domingo, 9 de março de 2014

TQ 01 1 Converter… a suspeita


Pecado da desconfiança, mosaico Basílica de San Marco, Veneza, séc. XII.
A liturgia da Palavra de hoje nos introduz neste tempo quaresmal, ajudando-nos, antes mesmo de fazer um programa de penitência e conversão, a dar-nos conta daquela que é a estrutura fundamental do mal, o seu modo de funcionar. Neste trabalho de compreensão profunda, somos ajudados pelo apóstolo Paulo, o qual, refletindo sobre o mistério do mal, não consegue pensá-lo senão como uma forma de contagio: «Por causa de um só, todos morreram» (Rm 5,15). A pergunta pode surgir espontânea nos nosso coração: «Porque por causa de um todos devem morrer?», e a pergunta se torna ainda mais dramática se, entre estes «todos», muitos são inocentes...! Mas, eis que, justamente enquanto nos estamos fazendo semelhante pergunta, acabamos de cair na armadilha da «serpente» (Gn 3,1), deixando-nos enrolar estreito pelas voltas daquela astúcia que nos torna estultos e deixamo-nos atravessar por aquela suspeita que nos torna escravos do medo.
De fato, a serpente introduz, no mundo e na história, o seu maior motor, que é a pergunta, a capacidade de perguntar e perguntar-se. Poderíamos dizer que é mérito da serpente ter introduzido, na Escritura, pela primeira vez, o ponto de interrogação: e isto é uma graça! Mas, existem dois modos de questionar-se e questionar. Um deles é fundado na suspeita: «... ao contrário, Deus sabe que no dia em que vós comerdes do fruto, vossos olhos se abrirão e sereis com Deus, conhecendo o bem e o mal» (3,5). O outro modo, ao invés, é fundado na confiança, semelhante àquela com a qual a criança pergunta ao próprio pai ou à própria mãe, para orientar-se, gradualmente, no mundo e na vida, com a profunda certeza de que, mesmo as proibições estão a serviço de seu crescimento gradual. O mal e o pecado não são outra coisa que o fruto da suspeita contra Deus e de tudo o que Ele criou, incluídos nós mesmos. O deserto, no qual Jesus «foi conduzido pelo Espírito» (Mt 4,1) é o lugar, o estado, no qual, cada um de nós, não podendo contagiar ninguém, projetando o próprio mal sobre o outro – porque estamos sozinhos – somos chamados a curar do vírus da suspeita, respondendo ao veneno do diabo com o antídoto da memória da Palavra, na qual Deus se revela como Pai cheio de misericórdia e ternura.

Entremos pois, neste tempo sagrado, retomemos o combate espiritual que acompanha toda a vida, armando-nos de confiança, porque «muito mais a graça de Deus, e o dom concedido na graça de um só homem, Jesus Cristo, foi derramada em abundância sobre todos» (Rm 5,15). Deixemo-nos tocar pela confiança e, possivelmente, busquemos contagiar, com a confiança, o mundo no qual somos chamados a mover-nos e vivermos, sem nunca desejar ser mais daquilo que nós somos, sem querer ultrapassar os limites que a natureza e a história nos estipularam, talvez para evitar que façamos muito mal a nós mesmos e aos outros: orientemos todo o nosso desejo a nãos querer ser«como Deus, conhecendo», mas ser «como Deus» conhecendo-nos e amando-nos por aquilo que somos. O caminho da conversão é justamente passar da ilusão que abre toda e cada tentação - «Se tu és...» (Mt 4,3) – à consciência de ser «por graça aquilo» (1Cor 15,10) somos, buscando ser o melhor que pudermos, cada um a sua maneira, um «filho de Deus» como o Senhor Jesus, que confia no Pai, mesmo quando este o abandona a si mesmo. Evitemos o contagio do mal, honrando o nosso limite, não querendo «conhecer» mas compreender, e transformando, deste modo, a suspeita em confiança.

Semeraro, M., La messa quotidiana, marzo, Bologna 2011, 124-126.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Jó e as leituras da 7 sexta feira do Tempo Comum

Marc Chagall
O apóstolo Tiago parece ter necessidade de alertar-nos contra uma visão da vida demasiadamente «rosada», na qual não exista espaço para o imprevisto da dor, do sofrimento, do difícil assumir as várias realidades do viver. Antes de mais nada, somos postos diante de uma exortação: «Não vos lamenteis, irmãos, uns dos outros» (Tg 5,9). Imediatamente depois de ter dito isto, o apóstolo Tiago parece sentir a urgência de esclarecer que o «não lamentar-se» é bem mais que um ato de virtude; é o sinal indicativo de uma atitude fundamental em relação ao mistério da vida. E com razão, acrescenta:«Tomai como modelo de paciência e constância os profetas que falaram em nome do Senhor» (5,10). E, entre os muitos exemplos possíveis, cita um que poderíamos definir como o mais dramático, ou pelo menos, o mais desestablizante de todos: «Haveis escutado falar da paciência de Jó, e conhecei a sua sorte final, que lhe foi reservada pelo Senhor, que é rico em misericórdia e de compaixão» (5,11).

Jó, oferecido como modelo de «paciência», torna-se o símbolo de como o homem possa assumir toda a realidade de suas própria vida, mesmo a mais dolorosa, sabendo dar-lhe um nome e carregá-la. Muito diferente é a solução para a qual pedem uma aprovação do Senhor Jesus, uma solução projetada pelos fariseus, em uma realidade que se torna o sinal simbólico de todas as dificuldades que podem surgir, inevitavelmente em uma vida de relações que sejam autênticas: «Perguntaram a Jesus se é lícito a um marido repudiar a própria esposa» (Mc 10,2).

A «sorte final» (Tg 5,11) é como o «início» (Mc 10,6) que o Senhor Jesus pede aos discípulos cheguem a atingir a sabedoria, para assumir os desafios da vida e enfrentar-lhes da melhor maneira. A fidelidade às promessas é possível somente se assumimos o gesto de Jó em relação ao mistério da vida, englobando também as possibilidades de dor e o drama da incompreensão. Os fariseus que perguntam ao Senhor Jesus são, de fato, do mesmo tipo dos amigos que atormentam Jó com as suas seguras teorias, meras constatações de uma dor que não experimentada na própria pele, mas somente lida nos livros. Jó é, ao contrário, uma palavra chave para quem deve aprender a levar com paciência o livre jugo do amor, mesmo quando este se torna muito pesado. O Senhor Jesus não minimiza as dificuldades, mas exclui as conclusões simplistas e cômodas. A aproximação litúrgica entre a exortação a ser pacientes como Jó e a estar atentos ao outro, sobretudo quando este é mais fraco, como o era a mulher na legislação daquele tempo, abre o espaço infinito das possibilidades e das escolhas que não podem ser nunca pré-fabricadas, nem absolutas. Jó é uma palavra contra quem se arrisca arrogantemente – como seus amigos – no seu direito de pontificar, sem conhecer e nem tocar com seu ser a realidade humana mais profunda. O Senhor Jesus, com sua resposta, não dá uma «receita», mas insiste em recomendar aos seus ouvintes, e a nós, a que tenhamos a coragem de recordar sempre o «início», para encontrar a valentia de chegar ao fim.
Senhor Jesus, a tua palavra é um juízo sobre toda forma de egoísmo e autoreferencialidade, não é uma espada suspenda sobre o coração de quem já sofreu tanto. Dá-nos a sabedoria e a honestidade de sempre começar, e de recomeçar à partir de nós mesmos, mais que ceder ao juízo dos outros ou à pretensão de que sejam os outros que devem que pagar pela inevitável fadiga de viver.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

24 de dezembro: Esperar o repouso!

Tabernáculo da Paróquia Nossa Senhora da Paz, Boqueirão, Curitiba PR (Massa acrílica sobre madeira) 2002.
Davi e Zacarias, de modos muito diferentes, vivem igualmente um momento precioso em suas vidas, um tempo que poderíamos definir um salto de qualidade. Para Zacarias, o nascimento de João é a ocasião para completar a sua identidade sacerdotal com aquela profética, ao ponto de poder, finalmente, reabrir a boca depois de um silêncio que durou pouco mais de nove meses. Desta vez, as palavras de Zacarias não são mais nem para si mesmo, e muito menos, sobre si mesmo, mas constituem uma cascata de bênçãos que acompanha e dá ritmo, a cada manhã, à oração da Igreja: «Suscitou para nós um poderoso Salvador da casa de Davi, seu servidor» (Lc 1,69). O sinal desta Salvação, oferecida e experimentada agora em todo o seu esplendor, está no fato de que esta é capaz de «dirigir nossos passos no caminho da paz».(1,79).

Zacarias evoca o rei Davi, e a primeira leitura nos faz recordar um momento muito particular que poderíamos definir – também neste caso – um salto de qualidade na vida e na experiência espiritual do rei de Israel. O contesto do diálogo com Natan é muito claro: «Quando se estabeleceu em sua casa, e o Senhor lhe tinha dado repouso de todos os seus inimigos...» (2Sm 7,1). Quando Davi se sente seguro, e depois de se ter colocado em segurança, construindo para si uma «casa de cedro» (7,2), encontra as forças e o tempo para imaginar também um conforto para Deus, que habita simbolicamente na arca. A Davi, e até mesmo para Natan, parece ser uma belíssima ideia, mas o Senhor não o pensa assim... e ao invés de buscar para si um repouso, promete continuar a oferecê-lo: «Eu te darei repouso de todos os teus inimigos. O Senhor te anuncia que fará para ti uma casa» (7,11).

É esta a experiência que somos chamados a fazer, por nosso lado, nestas dulcíssimas horas natalícias. Enquanto tudo está pronto para colocar a imagem do Menino Jesus entre o boi o e burro de nossos presépios coloridos, somos convidados a recordar que é o Senhor que prepara para nós uma almofada apta ao nosso repouso, e o faz justamente oferecendo-nos o travesseiro perfumadíssimo de sua amadíssima humanidade, Toda vez que podemos contemplar uma criança que dorme, sentimos a beleza – unida a uma pitada de nostalgia – daquele senso de paz e de satisfação que todos buscamos e desejamos. O Verbo feito carne vem descansar entre nós e nos convida a repousar com Ele, dando-nos uma trégua de todos os nossos «inimigos», que são as preocupações inúteis e as cansativas ilusões.

A «casa» prometida a Davi não é um palácio maior e mais belo daquele de «cedro», mas é a casa da humanidade do Verbo, na qual toda expressão e experiência da humanidade pode sentir-se finalmente em casa, e encontrar repouso e paz. Enquanto contemplamos o repouso do Menino Jesus no presépio, já o contemplamos adormecido na Cruz: do berço ao tálamo é o caminho do Verbo encarnado, do amor recebido ao amor entregue é o nosso próprio caminho, feito à luz do Astro que surge para guiar nossos passos no caminho da paz... no caminho do dom de si!



Semeraro, M., La messa quotidiana, dicembre, Bologna 2013, 236-238.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

23 de dezembro - O nascimento do novo Elias

São João Batista, P. Ricardo Ramos, Montevideo - Uruguay
Deus faz surgir João Batista, como o novo e o último Elias, aquele no qual se cumpre e completa a longa descendência do profetismo. Todo o profetismo, de fato, não era senão uma preparação à vinda de Deus. Agora, Deus visitará seu povo «como um sol que surge dos abismos» (Lc 1, 78).

E é exatamente isso que, Zacarias, não mais incrédulo como na primeira visita do anjo, mas iluminado pelo Espírito Santo (Lc 1, 67) e repleto do espírito de profecia, reconhecerá neste seu filho, saído de sua carne, do qual contempla, com estupor, a missão no Espírito: «e tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo» (Lc 1,76). Em virtude do olhar profético que penetra, para além das aparências sensíveis, no conteúdo divino da história sagrada, Zacarias vê, no menino, aquele profeta por excelência – não somente profeta, mas «mais que um profeta» (Mt 11,9) – que «caminhará diante do Face do Senhor», isto é, que precederá o manifestar-se de Deus, para «preparar os caminhos» desta manifestação «mediante a remissão dos pecados». E esta manifestação não será o Juízo terrível trazido sobre uma humanidade escrava da morte e do pecado, mas a expressão da «terna misericórdia» que se levantará, como uma aurora, das profundidades dos abismos, como uma luz inesperada no coração das invencíveis trevas. (...) A vocação de João nos aparece como exemplar de toda vocação, enquanto cada vocação é uma eleição. Isto explica, antes de mais nada, a característica absolutamente gratuita da vocação. Deus escolhe como e quando quer, sem ser condicionado por nada, em plena e soberana liberdade. Liberdade, todavia, que não é arbítrio; se a liberdade divina não é condicionada por nada exterior, ela é, no entanto, a expressão dos misteriosos conselhos da sabedoria e do amor. Isto parece eminentemente em João. Ele é escolhido por Deus para uma missão que Deus mesmo lhe destina, não em virtude de qualquer mérito precedente, mas antes mesmo que nascesse. «Ele será repleto do Espírito Santo desde o seio materno» diz o anjo Zacarias (Lc 1, 15). A Igreja não hesitará em utilizar como intróito da sua missa, as palavras com as quais o profeta Isaías designa o eleito por excelência, o Servo de JHWH: «JHWH me chamou desde o seio materno, no seio de minha mãe, pronunciou meu nome» (Is 49, 1). Também aqui, João Batista aparece na sucessão de todos aqueles que Deus tinha escolhido no curso da história sagrada como seus próprios instrumentos. Pois a eleição está sempre em função de uma missão. (...)

A eleição aparece, assim, como um daqueles aspectos dos mores[1] divinos que se manifestam através da história sagrada, e que são o objeto da contemplação profética. Como Maria admirará, na encarnação do Verbo, a manifestação do supremo poder de Deus, assim também, Zacarias admira já, na eleição de João, uma maravilha que só Deus podia realizar. O Benedictus é quase uma profecia do Magnificat. Porém todo esta introdução do evangelho se desenrola como uma liturgia, na qual os mistérios se seguem a outros mistérios, enchendo de estupor, anjos e homens.

J. Daniélou, Giovanni Battista, testimone dell’agnello, 14-17.








[1] Mores= costume, hábito.

sábado, 21 de dezembro de 2013

21 de dezembro - A visita de Maria a Isabel

Visitação, Jean Marie Pirot (Arcabas)
Cumprindo a viagem da Galiléia à Judéia, de Nazaré a Ain-Karin, Maria não se dobra a um evento da história deste mundo, como acontecerá com a sua vinda a Belém na noite da natividade, quando fará obediência a um edito do imperador, e nem mesmo obedece a um mandamento divino, como acontecerá pela fuga ao Egito e o retorno daquela terra, em que cada vez, um anjo do Senhor informa José, em sonhos, seja do perigo que ameaça o menino, seja da morte daqueles que insidiavam a sua vida; não se conforma nem mesmo a uma prescrição da Lei, da qual cumpriria minuciosamente as disposições, como tem o costume de fazer, e como acontecerá durante sua purificação e a apresentação do menino no templo, quarenta dias depois de seu nascimento. Ainda menos vai até Isabel para verificar as palavras do anjo, por que a prima a saúda chamando-a de “feliz aquela que acreditou”, e louva, pois, a fé daquela que já acreditou.

Maria não se dirige para a montanha pela falta de fé na profecia ou por alguma dúvida sobre o que aconteceu em precedência, mas tão somente porque impulsionada pela alegria. Este visitar Isabel responde simplesmente à necessidade de Maria de estar lá onde é necessário um serviço; esta viagem revela a necessidade de Maria de poder cantar a misericórdia do Senhor que vem visitá-la, indo visitar aquela que também foi visitada pelo Senhor.

O tema da visita se encontra em muitas formas ao redor do gesto de Maria: no dia da anunciação, ela foi visitada pelo anjo vindo a comunicar-lhe sua eleição e solicitar seu fiat, seu consentimento. Por outro lado, Isabel, como então revelou o próprio anjo, também foi visitada, porque ela está no seu sexto mês, ela que era conhecida como estéril, e Deus colocou fim a sua vergonha. Em uma ligação profunda com estas duas visitas se cumpre esta outra visita de Maria, na direção da montanha, em uma cidade de Judá.

O tema da visita retorna frequente no evangelho da infância segundo Lucas: visita do anjo Gabriel a Zacarias e a Maria, visita de Maria a Isabel, visita dos pastores à manjedoura, visita de Maria e de José ao Templo, mais tarde, visita de Jesus, aos doze anos, a este mesmo Templo. Todas estas visitas presentes no evangelho da infância, e das quais a Visitação não é senão um exemplo, não são senão uma expressão multiforme da visita de Deus.

A visita de Deus em toda a Escritura indica a sua intervenção, trata-se de juízo ou de salvação. Deus visita quando julga, e Deus visita quando salva. E Maria, no Magnificat, canta a visita de Deus aos homens, da qual ela é o instrumento, canta o juízo e a salvação: os poderosos despedidos de mãos vazias e os pobres saciados, os saciados famintos e os famintos cumulados de bens, os soberbos humilhados e os humildes glorificados. É isto que canta Maria durante sua visita a Isabel.

A visita que ela faz a sua prima é, antes de tudo, uma imagem daquela que o Verbo se prepara para fazer aos homens, incarnando-se no seu seio, porque existe uma semelhança profunda entre o que acontece no seio da Virgem de Nazaré e o que acontece no caminho que separa Nazaré de Ain-Karin. O Verbo de Deus, que vem visitar os homens fazendo-se homem, visita já, neste gesto de Maria, preocupada de anunciar ao mundo a Incarnação. Esta visita, de fato, acontece à imagem da Incarnação; é a maior que se move, que vem servir, levando em si mesma aquele que, em seu seio, está tomando forma de servo e que vem "não para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos” (Mt 10, 45).
J.Goldstain, Harmoniques évangéliques, 18-20.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

20 de dezembro - Anúncio a Maria



Anunciação, Jean Marie Pirot (Arcabas)
As palavras da coleta deste dia nos permitem entrar diretamente no mistério de Maria, como ícone da Igreja e modelo de todo fiel: «A Virgem imaculada acolheu vosso Verbo inefável e, como habitação da divindade, foi inundada pela luz do Espírito Santo». O olhar da Igreja sobre o mistério de Maria, que lhe serve de espelho, é aquele de um espaço que, exatamente porque «o Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra» (Lc 1,35) torna-se um espaço de salvação, digno de ser chamado «habitação-templo». Deste templo, hoje a liturgia nos faz contemplar a «chave de Davi que abre as portas» (antífona do magníficat e aclamação do evangelho da missa). 
Misteriosamente, ainda antes do anúncio do anjo, parece que o coração de Maria já seja completamente aberto e que, nela, não exista nada que precise ser forçado, mas tudo está já pronto para que cada coisa se realize. Talvez o «sinal» (Is 7,14) que Maria é, vem precedido pelo sinal que a torna reconhecível ao anjo Gabriel «entre milhares de milhares» (Ct 5,10) e é por isso que a coleta a indica como parâmetro para que o mistério da Encarnação possa atualizar-se ainda no coração dos fiéis: «Concedei que, a seu exemplo, abracemos humildemente a vossa vontade». Bem diverso é o modo de reagir de Acaz (Is 7,11), que parece fechado por detrás da porta de uma certa devoção, que esconde o medo de confiar-se e de arriscar, com Deus, um percurso novo, de esperança e de vida. Maria é a mulher que se pergunta a si mesma e que tem coragem de perguntar ao anjo, mas com o tom justo: humildemente. Não se esgotará jamais a importância deste instante da história que mudou tudo e sobre o qual, a meditação da Igreja parece inesgotável. 
Amadeo, bispo de Losana – monge cisterciense e contemporâneo de São Bernardo – exprime admiravelmente com estas palavras: «Nós te pedimos, dize-nos qual sentimento te comoveu, qual amor te tomou, quando estas coisas se realizaram em ti, quando o Verbo tomou o teu espírito, os teus sentidos e a tua mente?»[1]. Tudo isto não pode estar senão envolvido pelo mistério de uma intimidade inviolável, mas, para nós fica tarefa de imitar a atitude de Maria, que «humildemente» sabe confiar sua vida, aceitando tornar-se guardiã da vida tão vulnerável do Verbo, que tenta fazer-se carne, para tornar-nos participantes de sua mesma vida divina. Uma palavra podemos levar no coração, como «sinal» (Is 7,14) e é aquela do anjo: «O Senhor é contigo! (Lc 1,28).
Fra Michel Davide OSB

[1] Amedeo di Losanna, Omelie mariane 3.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

19 de dezembro - Anúncio a Zacarias


Anúncio a Zacarias, têmpera acrílica sobre papel, Monastero di Amandola, Itália, 2007.
Zacarias é sacerdote, Isabel pertence à descendência de Araão. «Eram justos diante de Deus, observando, irrepreensíveis, todas as leis e prescrições do Senhor» (Lc 1, 6), e não obstante isso, parecem objeto de um castigo divino. «Isabel era estéril e ambos eram avançados em idade» (Lc 1, 7).
Tem-se a impressão de que a história de Abraão recomece de novo. Como acontece com Abraão e Sara, Deus mesmo intervirá com sua Palavra, e um Anjo será o seu mensageiro. (...)
A aparição de Gabriel no Santuário, durante o oferecimento da tarde, será finalmente o cumprimento próximo da profecia, anunciada no livro de Daniel, referente à vinda do Messias e à unção de um Santo dos Santos (cf. Dn 9, 20-27). E enquanto anuncia a Zacarias que suas orações foram atendidas, o anjo Gabriel, de pé ao lado do altar, descreve a missão do filho que Isabel lhe dará. Diz, antes de mais nada, o seu nome, que já é revelador: «João», que significa «JHWH faz graça».
Deus responde à oração do homem com a superabundância da sua graça. E Gabrel sublinha a alegria trazida pelo nascimento do menino; e já se tem um perfil da alegria messiânica que cumulará a espera de Israel. A consagração de João para uma missão particular é afirmada em termos que recordam a história de Sansão (cf. Jz 13, 4. 13-14) e a instituição do nazierato (cf. Nm 6, 3).
Esta missão consiste no caminhar diante ao enviado de JHWH com o espírito e a força de Elias, isto é, na qualidade de profeta. A plenitude do Espírito Santo que desce sobre ele, desde o seio materno, o coloca nas pegadas de Jeremias (Jr 1, 5), e o seu papel de reconciliador messiânico plenifica a esperança entrevista por Malaquias no final do Antigo Testamento (cf. Ml 13, 24): deve preparar o povo à instauração do Reino.
No momento no qual, para Israel, se anunciam estes dias decisivos, Zacarias se vê reduzido ao silêncio. Ele fez a mesma pergunta de Abraão: «como posso saber que será assim?» (cf. Gn 15, 8), mas sem a fé de Abraão.
Ele opõe a própria situação, assim como a vive, à Palavra Criadora de Deus. Como o primeiro Adão, exige um saber maior que a Revelação que lhe é concedida, mas a Palavra de Deus dá testemunho de si mesma: «quem deu boca ao homem? Ou quem o torna mudo ou surdo, vidente ou cego? Não sou, por acaso, eu, o Senhor? – responde Deus a Moisés, desconfiado e hesitante. – por acaso, não está aí Araão, teu irmão? Tu lhe falarás, e colocarás em sua boca as palavras que serão ditas» (Ex 4, 11. 14-15).
Uma mesma palavra de vida atravessa a carne dos dois esposos, tornando a uma, fecunda, e ao outro, mudo. Zacarias, reduzido ao silêncio, impotente de pronunciar a benção final, deve comparecer diante daquele – Único -- que pode pronunciá-la, e de levar até a plenitude a liturgia iniciada.
Depois, uma vez curado, Zacarias bendirá a Deus, mas a benção sobre o povo será dada, ao final do evangelho (Lc 24, 50-51), por Jesus, que Pedro chamará 'o servo enviado a trazer a benção' (cf. At 3, 26). (...) E com ela, cumprir-se-á, para além de toda esperança, a promessa feita por Deus a Abraão: «Em ti serão abençoadas todas as tribos da terra» (Gn 12 12, 3).
Ph. Bossuyt - J. Radermakers, Jésus Parole de la Grace selon saint Luc, 95-98.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

17 dezembro - Na história dos homens

Capuchin's Bible, c. 1180, Bibliothèque nationale de France, Paris
No início do Novo Testamento encontra-se o homem Jesus, que vem da história dos homens: com sua genealogia, Mateus introduz com muito cuidado, uma longa e confusa história do Antigo Testamento no Novo, que começou com Jesus Cristo. Em uma tríplice série de quatorze gerações, ele retoma, de modo peculiar, toda esta história e a reconduz àquele pelo qual, definitivamente, ela existiu. Ele mostra que esta história, sobre todos os seus caminhos, de maneira misteriosa, coloca em evidência a Cristo; faz ver também que, mesmo no passado, tratava-se sempre e unicamente de um único Deus, que visitava o seu povo e que agora, em Jesus Cristo, tornou-se o irmão dos homens. (...)

A história na qual fez o seu ingresso Jesus, é uma história normalíssima, com todos os escândalos e as vilezas que se encontram entre os homens, com todos os progressos e os bons propósitos, mas também com todas as culpas e baixezas: uma história extremamente humana. As quatro mulheres, que são nomeadas na genealogia, são quatro testemunhos da culpa humana: entre elas está a prostituta Raab, que com um estratagema fez Jericó cair nas mãos dos israelitas; entre elas está a mulher de Urias, da qual Davi se apossou com adultério e homicídio. As coisas não são diferentes se olhamos os homens: nem Abraão, nem Isaac, nem Jacó são figuras ideais; não o era Davi e nem mesmo Salomão; e, enfim, encontramos tiranos, como Acaz e Manassés, cujo trono é banhado com o sangue de pessoas inocentes assassinadas. É uma história tétrica aquela que conduz a Jesus, não sem esperanças e sem momentos positivos, mas no conjunto, uma história de miséria, de culpa, de falência. É este o ambiente no qual poderia nascer o Filho de Deus? – nos vem a vontade de perguntar. A Escritura responde: sim! Exatamente isto nos foi dado como sinal. A encarnação de Deus não é o resultado da ascensão do homem, mas o resultado da descida de Deus. (...)

A genealogia de Mateus começa com Abraão e é, pois, um testemunho da fidelidade de Deus, o qual cumpriu a promessa feita anteriormente a Abraão: ser o portador de uma benção para toda a humanidade. Toda a genealogia, com todas as suas desordens, com seus altos e baixos, é um luminoso testemunho da fidelidade de Deus, que mantém a sua Palavra, não obstante todas as falhas, não obstante toda a indignidade dos homens. O Evangelista Lucas, que nos oferece também uma genealogia de Jesus (Lc 3,23-28), escolheu um ponto de vista diferente. Ele faz chegar a genealogia do Senhor não somente a Abraão, mas até Adão, até às Mãos que plasmaram o homem. Com isto ele deseja indicar que a comunidade de Jesus não é somente um novo Israel, um novo povo de Deus, que Deus reúne para si neste mundo, mas quer afirmar que a missão de Jesus é dirigida à toda humanidade. Não é uma salvação para um grupo, um círculo, mas para a humanidade toda, o mundo. Somente em Jesus Cristo a missão do homem atinge a sua verdadeira meta, somente nele é realizado o projeto criativo «homem»; nele nos apareceu a humanidade do nosso Deus. No rosto de Jesus Cristo apareceu quem é Deus e se manifesta quem é o homem.

J.Ratzinger, Dogma e predicazione, 263-266.



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O TETRAMORFO

Visão de Ezequiel, iluminura, Winchester Cathedral, Hampshire, UK, séc. XII
Desde tempo imemoriais, passando por muitas culturas distintas do Mediterrâneo, encontramos a figura do Tetramorfo, ou da esfinge, que une os quatro seres, Homem, Águia, Touro e Leão. A estranheza da figura só contribuiu para sua ampla difusão nos mundo, e mesmo sua assimilação no judaísmo do Antigo Testamento e também no cristianismo do Novo.

Voltemos ao que pode ser a origem cosmológica do símbolo: As constelações que marcam os solstícios e os equinócios, estes quatro momentos importantíssimos no girar do tempo em um ano, são especificamente a constelação de Aquário, a de Leão, Águia e Touro.
Então, temos na origem o significado profundo do tempo cósmico, não aquele que depende de calendários convencionais e arbitrários, mas o fluir do tempo no universo. Os quatro animais ou seres eram os marcos dos dois solstícios e dois equinócios do ano, momentos chave do tempo. A fato de que sejam quatro tampouco é casual, dado que tudo que se refere ao mundo em que vivemos tem este número: um exemplo, na área do espaço, é o dos quatro pontos cardeais, sem os quais não conseguiríamos localizar-nos na superfície do planeta.
Os quatro filhos de Horus, em forma de vasos canópios, onde eram guardadas as entranhas das múmias, segundo o que cada um dos deuses tinham em função com os orgãos. Note-se a semelhança, seja no número seja nos tipos dos animais que os representam.
Nas concepções antigas, toda a criação é composta de quatro elementos: ar, fogo, terra e água. Então temos o quatro no universo, na superfície da terra e no íntimo da matéria: não por acaso se acreditava que o mundo fosse quadrado, porque de fato o é, não fisicamente, mas com o seu sentido quadrilateral.
Palace Guardian Nimrud, Assyria, c. 965 A.C. British Museum
Em Israel, as doze tribos estavam organizadas como as doze constelações que acompanham o sol em seu percurso anual, o zodíaco, e além disto, no acampamento no deserto, estavam agrupadas de três em três, com uma delas afrente, com seu emblema: Isacar, Zabulon, Judá: Leão; Ruben, Simeão e Gad: Homem; Efraim, Manasses, Benjamim: Touro; Dan, Aser, Neftali: Águia.
A tradição judaica faz corresponder a cada um destes seres, as letras do nome divino YHVH: Y corresponde ao Homem, H ao Leão, V ao touro, e a segunda H à Águia[1].
Teofania de Cristo, com a presença da Merkabah, com suas seis rodas. Mosteiro de Bawit, Egito, séc. VI
Ezequiel, seguindo a cultura de seu tempo, contempla a figura do «Carro de Deus» ou «Merkabah», justamente constituído pelos quatro seres vivos, associados às rodas do carro. (Ez 1,4-28) Este carro simboliza as ações divinas no mundo, o lado externo de o Deus indizível. Existe uma relação constante de natural entre o UNO transcendente (YHVH, o polo celeste) e o quaternário de sua manifestação e de sua ação no mundo criado[2]. A mensagem era, antes de tudo, mostrar a seus compatriotas que YHVH não estava materialmente unido ao Templo de Jerusalém, que a ruína do Santuário não levava à ruína da religião; que YHVH podia encontrar-se com o exilados junto aos rios da Babilônia e aparecer-lhes, más misterioso que nunca, no esplendor de uma teofania que superasse, de muito, as anteriores.
Ascensão de Cristo, no meio do Tetramorfo, Ponta de Santa Sabina, séc. IV, Roma.
A interpretação que Santo Irineu (202) deu aos tetramorfos e que a Igreja fez sua depois dele, situa-se no prolongamento da linha do «Merkabah». Na misteriosa aparição que surge no céu entreaberto, no meio dos quatro viventes, Irineu, referindo-se aos símbolos tradicionais d universo na Antiguidade, reconheceu a manifestação universal de Deus aos homens atentos, sendo esta a figura do anúncio de Cristo ao mundo, pelos quatro evangelhos. «Não é admissível que hajam mais de quatro evangelhos, nem tampouco menos. São quatro as regiões do mundo em que vivemos, e quatro os ventos dos pontos cardeais... Por isso é evidente que o Criador de todas as coisas, o Verbo, que está sentado sobre os querubins (os viventes da visão) e sustenta o universo, quando se manifestou aos homens, deu-nos um evangelho sob quatro formas, porém sustentado por um único espírito.... Os querubins tem, com efeito, quatro figuras (leão, toro, águia, homem) e seus semblantes são imagens da atividade do Filho de Deus».
Evangeliário, Madeira e marfim, Séc. XIII, Museo Cluny, Paris - França.
Irineu expõe o parentesco dos evangelistas com os Viventes, mas é uma aproximação arbitrária e não simbólica, que servirá mais para a iconografia que para outra coisa. Como o evangelho de Mateus começa com a anunciação a José, e nele aparecem os anjos, o Homem será o seu distintivo; Como o de Lucas começa no Templo, com a anunciação a Zacarias, depois do sacrifício do Touro, este animal será o seu distintivo. Já Marcos começa seu relato com Jesus indo para o deserto, e neste evangelho, aparece como o Leão de Judá, assim será representado. Finalmente, João começa seu relato nas alturas do Verbo no princípio de tudo, e por isso, associado à ave que mais alto consegue voar: a Águia.
Evangeliário, Etiópia, séc. XIV.
A associação não esgota o forte conteúdo do Tetramorfo, que tem seu referimento original, como dissemos à universalidade da manifestação do Senhor em relação ao mundo. Alguns autores insistirão que é mais importante o número do que a especificação de cada um deles, no que não concordamos plenamente, dado que uma análise das formas, em seus detalhes pode ser também muito rica. Em uma homilia muito famosa de Macário, o Grande, ele nos dá uma visão bastante interessante:


«O beato profeta Ezequiel narra uma visão e uma aparição divina e gloriosa que contemplou (cf. Ez 1,1s; 10,2s), e a descreveu plena de mistérios inefáveis. Viu, de fato, na planície, um carro de querubins, quatro eram os viventes espirituais, dos quais, cada um tinha quatro faces: a primeira era de leão, a segunda de águia, a terceira de touro e a quarta de homem. Cada face era provista de asas, de modo que não se distinguiam nem a parte anterior, nem a posterior. O seu dorso era coberto de olhos, e também o seu ventre, e não havia neles nenhum lugar que não estivesse cheio de olhos, e ao lado de cada face, existiam rodas, encaixadas umas nas outras; e, nas roda, havia um espírito. E viu uma aparência de homem sentado sobre elas; o escapelo de seus pés tinha a aparência de uma safira. O carro levava o querubim, e os seres vivos levavam o Senhor-Condutor que os conduzia. Onde quer que andasse, era sempre na direção de um dos rostos. E viu sob o querubim como que uma mão de homem, que o sustentava e o carregava. 
O que o profeta percebeu como real era verdadeiro e indubitável. Todavia, a visão deixava entrever uma outra realidade e figurava uma coisa misteriosa e divina, um mistério escondido, na verdade, por séculos e gerações (Cf. Col 1,26), mas que tornou-se visível nos últimos tempos (Cf. 1Pd 1,20) através da manifestação de Cristo. O profeta, de fato, contemplou o mistério da alma que recebe o Senhor e se torna o trono de sua Glória ( cf. Mt 19,28; 25,31) [3]

Para Macário, os quatro seres vivos que levavam o carro eram a figura das faculdades que regem a alma. De fato, como a águia reina sobre as aves, o leão sobre os animais selvagens, o touro sobre os animais domésticos e o homem, sobre a criação, assim acontece com as potências da alma, que reinam sobre as outras. Trata-se da vontade, da consciência (moral), do intelecto e da faculdade de amar. Elas dirigem o carro da alma, e nele, Deus repousa. Do que podemos inferir que o ser humano é a Merkabah de Deus no mundo.
Beatus de Fernando I - Liturgia Celeste - Biblioteca Nacional, Madrid - Vit. 14.2, f. 116v
Não se trata simplesmente de uma visão psicologizante, mas em perceber que o ser humano tem quatro dimensões. Quatro modos de ser no mundo, também ligados aos quatro elementos que estão na base de todas as coisas, a terra, o fogo, o ar e a água! Bastante diferente da visão helenística do corpo-alma, a que estamos acostumados.

Uma ajuda, nesta reflexão quadrilateral, vem de Pierre Weil[4], na qual, seguindo a intuição do tetramorfo das culturas mediterrâneas, associa apropriadamente os três seres às dimensões do homem: o Touro à parte vegetativa, o Leão à irascível, e a Águia à intelectiva.

Interpretação de Weil sobre o tetramorfo, com os geniais desenhos de Roland Tompakow.
O autor desenvolverá uma inteligentíssima leitura destas dimensões em relação com nosso corpo, mostrando como temos uma linguagem própria, muito para além das palavras, em cada mínimo gesto de nosso rosto ou corpo. O limite da visão de Weil é o fato de que ele não leve em consideração o número, que desde sempre foi o que marcou o símbolo. Ele vai definir que o quarto elemento, o Homem, é a somatória dos outros três, mas isto nunca acontece no campo da linguagem simbólica, ainda que possamos ter a complexa posição de um quarto elemento que seria também um quinto, por simbolizar os quatro juntos, não é o que se trata aqui. Por isso, à reflexão de Weil acrescentamos a visão de Macário nos primeiros séculos do cristianismo, em que o Homem-Anjo representaria a dimensão espiritual do ser humano, aquela parte que deseja e anseia pelo transcendente, mesmo que não religioso propriamente dito. É aquela parte de nosso ser que tem nostalgia da Beleza original. Muito da “religião” do mundo sem religião é direcionada para as artes, os concertos são como cerimônias sacras, os museus como novos templos, tudo levando a experiências de comunhão que vão além do simplesmente físico, racional ou afetivo. O mesmo pode acontecer com ideologias ou a política encaradas com fanatismo.
Tetramorfo em uma única figura. Afresco em um dos mosteiros Meteora, Grécia.
Poderíamos então concluir que o Touro trabalha por todos, o Leão ama por todos, a Águia busca as razões para todos, e o Anjo realiza a comunhão profunda por todos.

Sintetizando, nas manifestações de Deus, chamadas teofanias, encontrarmos os quatro seres vivos, o Tetramorfo, com múltiplas funções, como vimos acima: como Merkabah, carro de Deus, simbolizando sua mobilidade e presença junto de seu povo, através de símbolos cósmicos justamente para mostrar que este “estar com” vai infinitamente além do mero planeta Terra; Os seres simbolizam as doze tribos do Povo Eleito, resumidas nos quatro que estão à frente, assim como as quatro letras do Nome Divino, que como o carro, revelam, sem desvelar, a Presença invisível. Finalmente, também os quatro elementos que compõe o universo, a terra, o fogo, o ar e a água, com seus equivalentes das quatro dimensões humanas, das áreas vegetativa, irascível, intelectiva e
espiritual, que aparecem como moldura de um quadro, como janela de um Mistério maior: O Senhor se manifesta não somente para uma das dimensões do ser humano, mas para todas elas simultaneamente.
O equilíbrio de uma existência é justamente aquele de que cada dimensão cumpra sua função, e os Padres da Igreja, e também os Pais do Deserto, vão mostrar que as doenças do cristianismo estarão sempre em conexão com a falta de harmonia entre os quatro seres dentro de nós, pois somos a Merkabah de Deus no mundo.
[1] Champeaux, G. et Sterckx, S. Le monde des Symboles. St. Léger Vauban: Zodiaque, 1972, 510.
[2] Hani, J. , El simbolismo del templo Cristiano, José J. De Olañeta Editor, Barcelona, 1983, 81-82.
[3] Macario il Grande, Hom I, 1-3, PG 34, 451AB; Les homélies spirituelles de saint Macaire, Spiritualité Orientale n. 40, Abbaye de Bellefontaine 1984, 89-91.
[4] Weil, P. O corpo fala. Petrópolis: Vozes, 2005.