quarta-feira, 3 de abril de 2013

TP 01 4 O teu nome é Ignorância, aleluia!




Como explica um texto admirável de Michel de Certeau[1], tudo isto acontecia «no mesmo dia» (Lc 24,1). Trata-se do primeiro dia da semana: dia primeiro e último, dia no qual os discípulos parecem resignarem-se ao «fato» da morte de seu Mestre e que, ao invés, é o dia de sua ressurreição, capaz de recolocar em caminho a vida e a história desde um ponto completamente novo e inesperado. 
Tudo isto torna-se possível porque «Jesus, em pessoa, aproximou-se deles, e caminhava com eles» (24,15), fingindo uma ignorância  que provocaria, nos discípulos, a possibilidade de um conhecimento total e completamente novo. 

Gregório Magno, enquanto comenta este texto, exprime-se assim: «A Verdade, que é simples, não fez nada com duplicidade; ela simplesmente manifestou-se aos discípulos no seu corpo assim como era no espírito deles. A Verdade caminhava com eles; não podiam, pois, permanecer estranhos ao amor e, por isso, ofereceram-lhe a hospitalidade, como se faz com um viajante»[2].

Às mulheres que vão ao sepulcro e lá encontram o Mestre ressuscitado e desejoso de indicar-lhes caminhos novos de vida e de alegria, sucedem, hoje – naquela que poderíamos definir como galeria das testemunhas da Oitava de Páscoa – estes dois discípulos, que – um pouco como o profeta Jonas – vão na direção oposta àquela da Cruz, quase para subtraírem-se, em uma mistura de medo daquilo que lhes poderia acontecer e de uma nostalgia sutil daquilo que poderia, ao contrário, ter sido: «Nós esperávamos que ele fosse aquele que teria libertado Israel» (24,21). É tal a angústia que ferroa o coração dos dois discípulos, que eles tem necessidade de falar com alguém daquilo que lhe sufoca o coração: tomaram a decisão – estão indo longe de Jerusalém – mas a palavra – tão evidentemente absurda – das «mulheres» (24,22) deixou-os «desconcertados» e continua trabalhando-os interiormente, como um cupim.




Se é típico das mulheres manifestar e afirmar os próprios sentimentos mais profundos, é próprio dos homens exorcizá-los com os raciocínios. O Senhor Jesus revela-se a partir do modo que cada um tem para enfrentar as grandes passagens da vida, por isso faz-se encontro diante das mulheres, em um face a face exaltante, e diante destes dois homens, caminhando próximo com eles, e subtraindo-se à sua vista, quase para não humilhar as conclusões a que chegaram, com seus raciocínios, repletos de evidências. 
Não é diferente a situação da qual nos fala hoje os Atos, e que acontece «junto à porta do templo, chamada Bela» onde «com frequência» era colocado um paralítico. Quem esperaria uma cura quando está acostumado receber «esmolas» (At 3,2)? O mistério pascal de Cristo Senhor nos convida a tomar consciência da nossa profunda ignorância sobre aquelas que são as possibilidades da vida, dentro e ao nosso redor. Saberemos, como Pedro e João, ser dispensadores de esperanças sempre maiores, que se exprimem em uma só palavra: «Caminha!»?
Fra MichelDavide Semeraro OSB, Messa quotidiana – aprile, Bologna 2010, 145-147.



[1] Certeau, M. De,  “les pèlerins d’Emmaus”, in Christus 13 1957, 38-39.
[2] Gregorio Magno, Omelie sui vangeli 23.

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