segunda-feira, 18 de março de 2013

34 O Espírito mestre de oração

Jesus e a Samaritana: Orar em Espírito e verdade, Coluna de Bernward, Hildesheim, séc. XI, Alemanha.
Com o diálogo de Jesus com a samaritana, o evangelista João anuncia o novo estatuto da oração cristã: «Crede-me, mulher, chegou o momento no qual nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis, nós adoramos aquele que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas chegou o momento, e é este, no qual os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade; porque o Pai procura estes adoradores. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade» (Jo 4, 21-24). Neste texto encontramos um ensinamento decisivo sobre o que constitui a originalidade da oração cristã, cujo segredo não nos vem revelado através de uma ou outra forma tradicional das práticas de oração. É claro que a função pedagógica dos lugares, dos momenots, dos métodos, permanecerá sempre importante, por causa de nossa condição humana: existirão sempre, para a oração, espaços, tempos e escolas. Mas, quando se trata da oração cristã, o que é fundamental é que ela seja um culto espiritual, um culto no Espírito. O primeiro ator da oração não é aquele que reza,mas muito mais o Espírito, porque é o Espírito que reza nele, que batiza a sua atitude humana, que atravessa a vida do homem, para fazer dela uma oferta, um «culto». Nesta perspectiva, o aprendizado da oração será, antes de tudo, uma educação à acolhida do Espírito Santo. Pode-se falar de disciplina da escuta e de atenção, porque uma disciplina semelhante é necessária a nossa condição humana. Mas, muito mais essencial que essa disciplina será a disponibilidade ao Espírito e à surpresa da sua presença, porque o Espírito sopra onde quer: «O vento sopra onde quer e lhe escutas a voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai: assim é aquele que nasceu do Espírito» (Jo 3, 8). Esta resposta de Jesus a Nicodemos nos mostra como a vida de fé, como a vida de oração sejam sempre possíveis, mas sempre dependentes do dom do Espírito. Eis uma coisa difícil de compreender para um mestre de sabedoria que quisesse tornar-se um discípulo na oração. A oração é uma realidade que foge aos nossos métodos, aos nossos meios. Poderíamos chegar a dizer que a oração cristã é uma oração que se ignora a si mesma. Poderíamos pensar, de fato, encontrar um bom conselho na passagem evangélica, na qual Jesus parece dar uma indicação aqueles que querem rezar: «Quando orardes, não sejais como os hipócritas (...) Tu, ao contrário, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, reza a teu Pai, em segredo; e teu Pai, que vê o que é secreto, te recompensará» (Mt 6, 5-6). Neste texto, a insistência não é tanto sobre o retirar-se à parte, mas quanto ao rezar em segredo. Este «segredo» não é somente a solidão e o silêncio; é a troca misteriosa entre o orante e o Pai, uma troca tão secreta que pode passar desapercebida até para aquele que reza. É o dom do Espírito que é oferecido ao homem de oração, para que ele possa oferecer a própria oração ao Pai. Nós não somos donos da nossa oração: o patrão é o Espírito.
P. Jacquemont, Lo Spirito santo maestro di preghiera, 51-52.

Nenhum comentário: