamos esperar: «E houve uma grande alegria naquela cidade» (At 8,8).
Assim também o Senhor Jesus não tem nenhum temor em chamar a atenção e quase denunciar nossa incredulidade e nossa dureza de coração diante do anúncio do evangelho, e isto, ao invés de nos dobrar sobre nós mesmos, permite-nos nutrir-nos e metabolizarmos – para que dê vida – o «pão» (Jo 6,35) que Ele é para nós. Não se pode esquecer que nenhum tipo de alimento seria capaz de nutrir, se não passasse através do processo de assimilação que exige uma transformação, que acontece sempre através de uma morte e, depois, um «luto». A experiência da primeira comunidade cristã, acompanhada e iluminada pela Palavra do Senhor Jesus, obriga-nos, por um lado, a dar-nos contas das realidades de morte que necessariamente assinalam nossa vida, e por outro, a não pararmos: «Aqueles, porém, que se tinham dispersado, andaram de lugar em lugar, anunciando a Palavra» (At 8,4).
O Senhor Jesus o afirma com força: «Eu o ressuscitarei no último dia» (Jo 6,40), mas – como aconteceu para o Senhor Jesus e o seu discípulos Estêvão, que se fez o primeiro da fila de uma inumerável legião de homens e mulheres que souberam pagar com a vida o penhor da esperança que lhes fazia viver – nenhuma ressurreição é pensável se não passa através do tempo de «luto» como capacidade de englobar a morte, com serena força, no interno das próprias leis da vida. A lamentação do Senhor, que soa nestes termos: «Eu vos disse que, mesmo me tendo visto, ainda assim, não credes» (6,36) coloca o dedo na ferida da nossa incredulidade de fundo, que nasce de uma ignorância misturada com desconfiança naquele que é o mistério e o segredo da vida verdadeira. Somos bombardeados continuamente com propostas e ofertas que buscam iludir-nos com o fato de que possamos receber e ter muito – muitíssimo mesmo – a custo zero, enquanto o Senhor nos recorda que, nas coisas verdadeiras existe sempre um custo... exatamente como aquele que pagou Estêvão, cujo sangue se torna semente e não tumba.
Fra MichelDavide Semeraro OSB, Messa quotidiana – aprile, Bologna 2010, 268-270.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O teu nome é "Se", aleluia!


O modo como o rabino Nicodemos se dirige ao Senhor Jesus é emblemático: «Rabi, sabemos que vieste de Deus como mestre; ninguém, de fato, pode realizar estes sinais que tu realizas, se Deus não está com ele» (Jo 3,2). Nestas palavras podemos ler uma grande admiração da parte de um membro com autoridade do sinédrio em confronto com este rabino itinerante proveniente da Galiléia. Mas podemos também adivinhar como, para Nicodemos, o critério de discernimento para avaliar uma pessoa esteja ligado aos «sinais» que ele realiza muito mais que – partindo dos sinais externos – buscar compreender o sinal que ele é como pessoa. A isto o Senhor Jesus reage prontamente e, em certo aspecto, brutalmente: «Em verdade, em verdade eu ti digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus» (3,3). Poderíamos comentar esta resposta do Senhor Jesus a Nicodemos, retomando o texto do salmo responsorial que a liturgia nos oferece: «Ri-se deles o que mora lá nos Céus, zomba deles o Senhor onipotente» (Sl 2,4). É claro que o Senhor Deus não ri de nós, mas como uma mãe que assiste os primeiros passos de seu próprio filho, sustentando-o nas suas inumeráveis quedas, vê e considera como nos custa tanto olhar a realidade desde dentro e não somente do exterior, como também a avaliar e incrementar a nossa mesma vida desde o profundo de nosso coração, e não da exterioridade dos gestos e palavras, tantas vezes maiores que nós, ao ponto de não expressar nada daquilo que verdadeiramente desejamos e do que realmente somos. Como explica Teodoro de Mopsuéstia, falando do batismo: «Quando se trata da geração natural, o seio da mãe é o lugar no qual se forma a criança, mas este se desenvolve até o termino pela potência de Deus que, desde a origem, o criou. Assim também, no evangelho, a água ocupa o lugar da mãe, mas é o Espírito a ser o Criador»[1].

Lá onde Nicodemos busca colocar-se, diante de Jesus, em uma situação de paridade e, até mesmo, com uma pitada de superioridade - «nós sabemos» (Jo 3,2) – o Senhor o chama a si mesmo e ao seu caminho pessoal de crescimento interior, que não se faz «em grupo», mas só e exclusivamente, assumindo o peso da própria solidão e da própria responsabilidade pessoal. Atingir a própria interioridade é o grande convite que o Senhor ressuscitado faz a cada um de nós, para poder, por nosso lado, viver a mesma experiência dos apóstolos e da Igreja nascente: uma abertura à profundidade de si mesmos permite-lhes serem fiéis a si mesmos e a não temer nenhuma ameaça externa. Quando somos capazes de viver à altura de nossa interioridade, então é claro que o Espírito não somente vive dentro de nós, mas nos regenera tão profundamente que a sua ação potente se torna perceptível: «Quando terminaram a oração, o lugar no qual estavam reunidos tremeu, e todos ficaram plenos do Espírito Santo, e proclamavam a Palavra de Deus com franqueza» (At 4,31).

Fra MichelDavide Semeraro OSB, Messa quotidiana – aprile, Bologna 2010, 192-194.


[1] Teodoro di Mopsuestia, Commento su Giovanni II,2.

Apresentação de slides

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