sábado, 13 de abril de 2013

TP 02 7 O teu nome é Língua, aleluia!

Icone de Cristo, encaustica sobre madeira, Monte Sinai, séc. VI
Certamente, não é somente uma questão de língua, ainda que a própria língua carregue o sinal de seu mundo particular e se seu modo único de estar no mundo. Não passou muito tempo depois da experiência matinal de Pentecostes, cujo sinal de uma nova efusão do Espírito foi justamente aquele de uma renovada capacidade e possibilidade de compreender-se, e eis que surge um conflito no interno de uma comunidade fundamentalmente assinalada e plena dos dons do Ressuscitado. Esta inesperada desordem parece ligada, como frequentemente acontece, ao fato de que a comunidade vá «aumentando», tanto que «aqueles de língua grega murmuravam contra aqueles de língua hebraica» (At 6,1). É bom não esquecer que isto acontece na primeira comunidade cristã, porque isto nos ajuda a não escandalizar-nos com as dificuldades e incompreensões que insurgem, e insurgirão ainda, no seio da comunidade dos fiéis de cada época e também do nosso tempo.

Para evitar o pior, será bom saber e crer que o Espírito nos foi dado e nos é continuamente dado, justamente para que possamos ir além, e encontrar sempre as palavras e os modos justos. Parece que o conflito, que evidencia, ainda uma vez, um sofrimento, tenha aguçado a criatividade da comunidade e, antes de mais nada, dos apóstolos, que se sentiam responsáveis pela comunhão entre todos e pela paz de todos. A bondade da escolha é confirmada pela conclusão do discurso de Pedro, que não faz senão retomar, de um modo ainda mais profundo, a introdução do texto: «... e o número dos discípulos, em Jerusalém, se multiplicava grandemente; também uma multidão de sacerdotes aderia a fé» (6,7). Existem momentos, na nossa vida pessoal e comunitária, nos quais parece fazer-se particularmente «escuro» (Jo 6,17), e é justo ali que podemos contar com uma passagem de Jesus, que se aproxima ao nosso coração «agitado».

A reação dos discípulos e sua transformação interior são, para nós, não somente uma admoestação, mas uma verdadeira fonte de esperança. O evangelista João não nos diz nada a respeito das palavras que trocaram o Mestre com seus discípulos, mas nos coloca diante da reação imediata que vem com aquele senso de alívio que lhes conquista interiormente: «Então, quiseram levá-lo sobre a barca, e ela, imediatamente tocou a outra margem, a que se destinavam» (Jo 6,21). Toda a vida e toda a história da Igreja é marcada e orientada nesta navegação interior na direção do outro: uma aventura que nos leva a conhecer praias nunca antes vistas nem pensadas, até a desejar sermos compreendidos em nossa língua, fazendo todo o esforço de compreender, no mais profundo, a língua do outro. Nas situações que nos parecem as mais difíceis e insuperáveis, frequentemente sentimos ressoar a voz inesperada do Ressuscitado: «Sou eu, não tenhais medo» (6,20). Não existe nenhuma dificuldade – seja pessoal como comunitária – que possa impedir ao Espírito do Senhor sugerir percursos e abrir novas soluções: «Esta proposta agradou a todo o grupo» (At 6,5).

Semeraro, M., La messa quotidiana, aprile 2013, 137-139.

Um comentário:

Stella Daudt disse...

Tenho que me lembrar de pedir "para encontrar sempre as palavras e os modos justos." Ótimo texto, Ruberval, linda imagem, como sempre.